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Você cria expectativas… Vem a vida e te ‘’Ladygaga’’

Quando eu era pequena, minha vó dizia que frustração causava febre. Você desejava aquela comida que não dava certo, esperava aquela festa que não acontecia, contava com aquele dinheiro que não saía… E, dias depois, adoecia sem saber o porquê. Era raiva, decepção, vontade ‘’somatizada’’. O mesmo tipo de doença misteriosa que fazia qualquer pessoa ganhar um terçol depois de negar favor à mulher grávida.

Se você acha que isso é antigo, precisa ler, aqui na internet, a recente história da senhora que estava passeando com a netinha na rua quando a menina, de um ano, apontou para o copo de suco de uma pessoa estranha. “Eu qué”. A avó dedicada abordou a mulher do suco e pediu, carinhosamente, que ela cedesse um pouquinho do seu lanche para a ‘’bebezinha não passar vontade’’. A moça não só negou, como também fez cara feia. Coisa que as redes sociais definiram como ‘’falta de humanidade’’.

Falta de humanidade é criar crianças e adolescentes que recebem doce na boca e Ipad nas mãos para não espernear em público. É deseducar essa turminha que chantageia pai, mãe, e é convencida de que pode tudo. É iludir esse povo que faz manha com o mundo, que acha um absurdo levar multa por estacionar ‘’rapidinho’’ no lugar errado. Que acha sacanagem não ser disputado a tapas pelo mercado de trabalho. Que acha que é perfeito demais pro companheiro, inteligente demais pro professor, feliz de menos pra vida e semprefodapracaralho.

Lidar com frustração dá mesmo febre. Uma daquelas febres que ninguém vê. Dá raiva, dá nó nas tripas do intestino. Não é fácil não passar naquela prova para a qual você tanto estudou. Não é legal cancelar o casamento na praia por causa do tempo que fechou. Não é bom perder a saída do cruzeiro porque o voo atrasou. Frustrar, frustrar, frustrar. Até na boca o verbo trava. Trava a vontade, trava os planos, trava o esperado. Trava tudo quando você mais se preparou. Porque você sonhou, trabalhou, divulgou… E veio a vida pra te ‘’Ladygaga’’.

O Rock in Rio foi uma aula de sobrevivência ao assassinato do ‘’tão esperado’’. Filas e mais filas se formaram à espera da cantora. Gente vendeu carro, vendeu moto. Viajou dias de ônibus. Saiu da Bahia, de Minas, do Espírito Santo. Gente pediu demissão do trabalho. Gente que trocou ingressos pelo próprio gato. Gente que organizou cartazes, performances, gritos desesperados. Gente que passou meses inteiros sonhando com a Gaga cantando ‘’Million Reasons’’ em cima do palco.

Aí veio vida sendo vida. Trazendo aquele balde de água fria e brincando de choque de realidade. A cantora mandou dizer que estava com dores no corpo por conta da fibromialgia e cancelou a apresentação. Você queria uma Lady Gaga, o mundo te deu Maroon five.

É assim. Um saco. Merece mesmo uma lagriminha no canto do olho, talvez um porre no meio do sábado. Mas não cabe escândalo diante da TV, remédio calmante na veia e estardalhaço. Você não vai morrer. Você vai sofrer, mas está a salvo.

Porque a vida vai te ‘’ladygaga’’ tantas vezes, meu amigo. Bem no meio da sua cara. E não serão vezes simples, como a viagem perdida e o décimo terceiro atrasado. Não serão coisas passageiras, como o resultado ruim da prova e o show cancelado. Serão coisas tão sérias, tão pesadas, que nem febre de frustração vai dar.

É debaixo do chuveiro que a gente aprende a lição gelada. Nossa expectativa dá pulos pra se aquecer. Como a mãe que sonhou ter seu bebê de parto normal e mal conseguiu segurar a criança nos braços. O pai que desejou ter netos e mal viu o filho formado. A moça que desejava conhecer o mundo e descobriu um câncer incurável. O cara que queria ser atleta e se viu acidentado.

A vida é esse festival de músicas fora de ordem. Esse desafio feito para artistas de reinvenção. A vida é essa surpresa. Essa febre de incerteza. Esse colo de vó para choro frustrado. Esse teste constante pro coração.

 

 

 

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#homofobiaédoença