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Roubaram até o carnaval

Eu tinha 17 anos quando vivi o carnaval de Pernambuco pela primeira vez. Era começo dos anos 2000 e minha mãe tomou duas doses de pasalix quando atravessei a porta. Dormiu pensando no perigo da latinha de cerveja voadora acertando o olho do folião. No perigo da mão leve achando o celular do boyzinho vacilão. No perigo dos caras bêbados-machistas-sem-noção. No perigo do miniarrastão acuando a roda de ciranda na Rua da Moeda. No perigo do susto da polícia, da falta de carona no fim do dia, da pressão baixa no empurra-empurra, do tornozelo torcido, da briga, da ola, do paredão. No perigo de ser carnaval. Festa pra doido. Pra quem é doido por carnaval.

Naquela noite, voltei para casa descalça. Um grupo de pivetes ameaçou um assalto na entrada do Marco Zero, antes do show do Alceu. Corri pra socorrer uma amiga na barraca de coco, perdi a sandália, gritei, vi gente caindo, se desesperando, e esfolei a parte de cima do dedão do pé. Não chorei. Eu tinha recebido meu batismo. Estava pronta pra ser foliona na cidade das almas sebosas. Pronta pra andar com dinheiro na doleira cor de pele. Usar tênis velho e short confortável. Pegar táxi lá depois do prédio da prefeitura, ficar longe do meião. Levar celular velho só pra encontrar a galera, usar ônibus do shopping. Fazer amizade com a tia da cerveja, tomar água lacrada  e desenvolver técnicas pra fazer xixi. Pronta pra manter todo mundo por perto. Pra aprender a cuspir confete. Pra dizer não. Pronta pra relaxar, porque o Hino do Elefante ia ameaçar tocar 34 vezes e todo mundo ia delirar em vão.

De repente, 2017. Fevereiro voltou e toda essa experiência de recifense das ladeiras me pareceu inútil. O carnaval da terra não salva dos altos coqueiros deixou de ser perigoso para ser mortal.

Em Pernambuco, os quase 500 assassinatos do mês da janeiro adiantaram muitas noites tristes de tambores silenciosos. Os mais de 30 estupros em Recife estragaram a fantasia dos dias de momo. A moda de assaltos com carros e motos atropelou os blocos. Os tiroteios da periferia botaram medo nos papangus. O roubo milionário à transportadora mudou o foco da passista.  O menino sequestrado na Jaqueira mudou a letra da folia. Os ladrões do calçadão de Boa Viagem montaram outra banda de pifes. O cara que dopa mulheres na Conde da Boa Vista mudou a brincadeira em plena luz do dia.

O baque solto ficou preso, trancado na segurança de casa. Das prévias de Olinda, não se salvaram nem os bonecos. Tiro e facada viraram troça de hospital. Roubo de carteira ao som do orquestra armorial. Um terror. Sem rima. Sem frevo do Capiba.

Esse ano vai ter festa. Vai ter galo minguado no meio-dia do sábado. Vai ter quatro cantos, vai ter palco, vai ter o tal do camarote, mas não vai ter carnaval. Carnaval de quem ouve conselho de mãe. Carnaval que atrai amigo morando longe. Carnaval dos documentos perdidos, do pé esfolado, das fantasias criativas, do maracatu de arrepiar… Não. Roubaram até o carnaval. Deixaram farra de rua pra divertir ladrão.

Que guardem a quarta-feira que sobrar das nossas cinzas.

 

* Dados da Secretaria de Defesa Social do estado Pernambuco mostram que a Região Metropolitana do Recife teve, neste 2017, o janeiro com mais homicídios dos últimos dez anos.

 

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