in

Você ama o outro quando ele merece ou mais precisa?

“Ser bom no bom é fácil”. Quem nunca ouviu essa frase que atire o primeiro dicionário.

A gente vive num mundo de imediatismo e facilidades, nos tornamos embaixadores da praticidade, e temos pavor de tudo que signifique espera, paciência e complicação. Somos modernos, preparados, desenvolvidos. Sementes feitas para germinar em solo fértil. Somos bons. Desde que estejamos submetidos a boas condições de água, sorriso, temperatura e estímulo.

Nós desaprendemos a ser bons no ruim. Se o emprego não vai bem, mudamos de área antes de puxar uma cadeira e chamar o chefe para conversar. Se o motor quebra, começamos a contar parcelas pra trocar de carro, porque ninguém gosta da palavra “consertar”. Se o negócio não deu certo, mudamos de ramo antes de insistir. Se o papo do amigo não agrada, mudamos de mesa antes de discutir. Queremos mudar de país,  de vida, de tudo… Queremos ser bons no bom… Não sabemos germinar no ruim.

Amamos nossos entes amados quando eles são aquilo que desejamos ver. Amamos nosso companheiro quando ele traz doces depois do trabalho, amamos nossos amigos quando eles ligam para nos fazer rir, amamos profundamente nossos familiares quando eles nos doam tempo, dinheiro ou até um rim. Amamos sempre que o outro faz por onde ser amado. Amamos quem merece ser.

O que esquecemos é que amor, esse instrumento velho e trabalhoso que gira o mundo, não é feito de meritocracia. Esquecemos que amar é um exercício que nos exige calma, desprendimento e doses cavalares de altruísmo, compreensão e empatia. Esquecemos que amar é como se oferecer para um transplante vivo de coração. Não nos doamos para quem merece, para quem está saudável, para quem correr sem ressalvas para o nosso abraço, para quem não tem problemas em bombear entrega e perdão. Nos doamos para quem precisa, para quem tem risco de infeliz vida, para quem precisa da nossa atenção.

É fácil amar a amiga, a mãe, a  filha ou a enteada quando ela é carinhosa por uma vida… Presente, compreensiva, pacífica. É difícil amar quando ela nos diz o que não queremos ouvir, quando ela se abre em confissões de dor, quando ela usa palavras duras e tem reações ríspidas.

É fácil amar o companheiro que nos diz coisas bonitas, que nos traz flores no fim do dia, que divide as tarefas da casa e significa boa companhia. Difícil é amar quem esquece nossas datas, quem chega cansado demais em casa, quem traz as frustrações do emprego pro momento que não devia.

É fácil amar a esposa bem humorada e parceira, que dá risada, dá conselho e está sempre inteira. Difícil é amar quando ela se contorce numa crise violenta consigo mesma. Quando padece numa TPM traiçoeira, quando ela faz um comentário injusto, deixa o sofá sujo, se atrasa pro compromisso, grita sem motivo e chora sem parar.

É fácil amar.

Amar o feed do Facebook quando ele concorda com a gente, o professor quando ele nos dispensa e compreende, o pai e a mãe quando eles não estão presentes, o vizinho quando ele é sorridente, o time quando ele ganha, a política quando ela não nos desafia, a verdade quando ela não incomoda, o chefe quando nos elogia, o cachorro quando ele não faz pirraça, o bebê quando ele não faz manha, o amigo quando ele nos convida, o palhaço quando só faz graça, a pessoa que nunca reclama. O colega que só concorda. É fácil amar o amor.  É fácil germinar jardim. Difícil é ser bom na dor.  Difícil é ser amor no ruim.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receita de bolo pé de moleque para dar boas vindas ao mês das festas juninas

‘Amor é transferência. Não mão de duas vias’