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Tchutchu, você não sabe de nada

Aqui, em Recife, uma frota de ônibus adesivados com frases românticas e corações virou um mistério urbano, desses que ganham assunto em todo lugar. Durante semanas, desde o final de 2017, alguns veículos de transporte público estamparam mensagens como ”Tchutchu, volta para mim”, “Tchutchu, eu te perdoo” e  “Tchutchu, eu não ligo pro que os outros pensam” nas ruas da cidade. Procurada pela imprensa, a empresa responsável pela publicidade dos backbus garantiu que havia sido contratada por uma pessoa que preferia não ser identificada nem ter sua história divulgada. Tudo estratégia de marketing. Poucos dias depois foi revelado que, na verdade, as declarações integram uma ação da própria empresa de anúncios,  e tinham intuito de mostrar como aquele espaço era visualizado pelo público. A questão é que, até descobrir isso, o recifense criou um compilado de histórias cabeludas, com direito a muita gente dizendo que conhecia o protagonista do caso. Não é pra menos. Somos a cidade mais mal assombrada do país, cheia de contos próprios de terror, que incluem a loira do banheiro, o espírito das pontes e a menina da escada.

Teve boca jurando que um moço, traído pela mulher e pelo irmão, decidiu perdoar a companheira e ir embora com ela do país. Teve gente falando que uma mulher endinheirada estava tentando reatar com o jovem namorado gatão. Teve a versão do homem medroso que deixou a mulher no altar da Igreja da Soledade, mas se arrependeu da indecisão. Como também teve o boato de uma mulher que confessou o nome do verdadeiro pai do filho depois de 20 anos de casamento. Foi um empresário famoso. Foi uma cantora pernambucana. Foi uma moça anônima. Foi tanta gente que minha cabeça não deu conta. E assim começaram as tentativas de escrever nos ônibus e nas redes sociais respostas como ”corno manso”, ”velha descarada” e (minha preferida) ” toma vergonha nessa tua cara”.

A traseira do ônibus pregando boato e a gente, passageiro, sem saber que nunca existiu história por trás de nada. A gente, com essa nossa mania de achar que conhece os bastidores, que entende de gente, que prevê os sentimentos das pessoas. A gente, os reis da especulação, com esse prazer de brincar com esteriótipos, de movimentar a vida alheia, de supor as intenções e os motivos de quem a gente mal conhece.

Nem o recifense, com esse talento de estourar a barragem de Tapacurá, sabe o que se passa na privacidade e na cabeça do vizinho. Não é da nossa conta o casamento que parece falido, o relacionamento que parece fictício, o amor que parece interesse, o perdão que parece burrice, a traição que parece novela, o filho que não parece com o pai. A gente julga mas não sabe. Não sabe das batalhas que se passam na estrada do outro, nem das coisas que ele decidiu enfrentar. A gente nem sabe se há mesmo história por trás da história que a gente viu passar.

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