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Preconceito não é produto de exportação #casadosfrios

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Aí, Mário, motorista de um escritório de advocacia de Recife – negro, de cabeça semirraspada e corrente de prata – entra na tradicional Casa dos Frios das Graças pra comprar 20 caixas de bolo de rolo para o chefe. Deixa 600 reais no caixa e sai pra buscar mais 60 no carro. Na volta, é barrado do lado de fora da loja. A funcionária “viu” uma arma presa na calça dele. A polícia é chamada, o cara chora enquanto é revistado na frente de Deus e o mundo-cão. Mário recebe seu dinheiro de volta através de uma brecha de porta, enquanto os funcionários, apavorados, se amontoam do outro lado do vidro.

Na abordagem da polícia, ele tenta explicar que é trabalhador e pai de família. Depois de liberado, é orientado pela gerência do estabelecimento a deixar esse “mal entendido” para lá.

As declarações e notas de esclarecimento da Casa Grande dos Frios não tem uma centelha que seja de humanidade. Um pedido de desculpas. Um lamento. É tão grosseira e falsa quanto um rocambole de padaria, incluindo trechos como “Entendo que ele sofreu constrangimento, mas é uma averiguação policial, todo mundo está sujeito a isso. Em nenhum momento nos dirigimos a ele como ‘negro’, temos repúdio a racismo. Temos diversos funcionários negros, inclusive operando o nosso caixa. Se tivéssemos preconceito, não deixaríamos”.

O argumento no melhor estilo “amamos os negros, até temos empregados que são” é refutado pelo chefe de Mário: “Se fosse eu que deixasse R$ 600 no caixa e dissesse  que iria pegar mais dinheiro no carro eles acionariam o tal ‘protocolo’? Duvido! Ao contrário, era mais fácil que eles mandassem o segurança da loja me acompanhando até o carro”.

Um dia depois da confusão, a Casa dos Frios, despretensiosamente, usa suas redes sociais para homenagear uma funcionária negra, sorridente, que já morreu. De longe, Dona Ana (stácia) nem sonha com a vergonha onde meteram o seu nome.

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Recife tem uns ranços de província que precisam mudar. Tradição que oprime a mulher, desrespeita o homossexual, agride o negro e humilha o pobre a gente não quer, não. Pois sabemos que pessoas e empresas cometem erros. E o contexto da cidade violenta na qual vivemos não pode ser afastado de qualquer discussão. Mas vale lembrar: a maneira atrapalhada e preconceituosa com a qual essa história foi conduzida diz muito sobre um traço de cultura que a gente precisa consertar. Um boicote virtual é mesmo negócio sério, que atinge diretamente funcionários e a família de Dona Fernanda, que há tantos anos conduz os fornos do bolo de rolo mais famoso do Estado. Mas, com esse tipo de movimento, a gente só quer contar que eles – e outras empresas – se posicionem de uma maneira honesta depois de um desacerto. Que busquem transformar a crise em um aprendizado massa, em uma retratação social útil. Se não fizerem isso pelo apelo humano e principal da coisa, que seja com o amparo e assessoria comunicacional que até agora não pareceram ter. Para representar Pernambuco pelo mundo, como o slogan deles sugere, tem muita coisa pra se ajeitar. Preconceito não é produto de exportação.


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Não sei vocês, mas agora eu tenho ainda mais motivos pra comprar bolo de rolo do meu amigo Josué, que vende suas caixinhas de segunda a segunda, batendo de porta em porta, depois de passar os dias trabalhando em bicos de eletricista e de “faz tudo” (segundo ele).

O Josué, negro, do bem, humilde, pai do Miguel e do Daniel, tá precisando daquela força e se emociona quando alguém resolve ajudar.

O bolo do Josué é uma delícia e metade do preço do bolo da Casa dos Frios.

O Josué atende por whatsapp e leva as encomendas onde você estiver.
81 982194978 e 81 996797247.

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Matéria da Folha, com o depoimento de Mário:http://www.folhape.com.br/…/NWS,15033,70,449,NOTICIAS,2190-…

Matéria do G1, com a nota de esclarecimento da Casa dos Frios:http://g1.globo.com/…/cliente-e-confundido-com-assaltante-e…

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Foto de Mario na abertura do texto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

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Foto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

 

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