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Sobre o Fábio Assunção. Sobre mim. Sobre você.

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Sofro de um problema quase insuportável, chamado SVA. Síndrome da vergonha alheia. Tenho espasmos e convulsões imaginárias quando assisto a pessoas fazendo coisas bizarras, levando quedas antológicas, falando frases trocadas, usando roupas rasgadas, tentando coisas impensadas ou protagonizando cenas que deveriam ser engraçadas mas não conseguem ser.

Com o passar do tempo, e com a popularização dos virais de whatsapp e dos flagras das redes sociais, minha SVA evoluiu para uma SCO. Síndrome da compaixão com o outro. Sofro ataques de condoimento, tenho febre de humanidade e episódios de pena sempre que vejo a dignidade de alguém “espetacularizada” numa tela de celular.   Sempre que vejo a intimidade do outro escancarada, o erro do outro crucificado, a vida do outro desrespeitada, e a importância do outro reduzida a nada, transformada em pó.

Se um médico me examinasse, diria que tenho altos níveis de empatia no sangue, o que me faz ter síndromes com sintomas de uma alteridade constante. Me coloco, vez ou outra, no lugar do outro, e o lugar do outro é, vez ou outra, frio e assustador.

Descobri isso quando não consegui rir com o vídeo do bêbado sem dentes que canta músicas evangélicas no banco da delegacia, com o mendigo que perde o saco de comida com o arrastar da chuva, com a mãe que desmaia ao achar que o filho está tendo uma overdose, com o cachorro que chora ao acreditar que foi abandonado na rua, com o travesti que é estapeado, com a moça que cai na fossa de pernas abertas, quase nua.

Não. Meu humor não foi roubado pelo politicamente correto dessa geração. Ainda tenho dores de barriga com os animais que pensam que são gente, com as crianças de respostas inteligentes e com tudo que não se baseia na fragilidade do outro para crescer.

É por isso – e só por isso – que ver os vídeos do Fábio Assunção tropeçando na calçada e entrando no camburão não me trouxe regozijo. Não porque era o Fábio Assunção. Não porque ele é global, porque é supostamente rico, porque é loiro dos olhos bonitos. Mas porque não consigo ver graça ou prazer no lado mais humilhante que um ser humano pode oferecer. Não consigo fazer coro para aquela gente gritando “Toma, atorzinho de merda”, nem rir do desespero de quem o tentava conter.

Não existe show na situação deprimente do anônimo, nem do famoso.  Não existe show na fraqueza. Muito menos prazer.

Para além dos holofotes de ridicularização, é justo se indignar e trazer à tona a discussão sobre o abuso de álcool, a dependência química, o desrespeito a um policial, o crime de dirigir embriagado e o risco de matar uma pessoa inocente. É justo se preocupar ao ver um menina tão jovem namorando um ator mais velho (cheio de problemas de saúde, sociais e comportamentais), talvez envolvida num relacionamento problemático – abusivo – explosivo que, quem sabe, no auge de sua jovialidade imatura, ela não consiga perceber.

É humano espiar o poço de dor do outro. Não é humano torcer para que esse poço seja tão fundo, tão fundo, tão fundo, mas tão fundo, que nem dê mais para socorrer.

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