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Pra lá de Bagdá

Após inúmeras mudanças pelo Brasil afora para acompanhar o meu marido, engenheiro civil, daquela vez estávamos partindo com nossos três filhos pequenos para morar do outro lado do mundo. Nosso destino era o Iraque, mais precisamente, o acampamento da Rodovia Expressway da Construtora Mendes Júnior, localizado a uns 180 km…pra lá de Bagdá!

Era década de oitenta e além do choque cultural e climático que já esperávamos, nos deparamos no antigo berço da civilização. É claro que isso merecia bem mais do que vou relatar aqui, entretanto, aí vão algumas curiosidades.

Quando partimos eu estava em êxtase, aventureira que sou, sabia que não poderia estar vivendo algo melhor naquela época! Até hoje, cenas pitorescas passeiam por minha memória.

O meu primeiro passeio de camelo e as idas ao “souk”, mercado de Bagdá – onde negociar significa barganhar exaustivamente – são algumas das incríveis lembranças que vou levar para o resto da vida.  Pelo menos uma vez a cada dois meses lá estava eu no souk. Essas idas ao mercado sempre incluía uma parada num vendedor de “doner kebab” (espécie de wrap de carne de cordeiro, assada num espeto vertical giratório), uma delícia! Esquecia do tempo fazendo compras em meio a tapetes persas, tecidos, metais de decoração e quinquilharias, caminhando curiosa por entre os becos tortuosos e barulhentos, sob o forte cheiro do fumo “naguilé”, da mistura de chás, frutas exóticas, temperos e especiarias. Era como se estivesse dentro do filme de Ali Babá.

A vida no acampamento proporcionava uma estreita convivência social com pessoas de culturas diferentes. Era uma comunidade mista, com mais de trinta nacionalidades. O ambiente de colaboração e a troca constante de experiências nos impelia a enxergar o outro sem preconceito de raça, religião ou costumes. A relação era tão intensa que chegamos a criar uma nova linguagem por lá, o “mendês”, mistura de idiomas desenvolvida para facilitar a nossa comunicação. Planejávamos e construíamos coletivamente o nosso dia-a-dia. Nossos filhos, por sua vez, cresciam aprendendo, com naturalidade, a respeitar as diferenças. Entendo que isso provocou profundas alterações no nosso caráter.

No Iraque, o clima é árido, praticamente desértico. Só existem duas estações no ano: inverno e verão. No verão, as temperaturas são muito altas durante o dia, chegando aos 55º C, suportáveis apenas por causa da falta de umidade do ar. As roupas recém-lavadas secavam em apenas 30 minutos. Em contrapartida, no inverno tudo congela, as temperaturas ficam na média de 6ºC, durante o dia, podendo ser negativas à noite. Várias vezes, o meu tanque, que ficava fora de casa, entupia por causa da formação de estalactites.

Na transição entre as duas estações ocorre um fenômeno, que fascina e amedronta ao mesmo tempo. É a tempestade de vento e areia do deserto chamada, em mendês, de “Mohamed” (assista ao vídeo!)  Essas tempestades estão entre os fenômenos mais violentos e imprevisíveis da natureza. Ventos altos levantam as partículas de areia no ar, criando uma nuvem de grãos sufocante, reduzindo a visibilidade a zero, em questão de segundos. Um paredão de areia alaranjado desloca-se com ventos de até 100 km/h, num barulho surdo e contínuo de trovão. Como no deserto a geologia é plana, tem-se um espetáculo descomunal, num campo de visão de 360º.

Com o passar do tempo, comecei a pressentir a chegada do “Mohamed”. Assim que identificava os sinais, rapidamente, localizava meus filhos, trazendo-os para perto de mim. Recolhia tudo que estava na área externa da casa que pudesse voar. Por fim, trancava todas as portas e janelas para aguardar o dia virar noite – era o que literalmente acontecia. Essa tempestade de areia pode durar horas ou, até mesmo, dias… Quilos de areia fina entram por todas as frestas da casa e pelos orifícios do nosso corpo. Passávamos dias tentando limpar toda aquela terra, que entrava até nas caixas de sapato fechadas dentro dos armários.

O rastro que o “Mohamed” deixa é aterrorizante, principalmente, a destruição nos vilarejos pobres daquela região. Falta energia, os animais morrem… Felizmente, nosso acampamento era construído com o intuito de resistir a esse fenômeno.  Lembro-me de que somente uma vez a tempestade desfolhou algumas casas próximas a nossa, fazendo voar telhados e objetos. Nossas casas eram do tipo conteiner, cobertas nas laterais com revestimento plástico. Graças a Deus ninguém no acampamento se feriu.

Um dia soube que voltaríamos para o Brasil e à medida que a data de nossa partida se aproximava eu me dava conta de que  estava perdendo algo. Tinha consciência de que estava morando onde a humanidade iniciou sua marcha rumo à civilização. Gostaria de ter ficado mais naquela terra para tentar desvendar melhor seus mistérios, conhecer mais, viajar mais…

Escrevi este “post” motivada pela experiência pessoal vivida no Iraque, país que para nós, ocidentais, parece estar perdido no tempo. Lá, ainda hoje, encontram-se tendas de grupos nômades beduínos. País onde a mulher é desprezada e vive escondida embaixo da abaya e do hijab, sem direito a caminhar ao lado de seu marido.  Mas apesar das dificuldades de adaptação naquele país de extremos, posso dizer que minha experiência foi enriquecedora e que cada dia vivido no Iraque valeu a pena!

34 Comments

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  1. Gostei muito do seu “post”. Muito bem escrito , com uma deliciosa pitada de misterio e bom humor. Parabèns! Não pude ir no evento, pois estava com febre… Um beijo grande.

    • Fico feliz que você gostou, Lúcia. Esta coluna é um espaço aberto a vocês, observadoras. Portanto, escreva pra gente contando sobre sua experiência de qualquer tema, ok? Um beijo! Aguardamos sua participação!

  2. Uma experiência de vida maravilhosa, muito bem escrita. Dá pena quando termina. Sua experiência podia ser relatada num livro, pela sua colocação e toque de humor.

  3. Querida!!!
    Muito feliz com sua materia!!! Parabens e muito sucesso…sua rapida descricao aumentou minha curiosidade por ser um lugar bem diferente do nosso!!!

  4. Nossa que saudade daquele tempo mesmo….. Concordo com a Andréa, tempo que não volta mais e éramos muito felizes lá!!!! Saudades de vcs!!!! Parabéns Tia pela matéria!!! Bjos

  5. Rose…fascinante seu depoimento,e eu sei que a sua experiencia foi muito maior que o que tem aqui.Gostaria um dia,de ouvir tudo sobre essa sua aventura.Rsss.

    • Eduardo Andréa, quando comecei a escrever esse post foi difícil parar e escolher alguns trechos. A vontade era de escrever um livro, porque as lembranças vinham aos montes, em flash back. Qualquer hora dessas, quando eu estiver pra lá do Rio de Janeiro, conto o resto. Abraço!

  6. Olá Rose Blanc,
    Venho sempre que posso dá uma olhadinho no “OBSERVATÓRIO FEMININO”, a materia que vc escreve sobre a suas aventuras pelo Iraque é perfeita, deve ter sido muito legal, conhecer outras culturas, gente diferente da gente, gostei mesmo da materia, quero vê o novo capítulo tá. Bjs. no coração. de, Goreti Sena

  7. Olá Rose, adorei o seu relato. Quando trabalhei com seu então marido, vocês haviam chegado há pouco tempo do Iraque e nos divertíamos muito com as estórias da experiência que vocês viveram no Iraque. Voltei no tempo e adorei as lembranças daqueles momentos maravilhosos. Um abração,

  8. Fiquei no Iraq por longo 5 anos na Obra do Shifao, adorei seu relato e viajei em pensamentos os dias os colegas que perdir o contato, uma pena depois de muitos vai e vem aqui no Brasil perdir quase todas as fotos que tirei por la

  9. Texto muito real. Tenho lido algumas bobagens sobre o Iraque, como, por exemplo, a “exigência” de que todos eram obrigados a usar broches com o retrato de Saddam, mas seu relato é bem realista. Morei no km 215 e minha área era TI. Passei o ano de 1980 e um pedaço de 1981. Como havia muitos árabes com os nomes de Ahmed e Mohamed, passei a chamar todos de “Xará”. Consequência ? Meu apelido também passou a ser Xará. Outros me chamavam de Carioca, devido à minha naturalidade. Bons tempos … Escreva mais !!!

    • Carlos Vicente, seja bem-vindo ao OF. É bom poder tê-lo como observador! Fico intrigada imaginando como seria a vida no Km 215, curiosa com suas experiências… Quer compartilhar conosco algum momento especial? É só nos escrever, ok?
      Um abraço,
      Rose

  10. Cara Rose, adorei ler seus comentários! Eu também trabalhei no Iraque no início da década de 80, porém fui para a ferrovia, primeiramente Km 350 em Al Qaim e Hussaibah, na divisa com a Sìria, mas conheci um acampamneto da Exprees Way no dia 13 de agosto de 1982, uma sexta feira, (que dia!!!!!!!!), quando fui levar um litro de cachaça que tinha chegado do Brasil, para os colegas de Juiz de Fora que estavam EW, entre eles o Edmilson (apelido Baretinha) que formou comigo e hoje é um próspero dono de padaria no bairro Poço Rico em JF. Hoje sou advogado, moro em Brasília e sinto também muita saudade dos tempos que trabalhei no Iraque. Sinto saudaes também dos passeios à Hatra, Babilonia, Mossul, e as compras em Bagdá, lógico. Tenho gravado o tal Mohamed que vc fala, pois era assim que chamávamos também na ferrovia, nas fitas cassetes que eu mandava para Marluce minha namorada e minha procuradora no Brasil, hoje minha esposa mãe de meus dois filhos, Guilherme e Aline.
    Rose, que viagem!!!!!!!!!! Gostaria muito de reencontrar amigos daquela época. Um grande abraço. Hélio Almeida.

  11. trabalhei 2 anos no iraq , sou irmão do palito ,tião e wilson,tive uma cura no meio do deserto, enquanto muitos morriam na guerra Deus me curava de um mal que eu sofri a 5 anos.perdi contato com os amigos.estive la em84 a 86 trabalhei na uzina de solo da expresway.

  12. Raimunda Nonata Alves ,Rose fiquei feliz por encontra-la neste Observatório Feminino , em 1981 morei com você em São Lúis MA , na praia do Olho D’água no edifício Solar das Palmeiras depois de algum tempo você foi morar no Marreco e em seguida eu fui com meu filho Thiago que tinha meses de vida , depois você foi embora para o Iraque ai perdemos todo o contato , tentei encontra-la nas redes sociais , gostaria muito de entrar em contato com você .

    • Nossa, que legal, Raimunda… claro que me lembro de você e do Thiago! Há quanto tempo, não é mesmo? Thiago agora deve estar um homem. Lembro-me dele ainda bebê, bem gordinho dormindo na rede, enquanto você fazia quitutes deliciosos pra gente. Agora não nos perdemos mais, não é mesmo? Vou entrar em contato, ok? Um beijo carinhoso!

  13. Maravilha de relato, voltei aos anos de 1980 a 1985 quando trabalhei no km 215 no Iraque, você me fez reviver a melhor história de vida. Parabéns.

  14. Ola, Rose, encontrei casualmente seu post e vieram as recordações de tudo que vivi ao longo de 1981. Descobri que egipcios, iraquianos, africanos e muitos mais, são muito parecidos com os brasileiros na afabilidade. Trabalhei no km 350 e lamento ver o que ocorre hoje c a ação do estado islâmico. Mas, obrigado pelas boas recordações que me trouxe. Abs.

  15. vc me fez lembrar o meu primeiro mohamed, pensei que o mundo estava se acabando, se vc tiver contato com alguem que lembre de mim me avisa,um abraço

  16. Olá, Carlos! Fiquei feliz em receber o seu comentário. Bom provocar lembranças… Nos dê mais detalhes sobre você, qual função ocupava, você foi pro Iraque com família? Deixe algo mais aqui no post, quem sabe este post não vá aproximar antigos afetos. Um abraço!

  17. oi Rose eu trabalhei na expressway, fiquei no acampamento do km 38, sou irmão do umberto ,conhecido por palito , wilson encarregado e o tião tambem encarregado fiquei la de 84 a 86 em breve vou enviar fotos um abraço

  18. Olá Rose, tudo bem? Gostaria de saber do Carlos Vital se o Palito que ele se refere, seu irmão, é o mesmo que era encarregado de obras de arte corrente na ferrovia? Por que se for, eu também trabalhei com ele no KM 350 da Ferrovia, em Al Qaim. Um abração à todos em bom fim de semana.

  19. Nossa, que maravilha! Acho que acabamos por criar uma comunidade de ex-moradores da Expressway e da Ferrovia do Iraque! Hélio, vou lhe passar os contatos do Carlos (irmão do Palito) e fico aguardando mais comentários sobre esse reencontro, ok? Um abraço!

  20. Olá Rose,
    Achei essa página por acaso. Ficou legal. Bom saber que você está bem. Você certamente se lembrará de mim: Estive contigo e todos os outros em 81, juntamente com O Lúcio e Fátima, Nivaldo e Célia, Ângela, Valéria e tantos outros. Eu confeccionava as provas que vocês preparavam, cuidava do almoxarifado da escola e costumava transportar vocês para o Km 215, no carro da escola (um Fiat Fiorino).
    Um grande abraço (deu saudades),

    Allan

  21. Oi Rose,espero que se lembre de mim, fui professor de ingles nos primeiros seis meses e entre 85e87 engenheiro quando trabalhei com o Dino. Que saudade!
    Adorei o seu post voce descreveu com prescisao o “Mohamed”.
    Moro com minha esposa e dois filhos em Orlando desde2001, visite a nossa web page acegraniteflorida.com
    Um forte abraco!

    • Olá, Miro! Lógico que me lembro de você, teacher! Adorei ver o seu comentário aqui no post do Iraque. Bons tempos aqueles, não é mesmo? Tenho excelentes lembranças daquela época e poderia escrever horas sobre as aventuras vividas por lá. As aulas de inglês fazem parte do “pacote”. Sua esposa é a Vany, que aparece no site da sua empresa? Que ramo legal aí nos EUA mexer com granito… As pedras são brasileiras? Bom, vamos nos falando… Um beijo pra você, Vany e filhos! Rose

  22. Maravilha de relato e definição da vida no ik. Fale dos beduinos e das famílias que cruzavam o deserto com Deus camelos e ovelhas, preservando os antigos costumes daquele povo.
    Parabéns. Que saudade daquele tempo que jamais se apagara de nossas memórias.

  23. Oi Rose, trabalhei no Sifão 3 anos. Fizemos já 4 encontros com todos que estiveram na Ferrovia, Expressway e Sifão. Temos alguns vídeos no YouTube (digite “brasileiros no iraque”, ou, “funcionários da mendes júnior”, “mendes jr”, “Saddam Hussein”. Temos um grupo no facebook e outro no WhatsApp. Juntamos centenas de fotos. Sejam todos bem vindos, meu WhatsApp é (11) 98555-1079. No facebook estou como Bebeto Sant Ana, foto de barba grisalha e óculos escuro.
    abraço à todos

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