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Para quem conhece quem tem ansiedade

Foto: Henn Kim

Este é um texto importante pra mim, porque é dedicado às pessoas que não têm ansiedade, mas conhecem quem tenha e desejam ajudá-las e entendê-las melhor.

É difícil entender quem tem ansiedade quando você nunca sentiu isso na vida. Não faz sentido por que a pessoa fica pensando em várias besteiras quando simplesmente é mais fácil não pensá-las, quando ela poderia só ter calma e não se preocupar tanto. É só não fazer isso, certo? Errado.

A primeira coisa que você deve saber é que a gente não queria ser/estar assim. Queria muito não se preocupar tanto, ficar calmo e não ser desesperado. E olha, a gente tenta pra cacete não chegar aos níveis extremos… Então, por favor, entenda que a gente batalha todos os dias com a gente mesmo, mas tem hora que não dá.

A gente precisa de respeito e espaço. Numa crise, esteja por perto sempre e seja solícito, mas sem forçar nenhum comportamento. Como cada crise vem de um jeito, em cada uma temos uma maneira de lidar: às vezes desabafando, às vezes ficando quieto, às vezes sozinho, às vezes na companhia de alguém. Não adianta forçar perguntar o que tá acontecendo, exigir respostas… a pessoa só vai dizer se quiser. Talvez ela não queira falar nada, talvez não saiba o que dizer, ou nem entenda o que tá passando ali. Por favor, deixa a pessoa falar se quiser falar, no tempo que ela precisar levar pra isso.

Nem sempre tem um motivo, então não se preocupa se para isso não houver resposta. Quando o gatilho é mais declarado e a pessoa se sentir confortável para conversar sobre ele, pode ser uma boa ideia mostrar para ela saídas e oferecer um conforto. Sabendo a origem às vezes é mais fácil conseguir fazer com que ela se acalme. Mas também, se não der certo, entenda que é assim mesmo, e ela vai precisar levar o tempo que for. Ansiedade é sobre o tempo da pessoa, não sobre o quanto você tem de paciência pra ficar ao lado dela. Aliás, se for pra se estressar e piorar a situação, nem chegue perto.

Não menospreze a dor de um ansioso. Nem a dor de ninguém. A gente não sabe como ou porquê dói na pessoa, mas se ela tá sentindo o que sente, é porque pra ela importa — e isso é tudo. Às vezes pode parecer a coisa mais estúpida desse mundo, mas é a coisa estúpida que importa pra ela. E talvez não tenha sido essa coisa boba que tenha engatilhado uma crise ou surto, às vezes há uma série de fatores anteriores que ela vem conseguindo guardar e suportar, que essa coisinha boba é o “eu não aguento mais” dela. Respeite.

Não fica chateado se não conseguir alcançar a pessoa. Alguns tem uma dificuldade enorme em se abrir, em procurar ajuda. A gente fica se sabotando o tempo inteiro, a gente acha que ninguém quer nos ouvir ou cuidar dos nossos problemas. Podemos nos sentir um peso, e pensar que as pessoas já têm problemas demais e não precisam dos nossos. Se é o caso, vai com calma, um passo de cada vez até chegar até a pessoa. Ela não tá desconfiando de você (e se estiver não é culpa sua, nem dela)… Mas a gente tem muito medo… de tudo.

E se você estiver ao lado da pessoa, com todo amor e carinho e mesmo assim não funcionar, não é culpa sua e nem da pessoa. Tem hora que não dá. Tem vezes que são mais fáceis de lidar com a ansiedade e outras que não são. Cada um leva um determinado tempo, e algumas só melhoram com a própria pessoa lidando com ela. Imagino que se você está aqui lendo este texto por causa de alguém que gosta, é porque não quer ver essa pessoa mal… Mas olha, por mais que queira batalhar com ela, você não pode batalhar por ela.

Não vai ser sua culpa se ela te afastar. Dê espaço, o quanto for, o quanto ela precisar. Esteja ao lado dela quando voltar, quando decidir internamente que é hora de compartilhar… Quando quiser esquecer do momento que ela passou. Não é pra ficar bravo se ela não quiser dizer, tenha um pouco de paciência.

Não é culpa de ninguém. Não deixe que a pessoa se isole, no sentido de que sinta que não tem ninguém no mundo por ela. Deixe-a saber que por mais que ela queira ficar sozinha, você vai estar ali se ela precisar de algo.

Ah… e por mais que não lembremos de agradecer, por mais que a gente não diga nada, saber que tem alguém conosco faz uma diferença absurda.

Você é incrível por querer entender melhor como funciona a cabeça de quem você gosta. É maravilhoso que você pesquise mais e se esforce para ajudar alguém. Lembre-se disso!

Acho que por fim, e não só nestes casos, como em todos os outros nessa vida: tenha empatia. Amor ajuda tudo, cura tudo, assim como o perdão e a confiança. Estabeleça diálogos claros, abertos e francos. Precisamos de mais relações nas quais temos liberdade para sermos quem somos, mesmo que isso exija mais esforço.

Temos que crescer juntos, buscar maneiras de fazer dar certo. Se a ansiedade parece que afasta as pessoas de ti, busque maneiras de aproximação, sempre tem um jeito — nem que a gente precise inventá-lo.

Conhecer o outro e conhecer a si mesmo é o começo para buscar crescimento.

Texto originalmente publicado por Mariana Alvares na Revista Subjetiva.

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