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Você não é mãe dele

Ilustração: Izadora Luz

* Vou falar de relacionamentos heterossexuais. Acho que mulheres podem ser mães de outras mulheres e homens mães de outros homens no sentido do texto, mas acredito que o mais comum seja entre mulheres e homens por questões socioculturais.

Em um ano de Capitolina devemos ter falado mais ou menos 1 zilhão de vezes que as diferenças entre homens e mulheres são socialmente construídas. É um dos axiomas da nossa revista. Pois bem, uma das diferenças socialmente construídas entre homens e mulheres é o cuidado.

Mulheres são ensinadas a cuidar de si e dos outros, mulheres são mães e homens são pais, mas uma pequena observação de como isso acontece revela que as mulheres cuidam muito mais dos filhos do que os homens. O papel feminino sempre foi associado ao cuidado e até pouco tempo atrás nem todas as mulheres trabalhavam fora – historicamente, a entrada de mulheres no mercado de trabalho aconteceu para mulheres brancas e de classe média/alta já que mulheres negras e pobres sempre tiveram que trabalhar –, hoje a grande maioria das mulheres trabalha e cuida da casa configurando jornadas duplas de trabalho. São também as mulheres que costumam cuidar dos idosos. Tudo isso pra dizer que mulheres aprendem a cuidar dos outros, a resolver pepinos dos outros, a ajudar os outros.

Não estou dizendo que todas as mulheres são assim ou que homens não são, até porque isso seria reforçar o cuidado como algo intrinsecamente feminino. Estou dizendo que, desde crianças, meninas são ensinadas a serem cuidadoras — algumas mulheres vão internalizar isso mais do que outras, da mesma forma que alguns homens vão também internalizar isso.

Quando a gente está namorando ou se relacionando de forma séria com alguém, esse lado do cuidado aparece ainda mais forte. Seu namorado não consegue terminar um trabalho pra faculdade e você já terminou os seus, aí você ajuda; seu namorado resolve escalar uma pedra limosa na cachoeira e você manda ele descer; está na hora de se inscrever nas disciplinas da faculdade e você lembra seu namorado, senão ele esquece; você tem que ensinar conceitos básicos pra ele; lembrar ele de ir ao dentista; ajudar a comprar móveis, senão a casa fica vazia; você se pega organizando as coisas na casa dele, lavando a louça, fazendo comida; vocês vão viajar e você leva duas toalhas, além de organizar tudo; ele deixa o cabelo crescer e você compra shampoo; exemplos ao infinito.

A gente acaba infantilizando os caras — e muitas vezes eles curtem esse papel e vão incentivando isso na gente, porque é mais fácil mesmo ter alguém pra resolver sua vidinha — e fazendo coisas que não são nossas obrigações e, principalmente, que eles não pediram. E isso pode ser muito prejudicial pro namoro e pra gente, que saco ter que ficar fazendo coisas por alguém que deveria ser seu parceiro, te ajudar também. Especialmente quando esses papéis se naturalizam no relacionamento e o cara passa a esperar isso de você, e você passa a fazer sem questionar.

Claro que amor implica cuidado, como eu mesma já falei em outro texto. E às vezes a gente é melhor em algo e realmente não se importa de fazer. Só que existe uma diferença entre ajudar e cuidar do seu amor e fazer as coisas por ele, no lugar dele, pra proteger ele de tudo. Isso é ser mãe. E você não é mãe do seu namorado. Repito como um mantra: você não é mãe do seu namorado, você não é mãe dele.

Às vezes pode parecer muito difícil fazer a diferença entre cuidar como namorada, ajudar como companheira, fortalecer como parça e entrar no limiar do cuidado maternal. E é difícil mesmo, porque são nuances, ambiguidades. Mas eu acho que existem duas formas de perceber: a primeira é fazer a seguinte pergunta: “Ele me pediu ajuda?” Simples assim, quando o boy precisar de ajuda ele vai te pedir, especialmente se é em algo que ele sabe que você é boa, da mesma forma que você sempre pode pedir ajuda a ele. A segunda forma é entender como você se sente em relação àquela ajuda que você tá dando: por que você está ajudando ele? É muito ruim achar que a pessoa que tá com a gente é incapaz de alguma coisa.

Especialmente porque os caras não são incapazes, se é algo que você consegue fazer ele vai conseguir também, mesmo que demore mais tempo e ele não seja tão habilidoso quanto você. A gente é criada pra achar que precisa cuidar de todo mundo o tempo todo, que esse é nosso papel, mas não é. Agora, se ele te pedir ajuda, vai lá, porque companheirismo é isso. Só que não é preciso fazer o que você não quer, especialmente o que você sente que não é sua função. Você não é mãe dele.

Texto originalmente publicado por Brena O’Dwyer na revista digital Capitolina.

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