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Paula Berlowitz: uma mulher que tem muito a falar

O mês de março está perto do fim, mas o OF ainda tem conteúdo especial em homenagem às mulheres. Chegou a vez de Paula Berlowitz bater um papo com a gente. A blogueira gaúcha é escritora do site pró-empoderamento feminino Cromossomo X e idealizadora do Marcha das Vadias. Após sofrer anos de agressões pelo então marido, ela decidiu que queria escrever uma nova história ao lado dos filhos – longe de violência doméstica –  e dar a sua contribuição ao mundo, lutando pela causa que lhe aflingiu durante tanto tempo: igualdade de direitos entre os sexos. Confira a entrevista!

OF – Você está à frente do Cromossomo X, site que vive as várias formas de expressão feminina e tem um conteúdo muito realista – a vida como ela é -, e é referência no movimento social, Marcha das Vadias. Como você sente a figura da mulher nos dias de hoje, com tamanhas transformações sociais e porque não dizer com tantos valores invertidos?

PB – Vejo a mulher em um momento muito belo e vivo, no qual ela já pode, de fato, optar por sua autonomia e independência – pelo menos aqui, no mundo Ocidental – e, inclusive, impor suas próprias regras comportamentais para a parcela masculina da sociedade, que ainda há poucas décadas era quem decidia isso por nós. E ver que hoje já não precisamos mais nos masculinizar para conseguir nosso “lugar ao Sol” é também uma conquista e tanto: a mulher conquistou seu espaço na sociedade! E ele é especial e muito dela! Imaginar, hoje em dia, que há menos de um século não tínhamos nem direito ao voto, já é um completo absurdo. Pensar que minha própria mãe, há 40 anos, era mal vista por morar sozinha  e trabalhar fora, e chamada de “mulher-macho” por usar calças jeans também me soa surreal! E isso é ótimo! Sinal de que conseguimos fazer estes preconceitos caírem por terra e que estas mudanças são sólidas e definitivas! Noto que muitas meninas nascidas da década de 90 pra cá nem tem noção ou se dão conta do quanto foi difícil – e à base de muita luta, sofrimento e até da morte de mulheres que vieram antes de nós – conseguir dar bases sólidas a estas mudanças! Ao mesmo tempo, vejo a mulher presa em um paradoxo: hoje ela pode trabalhar, se sustentar, a maternidade já não é compulsória, pode optar por amar outra mulher com bem menos peso em suas costas do que há apenas uma década (duas meninas que conheci foram expulsas do Rua da Praia Shopping, aqui em Porto Alegre, por um segurança, em 2001, porque estavam de mãos dadas!!!) e não é mais obrigada a casar para ser mãe, caso assim decida. Mas por outro lado acaba sendo sobrecarregada pelo acúmulo de funções, uma vez que o homem, em geral, não acompanhou esta mudança em par de igualdade, continuando como maior incumbência da mulher o cuidado com a casa e com os filhos. O que faz com que a mulher precise continuar sua luta feminista, além de nas ruas e no mercado de trabalho, também dentro de sua própria casa, na busca de reeducar seu companheiro, que muitas vezes ainda foi educado por uma mãe e um pai machistas. Então, se nós não impusermos certas regras e limites, ironicamente nos tornaremos escravas de nossa própria liberdade adquirida, sabe?

OF  – Há vários grupos espalhados pelos Brasil que vestem a camisa do feminismo e levantam bandeira para a igualdade dos direitos, mas muitos parecem se perder no próprio discurso raso. Será que esse cenário mostra um certo despreparo das lideranças desses grupos ou o maior problema é a falta de consciência social de muitos brasileiros?

PB – Existe um dito popular que a Leonor, minha sogra, costuma citar: “Quem nunca come mel, quando come se lambuza”. E creio que isto é muito verdade. Trocando em miúdos, o ditado se refere à falta de destreza para se lidar com situações com as quais não se está habituado. Como por exemplo, a criança, em uma festa infantil, que come doce até ficar com dor de barriga; o adolescente que bebe até vomitar; o jovem trabalhador que gasta todo o seu primeiro salário na primeira semana após recebê-lo e passa o resto do mês sem um centavo, etc… Em geral, isso se refere a não saber administrar a própria liberdade, em algum aspecto. Eu venho de uma família bastante peculiar, tanto materna quanto paterna. Meu bisavô paterno foi fundador de um dos primeiros campos de nudismo que existiram na Alemanha. Isso bem no início do Século XX. Minha avó paterna, recém chegada ao Brasil, em 1939, foi detida por “atentado ao pudor” junto com seu namorado, em um Parque no Rio de Janeiro, por estarem se beijando (!!!) – e diz que a “alemoa” era pra lá de namoradeira! Casou com meu avó já quase aos 40. Minha avó materna, em 1964, se separou do meu avô para ficar com sua vizinha, por quem se apaixonou. Minha mãe, então com 17 anos, não gostou e foi embora de casa. Foi trabalhar para se sustentar, depois comprou casa, fez faculdade, casou, teve filhos, não deu mais certo, separou, fez mais duas faculdades: foi independente a vida toda e continua sendo até hoje. Cada vez mais, até! Não para quieta! E quando eu tinha 9 anos me deu o livro “Mulher Objeto de Cama e Mesa”, da Heloneida Studart, pois fui vítima de sexismo/machismo na escola e, até então, eu nem sabia que aquilo existia. Meu pai, meu tio e meu avô cozinhavam, lavavam louça, cuidavam dos filhos junto com as esposas, assim como meu irmão faz agora. Meu primo tem a guarda do filho desde os dois anos do garoto (que hoje tem 20) e foi “pai solteiro” até agora há pouco; cuidou dele praticamente sozinho a vida toda. Estou citando tudo isso pra explanar que conceitos de liberdade e igualdade entre gêneros sempre estiveram enraizados na minha criação. Eu não conhecia o machismo e o sexismo até ir para a escola! Eu entendo essa liberdade e não acho que eu precise usá-la para afrontar ninguém, porque ela para mim é natural. A falta de igualdade que vejo na sociedade é ABERRAÇÃO. Mas acho que para muitas mulheres não é bem assim: muitas ainda hoje estão sendo “educadas” (treinadas? condicionadas?) a crescerem para “arranjar marido” (de preferência rico – risos!), serem “mulherzinhas” porque “homem gosta de mulher que se cuida”, serem “comportadas” porque “nenhum homem vai  levar a sério uma mulher que não seja”, ser magra, ser loira, ser fútil, como se o contrário disso fosse ser “machona”! E COMO SE O OBJETIVO DA VIDA DE UMA MULHER FOSSE ARRANJAR UM HOMEM!!! E creio que isso deve revoltar! Ser criada por uma mulher ou por um homem machista deve ser extremamente revoltante para quem pode vislumbrar a liberdade na porta ao lado! E aí surge a rebeldia sem foco. Nada contra a rebeldia! Eu mesma sou uma eterna rebelde. Vou ser uma velha rebelde, com TODA certeza! Mas aí vejo a necessidade de se educar essas novas mulheres para que elas mesmas entendam o que sentem, e o que as fazem ter vontade de sair gritando sem saber bem o porquê! E ISSO pra mim é bastante compreensível: o machismo é um mal silencioso e diário que, como sempre costumo dizer: só nascendo mulher para entender. Eu percebo atitudes machistas no homem com o qual vivo! E chamo a atenção dele para isso sempre! Ainda bem que ele, apesar de ter tido uma criação machista, é muito inteligente e libertário, e quando ele percebe que tenho razão, recicla suas ideias! Estamos, os dois, sempre aptos a nos atualizar. E isso é muito bom, mas vejo que é muito raro. O fato é que a liberdade do homem é inerente à sua existência. A da mulher, é conquistada, ao longo da vida, a duras penas. É como se nascendo menino a vida já viesse pronta. E nascendo menina, se precisasse de um amplo manual de instruções: sentar=fechar pernas (mesmo que a tendência dos músculos da coxa em repouso seja a abdução); andar sem blusa=indecente; transar=não no primeiro encontro; gostar de sexo=vadia! E por aí vai! Então digo que mais raso que o discurso de muitas feministas despreparadas que existem por aqui é o MACHISMO! O que me leva a segunda parte da pergunta: falta, SIM, consciência social para os brasileiros. Falta consciência social, política, econômica, educacional. Mas voltando a questão das mulheres, grupos femininos/feministas de conscientização têm se formado em todo Brasil e novas militâncias com certeza surgirão! As próprias Secretarias de Mulheres têm aberto vagas para educadoras sociais do gênero! E qual a principal importância disso? Que o maior problema não é o tamanho de nossas saias e o fato de podermos ou não usá-las. O maior problema é que a violência contra mulheres e meninas é um problema MUNDIAL, já considerado uma PANDEMIA! E isso precisa ser combatido, controlado e, futuramente, erradicado!

OF – A história do movimento feminista no Brasil coleciona vitórias importantes, a licença-maternidade e a Lei Maria da Penha são alguns exemplos. Mas as questões relacionados ao corpo e à superexposição da mulher ainda dividem muitas opiniões, inclusive, entre as próprias mulheres. Qual a real mensagem que a Marcha das Vadias que passar quando sai às ruas em protesto?

PB – Costumo usar uma analogia para esta explicação. Existe aqui no Brasil a Marcha da Corrupção, não é?! Onde a “marca registrada” é o uso do nariz de palhaço. Aí pergunto e a retórica aí é mais do que óbvia: esses brasileiros, usando nariz de palhaço, estão lutando pelo direito de serem palhaços?! Ou estão usando nariz de palhaço para expressarem sua indignação por sentirem que são tratados como palhaços?! Então, repita a mesma pergunta trocando “Marcha da Corrupção” por “Marcha das Vadias” e “nariz de palhaço” por “roupa de vadia”! Simples assim! Porque quase ninguém entende?! Falso moralismo puro! E repito: falso moralismo! Porque quem é realmente MORAL não resume pessoas a rótulos! E nem as qualifica/desqualifica ou classifica/desclassifica com base em sua aparência ou no quanto ela se enquadra nos padrões dessa sociedade patriarcal heteronormativa tupiniquim! No Brasil é muito fácil ser verdadeiramente “indecente” e passar despercebido debaixo de um terno Gucci! Vivemos uma hipocrisia irritante. Cheguei a ouvir pessoas se referindo à Marcha das Vadias dizendo que “Prostitutas estavam marchando pelo direito à prostituição”. O que não tem absolutamente nada a ver com a origem da Marcha das Vadias. A Marcha das Vadias, na verdade, surgiu, inicialmente, em Toronto, no Canadá, em 2011, após a infeliz declaração de Michael Sanguinetti, um policial canadense, que em uma palestra sobre segurança pessoal, sugeriu que, no intuito de prevenir estupros, a mulher deveria “evitar vestir-se como vadia”. Obviamente isso causou revolta em grande parte da plateia, afinal a culpa de um estupro é somente do estuprador, nunca da vítima! E, sendo assim, no dia seguinte, em repúdio à declaração de Sanguinetti, centenas de mulheres “vestidas como vadias” foram às ruas protestar contra a culpabilização das vítimas, em situação de agressão e/ou violência sexual. E o protesto ganhou adeptos em diversas cidades do mundo. Porém, ao que me parece, o Brasil é um dos lugares onde esse movimento foi menos compreendido. Existem críticos que dizem que na postura da Marcha das Vadias, as mulheres estariam “definindo sua sexualidade em termos masculinos”. Mas aí pergunto: O que seria “termos masculinos” ou “termos femininos” no tocante à sexualidade? Por que existem tantos termos pejorativos para se referir a uma mulher sexualmente ativa e para o homem não há rótulos? Por que o homem pode exercer sua sexualidade livre de rótulos e a mulher não? Por que o homem tem o direito à sua integridade física, mesmo que saia seminu e a mulher não? Por que a liberdade da mulher precisa de tantas regras e até quando será assim? Temos mesmo que aceitar isso passivamente? E daí surgem os “bordões” da Marcha das Vadias, como esses, que são uns dos meus preferidos: “Não ensine como a sua filha deve se vestir. Ensine ao seu filho a não estuprar!” e “Isso não é sobre sexo: É sobre VIOLÊNCIA!” e “Se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias”! Quanto a superexposição do corpo da mulher, também, ainda existem muitas controvérsias. Pois o que a Marcha das Vadias quer, além de que cesse a cultura do estupro, a violência contra mulheres e meninas e a culpabilização das vítimas, é que o corpo da mulher possa ser visto com naturalidade, e não mais como um produto da mídia. Não estamos lutando pelo direito de “esfregar a bunda e os peitos na cara dos homens”. Estamos lutando para que os homens parem de pensar que sempre que uma mulher estiver com “pele à mostra” ela está “querendo sexo”, seja com ou sem consentimento. Este é um aspecto chave do nosso protesto! Sexo SÓ deve acontecer COM consentimento! Independente da roupa que a mulher estiver usando! Isto não deveria ser mais do que lógico?! E neste ponto, o que a mídia faz com o corpo da mulher é muito triste e um grande desserviço: a mídia sempre usa a mulher como objeto. A mídia continua “vendendo” o corpo da mulher. E a mulher que aceita se superexpor em troca de dinheiro não está, exatamente, sendo livre: ela está sendo uma marionete dessa mídia machista ainda tão em voga, mas que está com seus dias contados! Então, se a mulher quer “expor” seu corpo, que seja com naturalidade, por ser livre para isso, e não porque assim lhe é imposto. Não é um contrassenso que posar para uma Playboy seja “status”, mas fazer um topless em uma praia seja uma “indecência”? E por que é assim? Porque na Playboy, a mulher está ali porque o homem quer vê-la. E na praia, de topless, é porque ela quis. Aí, é “feio”. Se ela se pela para a “Indústria”, está ok. Se é por usufruir da sua liberdade, é uma vadia! Então continua sendo quando o homem decide. E o mais triste é ver mulheres compactuando deste tipo de opinião!

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