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Uma reflexão feminista sobre o Dia do Amigo

Foto: Atlanta Black Star

Digitando “amizade feminina” no Google, os primeiros resultados que você vai encontrar são piadas relativizando a amizade entre mulheres. Piadas essas que todo mundo já ouviu, que estereotipam a relação entre mulheres como falsa, fingida e superficial, enquanto a amizade entre os homens é verdadeira, sem frescura, na brodagem. A propagação desse estigma de amizade superficial é muitas vezes inconsciente, mas se jogarmos luz, é um dos muitos discursos que o patriarcado usa para nos enfraquecer e nos manter desunidas.

Dizer que a amizade entre mulheres é falsa estimula a rivalidade feminina e faz com que elas não conversem entre si, não confiem uma na outra – logo, não dividam nem compartilham angústias e dores que só elas conhecem, muitas dessas por conta do machismo.

O exemplo mais prático disso é quando, num relacionamento abusivo, o abusador faz de tudo para que a vítima se isole das amigas – pois elas são quem, na maioria das vezes, percebe que algo está errado e tenta proteger a vítima. Afastando-a das amigas, fica mais fácil para o abusador afirmar que ninguém além dele a ama, que ela não tem valor, que ela precisa dele.

A verdade é que o patriarcado sabe que, unidas, as mulheres podem muito. A sororidade (ou seja, irmandade e coletividade feminina) nos leva a lutar umas pelas outras, nos defender do machismo e fortalecer uma rede colaborativa de apoio tanto pessoal como profissional.

Por trás dessa falsa ideia de que a amizade feminina é fútil, existe outro artifício muito comum, que é o mito da menina legal demais para ser amiga de outras mulheres. A menina que gosta de futebol, rock e coisas ditas “masculinas”, enquanto as outras são fúteis, curtem maquiagem e “coisas de mulherzinha”. Essa moça geralmente é mais aceita por grupos de homens que afirmam a ver como “um cara” da turma, e essa aceitação muitas vezes representa algo positivo para a autoestima de meninas e adolescentes.

“Parabéns, você é como as outras”. Além de estimular a rivalidade feminina, frases como essas fazem parecer que essa menina está blindada contra o machismo por conta de seus gostos, quando na verdade está tão sujeita a violências quanto as “mulherzinhas” – inclusive sujeitas a sofrer machismo nos próprios grupos que teoricamente as aceitam. Quantas vezes mulheres não são questionadas por homens sobre seus gostos, normalmente relativizados por simplesmente serem… mulheres? “Ah, se você gosta de futebol, diga aí o que é um impedimento. Quais os jogadores do time tal? Ah, você gosta de videogame? Quantos jogos já zerou?”

Esse raciocínio leva muitas mulheres a acreditarem que não podem ser amigas de outras mulheres que tenham gostos diferentes – como se esportes, games, rock’n’roll e tantas outras áreas como ciências e tecnologia fossem exclusividade dos homens.

Dito isso, aproveite este dia do amigo e não deixe de abraçar uma amiga irmã. Se não pode, mande mensagem, ligue, se faça presente. Acredite, a nossa união faz toda a diferença e pode nos defender das atrocidades do mundo.

Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

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