• Você não é mãe dele

    Ilustração: Izadora Luz

    * Vou falar de relacionamentos heterossexuais. Acho que mulheres podem ser mães de outras mulheres e homens mães de outros homens no sentido do texto, mas acredito que o mais comum seja entre mulheres e homens por questões socioculturais.

    Em um ano de Capitolina devemos ter falado mais ou menos 1 zilhão de vezes que as diferenças entre homens e mulheres são socialmente construídas. É um dos axiomas da nossa revista. Pois bem, uma das diferenças socialmente construídas entre homens e mulheres é o cuidado.

    Mulheres são ensinadas a cuidar de si e dos outros, mulheres são mães e homens são pais, mas uma pequena observação de como isso acontece revela que as mulheres cuidam muito mais dos filhos do que os homens. O papel feminino sempre foi associado ao cuidado e até pouco tempo atrás nem todas as mulheres trabalhavam fora – historicamente, a entrada de mulheres no mercado de trabalho aconteceu para mulheres brancas e de classe média/alta já que mulheres negras e pobres sempre tiveram que trabalhar –, hoje a grande maioria das mulheres trabalha e cuida da casa configurando jornadas duplas de trabalho. São também as mulheres que costumam cuidar dos idosos. Tudo isso pra dizer que mulheres aprendem a cuidar dos outros, a resolver pepinos dos outros, a ajudar os outros.

    Não estou dizendo que todas as mulheres são assim ou que homens não são, até porque isso seria reforçar o cuidado como algo intrinsecamente feminino. Estou dizendo que, desde crianças, meninas são ensinadas a serem cuidadoras — algumas mulheres vão internalizar isso mais do que outras, da mesma forma que alguns homens vão também internalizar isso.

    Quando a gente está namorando ou se relacionando de forma séria com alguém, esse lado do cuidado aparece ainda mais forte. Seu namorado não consegue terminar um trabalho pra faculdade e você já terminou os seus, aí você ajuda; seu namorado resolve escalar uma pedra limosa na cachoeira e você manda ele descer; está na hora de se inscrever nas disciplinas da faculdade e você lembra seu namorado, senão ele esquece; você tem que ensinar conceitos básicos pra ele; lembrar ele de ir ao dentista; ajudar a comprar móveis, senão a casa fica vazia; você se pega organizando as coisas na casa dele, lavando a louça, fazendo comida; vocês vão viajar e você leva duas toalhas, além de organizar tudo; ele deixa o cabelo crescer e você compra shampoo; exemplos ao infinito.

    A gente acaba infantilizando os caras — e muitas vezes eles curtem esse papel e vão incentivando isso na gente, porque é mais fácil mesmo ter alguém pra resolver sua vidinha — e fazendo coisas que não são nossas obrigações e, principalmente, que eles não pediram. E isso pode ser muito prejudicial pro namoro e pra gente, que saco ter que ficar fazendo coisas por alguém que deveria ser seu parceiro, te ajudar também. Especialmente quando esses papéis se naturalizam no relacionamento e o cara passa a esperar isso de você, e você passa a fazer sem questionar.

    Claro que amor implica cuidado, como eu mesma já falei em outro texto. E às vezes a gente é melhor em algo e realmente não se importa de fazer. Só que existe uma diferença entre ajudar e cuidar do seu amor e fazer as coisas por ele, no lugar dele, pra proteger ele de tudo. Isso é ser mãe. E você não é mãe do seu namorado. Repito como um mantra: você não é mãe do seu namorado, você não é mãe dele.

    Às vezes pode parecer muito difícil fazer a diferença entre cuidar como namorada, ajudar como companheira, fortalecer como parça e entrar no limiar do cuidado maternal. E é difícil mesmo, porque são nuances, ambiguidades. Mas eu acho que existem duas formas de perceber: a primeira é fazer a seguinte pergunta: “Ele me pediu ajuda?” Simples assim, quando o boy precisar de ajuda ele vai te pedir, especialmente se é em algo que ele sabe que você é boa, da mesma forma que você sempre pode pedir ajuda a ele. A segunda forma é entender como você se sente em relação àquela ajuda que você tá dando: por que você está ajudando ele? É muito ruim achar que a pessoa que tá com a gente é incapaz de alguma coisa.

    Especialmente porque os caras não são incapazes, se é algo que você consegue fazer ele vai conseguir também, mesmo que demore mais tempo e ele não seja tão habilidoso quanto você. A gente é criada pra achar que precisa cuidar de todo mundo o tempo todo, que esse é nosso papel, mas não é. Agora, se ele te pedir ajuda, vai lá, porque companheirismo é isso. Só que não é preciso fazer o que você não quer, especialmente o que você sente que não é sua função. Você não é mãe dele.

    Texto originalmente publicado por Brena O’Dwyer na revista digital Capitolina.
  • Elogie mais

    Em um dia desses no metrô, graças à tatuagem de uma mulher sentada perto de mim, notei como estamos despreparados para receber elogios de pessoas estranhas. Isso porque a tatuagem dela, um manequim incrível cheio de detalhes, era igual a de um homem que vi no ano anterior também em um vagão de metrô. Eu achei o desenho tão lindo que decidi pará-lo para elogiar.

    O homem estava distraído e eu coloquei a mão em seu braço para que ele me escutasse. É claro que a sua primeira reação foi um olhar bravo, desconfiado. Ninguém gosta de ser tocado de repente, até porque não sabemos a intenção alheia. Sua tatuagem é maravilhosa, eu disse. O olhar assustado, então, se transformou em um sorriso sem graça, que permaneceu com ele até o momento em que desceu na estação. E eu saí com a sensação de que fiz o dia de alguém mais leve.

    Eu nunca me esqueço também do dia em que estava em uma loja qualquer no shopping e uma garota, que estava do lado de fora, entrou e me parou apenas para dizer o quanto tinha amado minha bota marrom de cano alto. Depois disso, eu passei a amar minha bota trinta vezes mais e elogiar os outros com frequência.

    Devo admitir que tatuagens são o meu ponto fraco. Não posso ver uma bonita que quero elogiar. E já fiz isso repetidas vezes, recebendo em troca sorrisos sinceros de quem não esperava uma gentileza em plena correria paulistana. Ainda assim, quando vejo um sapato bonito, um batom incrível, o cabelo colorido maravilhoso de alguém ou um livro ótimo em mãos alheias, me contenho muito por receio de ser mal interpretada ou vista como invasiva.

    É preciso ressaltar que não estamos falando aqui de assédio, mas, sim, de gentileza. E ser gentil é uma escolha altruísta. É querer deixar de ser indiferente para se identificar, sem esperar qualquer coisa em troca. É deixar de ter medo de externar sentimentos bons. É admitir que estamos ligados, que você se importa. É reparar o outro, no outro, devagar, uma vez que nessa vida, como diria Padre Fábio de Melo, muita gente já me olhou depressa demais.

    Estamos tão armados contra a gentileza que qualquer iniciativa de contato humano torna-se um perigo. Tanto porque somos induzidos diariamente a se afastar, a criar padrões de comportamento destrutivos, quanto por não termos nenhuma referência em relação a isso. Ninguém faz, logo, as histórias que ouvimos sobre supostas (e falsas) gentilezas sempre acabam em algo ruim, novamente, fechando o ciclo.

    Mas depois de ver um post no facebook da Clara, do blog amorzinho Declara, incentivando o elogio, decidi fazer esse post para me lembrar do quando isso pode transformar o dia de alguém. Mesmo que essa pessoa não aceite e saia andando. Sabe aquele gif do filme Waking Life que fala eu não quero ser uma formigaEntão, a ideia é exatamente essa: parar de esbarrarmos uns nos outros no piloto automático sem nada de verdadeiramente humano.

    E não só elogiar estranhos, mas aqueles que convivem com você. Quantas vezes nossa humanidade se perde em relacionamentos rotineiros? Torne isso um hábito. Elogie a roupa, o cabelo, a mochila, o perfume, a personalidade, a inteligência, a curiosidade, as fotos, a risada. O que você sentir vontade, o que você realmente achar lindo na outra pessoa. Garanto que nada de negativo poderá sair dessa atitude, muito pelo contrário.

    Da próxima vez que você ver algo que gosta em alguém, diga. Sem receios. Apenas olhe para a pessoa e fale em alto e bom som, sem medo da resposta. O que agrega, deve ser compartilhado. Eu aposto que por mais que a pessoa não espere, ela também se sentirá mais leve. Elogio sincero vai além da ideia de afagar o ego alheio. Um elogio espontâneo é um abraço quentinho em um dia de inverno, é compartilhar carinho. E nesse caminho, quanto mais damos, mais espaço criamos para receber. É recíproco.

    E aí, quem você elogiou hoje?

    Texto originalmente publicado por Luana Toro no blog Entre Anas

  • Mulheres unidas: dinâmicas inclusivas de trabalho

    Arte do coletivo Vermelha

    Desde que orquestras passaram a realizar audições cegas, em que candidatos se apresentam aos jurados por detrás de cortinas, um estudo mostrou que o número de mulheres compondo as principais sinfônicas norte-americanas subiu de menos de 5% para 25%. Isto confirma a predisposição a julgar um trabalho como inferior somente por ter sido executado por uma mulher.

    O chamado “glass ceiling”, como foi batizado pelo Departamento do Trabalho dos EUA (USDOL), representa a prática, muitas vezes inconsciente, de favorecer indivíduos de determinados grupos diante de outros, impedindo indivíduos qualificados de alcançar cargos de gerência. O glass ceiling é limitante para pessoas de todos os grupos socialmente oprimidos, incluindo as mulheres.

    No entanto, o aumento de políticas de inclusão, capacitação e empoderamento, juntamente com a explosão do empreendedorismo feminino, fragilizam esta barreira invisível, com a promessa de finalmente estilhaçá-la.

    De dentro para fora

    Inseridas em um ambiente que limita seu potencial, cada vez mais mulheres decidem romper com empresas e iniciar seus próprios negócios. Através das expansões individuais destas mulheres, o cenário trabalhista mudou e se desenvolveu bastante. A sororidade, tão presente na luta feminista, também tem papel importante neste movimento. Sorority Funding é um fenômeno caracterizado pelo apoio financeiro coletivo, de mulheres para mulheres que estão iniciando seus negócios. A taxa de sucesso de projetos do Kickstarter e no Indiegogo pelo gênero do fundador é superior entre as mulheres, com grande destaque para áreas historicamente dominadas e associadas aos homens, como tecnologia e games. Ou seja, o retorno do investimento em empreitadas femininas vai bem além de benefícios sociais.

    E não somente nos pequenos negócios o Sorority Funding tem influência. Woman Angels são mulheres que usam seus próprios recursos financeiros para investir em negócios de alto impacto liderados por outras mulheres, reunindo-se em redes como o Angel Academe, causando um aumento significativo na modalidade de investimento no mundo todo. No Brasil, o MIA (Mulheres Investidoras Anjo) foi criado em 2013 e é a primeira iniciativa do tipo no país. Para encontrar empresas com equipes diversificadas que estão aptas a receberem investimento, sites como o Plum Alley e SyndicateRoom realizam uma curadoria e levantam oportunidades para investidores.

    Deb Xavier é empreendedora, embaixadora brasileira do Women’s Entrepreneurship Day e idealizou o Jogo de Damas, projeto de mentoria para mulheres

    Também apoiadas na sororidade e potencializadas pela facilidade de conexão proporcionada pela internet, florescem redes de mulheres que se apoiam mutuamente na causa trabalhista. O grupo do Facebook “Trabalho em rede: mulheres nas artes”, por exemplo, tem como objetivo unir artistas e compartilhar oportunidades na área. O “Profissionais/Vagas Feministas”, assim como muitos grupos, aceita somente somente mulheres cis e trans, homens trans e não binários em sua comunidade, em que os membros compartilham vagas e empresas alinhadas e compromissadas com as reivindicações feministas. Já os coletivos Vermelha e Arquitetas Invisíveis são exemplos independentes que focam na promoção de discussões e conscientização, a fim de mobilizar ações em prol da igualdade de gênero.

    De fora pra dentro

    Diante da expansão e conquista feminina, algumas instituições começam a lançar iniciativas para minimizar os efeitos dos preconceitos que limitam as mulheres, desde o recrutamento até a evolução profissional. Estes esforços têm efeito direto sobre as pessoas prejudicadas pelo glass ceiling, é claro, mas também instiga a transformação de pensamentos e ações daqueles que perpetuam a cultura da exclusão. Assim, a onda de transformação parte do ambiente e age sobre os indivíduos, retroalimentando as correntes de mudança.

    A prática do recrutamento cego, similar à prática de audições cegas das orquestras, se populariza em empresas e já é realidade em gigantes como Deloitte, HSBC e BBC, que recebem currículos sem informações pessoais como nome, gênero, idade, local de formação e anos de experiência. O cargo de “chefe de diversidade” também está cada vez mais comum e valorizado — Airbnb e Autodesk, por exemplo, têm um. Seu papel é implantar políticas inclusivas no recrutamento e retenção, assim como realizar treinamentos e workshops sobre o assunto.

    Medidas como estas têm impacto importante no aumento da presença feminina em cargos gerenciais. No Brasil, por exemplo, o número de mulheres neste tipo de posição saltou de 5% em 2014 para 11% em 2015. Apesar da proporção ainda estar longe do ideal, a continuidade dessa tendência, juntamente com projetos e espaços voltados exclusivamente para as mulheres, leva-nos em passos mais acelerados a um futuro de igualdade.

    A empresa Plano Feminino e o núcleo de inteligência Think Eva, ambas brasileiras, trabalham com marcas que desejam não só vender para mulheres, mas aproximar-se de suas demandas com profundidade e sensibilidade. Dentre seus serviços, estão treinamentos e desenhos de estratégias de branding. Em 2015, o curso “Publicidade e mulheres: um novo jeito de fazer publicidade para a mulher”, do Plano Feminino, teve turma lotada. As “Evas”, como se autointitulam, já prestaram consultoria para clientes de uso, como Banco do Brasil, Avon e até o Metrô de São Paulo. Além disso, elas tem portais em que mulheres constroem suas próprias narrativas e inspiram leitoras. Neste plano de conteúdo, o Think Eva conecta-se ao Think Olga, projeto idealizador da grande campanha Chega de Fiu-Fiu. O conteúdo é diversificado, desde carreira e empreendedorismo até artes e comportamento.

    O sucesso de empreendimentos como Think Eva e Plano Feminino provam que os negócios tradicionais enxergam a necessidade de se reinventar com as quebras de paradigmas sociais. Novos empreendimentos adaptam-se à demanda, principalmente aqueles comumente dominados por estereótipos masculinos, como tatuagem e esporte. A loja Pam Pam, em Londres, vende somente calçados esportivos femininos; a Nike expandiu sua rede de lojas Nike Woman e abriu a primeira filial na Europa; a Adidas inaugurou a primeira loja da marca no gênero na China.

    Sampa Tattoo é um estúdio de tatuagem em que somente mulheres tatuam

    Inclusão como investimento

    Esforços para incluir mais mulheres e outros indivíduos oprimidos no mercado de trabalho trazem avanços sociais e transformam a vida de pessoas que se vêem marginalizadas e não representadas. Porém, além desta vantagem que pode parecer óbvia, a inclusão também traz consigo outra faceta: a diversidade é uma poderosa geradora de capital.

    Uma pesquisa realizada pelo grupo Catalyst mostrou que empresas com mais mulheres em cargos de conselho e liderança têm retorno sobre capital 35% superior àquelas com menos representatividade feminina. O mesmo foi observado pelo estudo da consultoria McKinsey ao avaliar a América Latina. Os motivos para esta diferença vão muito além de uma afirmação rasa de que as mulheres são melhores gerentes que homens. Regina Madalozzo, Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois e professora na escola de negócios Insper, explica:

    “Não é que colocar mulheres na diretoria aumente o lucro da empresa. A empresa que cria possibilidade para a mulher subir de forma competitiva está criando sistemas que permitem maior lucratividade. Ao fazer isso, a companhia passa a selecionar as melhores pessoas. Empresas sexistas devem redobrar a atenção: provavelmente também discriminam outros grupos que não se encaixem no perfil habitual de chefe.”

    Com este panorama, a inclusão e diversidade deixa de ser um desejo de alguns, e passa a ser uma necessidade de todos. É um processo lento, que exige esforço de todas as esferas sociais. Porém, isso está acontecendo. Empresas, organizações, grupos e governos estão realizando esforços para este objetivo, mas o papel do indivíduo também é crucial na transformação do próprio pensamento e no pensamento daqueles ao seu redor. Observe, questione: quantas mulheres há na empresa que você trabalha? Quantas chefes mulheres você já teve? E, mais importante, qual papel você assume nesta história?

    Texto originalmente publicado por Davi Ozolin no medium Box 1824

  • Ser mãe não é profissão

    Foto: Alê Rocha (projeto “Mãe, mulher e”)

    Depois de 10 anos do primogênito, um outro [teste] positivo. Eu não fazia ideia de como aquelas duas listrinhas iriam mudar completamente a minha vida. Eu já tinha um filho de 10 anos, independente, grande e eu já tinha quase esquecido como era ter um bebê nos braços. Medo foi o que senti. Junto com o positivo, a notícia de que eu tinha passado para o Mestrado.Aquele processo seletivo doloroso tinha valido a pena. E agora? Um bebê e uma dissertação. Não, eu não consegui. Um ano de curso e desisti. Abandonei um sonho que estava atrasado há tempos. Não consegui conciliar noites sem dormir e leituras densas. Um bebê lindo e saudável, mas uma perda também muito grande: meu sonho de seguir carreira acadêmica. Dizem que a cada escolha, uma renúncia. Não foi o caso. Eu não tive como escolher.

    Achei que, pelo menos, eu iria conseguir conciliar meus trabalhos já que são flexíveis. Aos quatro meses de gestação, fui convocada para um concurso que tinha feito dois anos antes de engravidar. Assumi. Lá ia eu com uma barriga enorme pra um lugar distante enfrentando meios de transporte extremamente ineficientes. Eram três horas para ir e três horas para voltar. Ao fim da licença-maternidade, eu não tive coragem de enfrentar todo aquele tempo longe do meu filho, que, naquela época, só queria saber de peito e nada de alimentos complementares. Seriam seis horas só no trânsito mais o tempo de trabalho e como era difícil ordenhar e deixar leite pra ele! Cansativo, nem sempre dava certo. Leite que ele não queria. Menino esperto, queria o leite direto da fonte. Novamente, uma não-escolha: um concurso ou um bebê com fome em casa longe de mim? O bebê, claro. Pedi exoneração com o coração partido e a cabeça confusa. Não é todo dia que a gente passa em concurso.

    Trabalhando desde dezesseis anos, eu não consegui ficar sem meu trabalho. Tá certo que mantive um outro emprego em que também sou concursada. Esse, perto de casa. Mas eu queria mais. Foi então que resolvi empreender. Abri uma loja online de itens infantis que tinham a ver com os meus ideais. Foi um sucesso! Achei que não fosse vender nada e, quando vi, era tanta encomenda que eu nem acreditava. Seguia eu para os Correios com caixas e mais caixas e uma criança no carrinho. Uma criança que não aguentava muito tempo na fila, que não se contentava em ficar ali parada. Um estabelecimento sem rampa. Eu com carrinho de bebê, criança, caixas e escada pra subir. Em alguns dias, havia quem me ajudasse. Em outros, eu desistia e voltava pra casa. Foi quando eu senti na pele que esse mundo não acolhe mães e bebês. Mas, segundo o mundo todo, com uma criança feliz e gordinha, eu deveria ser só felicidade. Loja fechada. Decidi esperar mais um pouco.

    Agora, com ele na escola, seria mais fácil trabalhar. Duas entrevistas. Segunda de manhã? Puxa, infelizmente, não dá. Estou sozinha com meu mais novo em casa. Todos os dias às 11h? Gostaria muito, mas é nesse horário que estou arrumando o pequeno pra escola e aguardando meu filho mais velho pra almoçar. E foi assim que duas oportunidades se esvaíram. Saí de cabeça baixa e lamentando pelos horários incompatíveis.

    Até que, há umas duas semanas, apareceu na minha vida um aluno particular! Olhos brilhando. Adoro dar aula. E seria perfeito: ele poderia vir à minha casa em um horário em que estou em casa. Tentei a primeira semana. Busquei o menor na escola, dei banho, comida, contei historinha e, com muito custo, consegui fazê-lo dormir antes que a aula começasse. Tudo certo. O aluno veio, casa em silêncio, a aula rolou. Ontem, já foi diferente. Tentei o mesmo esquema, mas criança é imprevisível. Minha criança tagarela que puxa assunto com todo mundo não dormiu e seria impossível dar aula com ele acordado querendo mostrar todos os brinquedos e como ele sabe dar cambalhota. Aula cancelada. Sensação de impotência.

    Dizem que tudo isso foi escolha minha.
    Dizem que tenho que estar feliz por ter filhos saudáveis.
    Dizem que não tenho do quê reclamar.
    Dizem que reclamo de barriga cheia.

    É dessa forma que silenciam mães. Porque mãe não precisa ter outros quereres, outros sonhos, outras invenções. Mãe, nesta sociedade, tem que se bastar como mãe. Ou você entra na fila da creche pública, que nem sempre tem vaga e nem sempre é tão boa ou perto da sua casa, ou você despeja seu salário em uma creche particular. Ou você trabalha o dia todo e mal vê a cria ou você abandona sua carreira. Não há meio-termo. Antes de ser mãe, você concorda que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, mas depois da cria parida, você descobre que, na verdade, nossa sociedade está mais para “quem pariu Mateus que o embale”. Para conseguir seguir sendo uma mulher profissional, eu precisaria explorar a minha mãe (mantê-la na minha casa cuidando dos filhos todos os dias) ou explorar uma outra mulher (que ganharia um salário muito inferior ao merecido). Note: eu só falei de mulheres. Por quê? Porque homens nunca terão esse problema. Homens jamais precisarão pensar com quem os filhos vão ficar ao aceitar um emprego e jamais responderão, em entrevistas, se têm filhos. O cuidar do outro não é uma questão para o homem. O cuidar do outro é uma questão que existe apenas no mundo das mulheres.

    Pra mudar, vai ser preciso muita luta. Luta por políticas públicas voltadas para as mulheres. Luta por divisão do trabalho doméstico e cuidado com as crianças. Luta por creche pública de qualidade para todos. Luta por poder trabalhar meio período ou “home office”. Luta por igualdade de salários entre gêneros. Luta por uma sociedade que acolhe mães e crianças. Afinal, eu não me chamo mãe.

    Texto originalmente publicado no blog Não Me Chamo Mãe por Dany Santos, professora e colunista do Huffpost Brasil

  • Reconhecer As Próprias Vitórias Também Cura

    Pense na sua história.

    Puxe na memória todas as vezes em que você se viu diante de um grande desafio ou obstáculo e precisou superar algo em si para vencê-lo.

    Não importa se ele era pequeno aos olhos dos outros, se era grande pra você, é isso o que interessa.

    Experimente fazer uma listinha dessas pequenas vitórias.

    Como você se sentiu depois delas?

    Mais forte? Corajosa? Guerreira? Livre? Capaz de conquistar o mundo?

    É esse o exercício que o Imagina Coletivo lançou para nós mulheres refletirmos sobre cada um desses momentos e compartilhar essa história em um vídeo de até um minuto para o desafio #DonaDeMim.

    Com muito orgulho aceitei o convite para co-criar esse projeto e pude ver, com base na minha dificuldade de fazê-lo e nas de todas as mulheres envolvidas, o quanto pra nós é difícil “cantar nossas vitórias” pessoais, porque desde o berço somos supra exigidas a sermos tantas coisas que tudo fica com aquela cara de “não fez mais que a obrigação”, né?

    Mas não pode ser assim!

    Percebi que quando começamos a falar com outras pessoas, as coisas iam fluindo, a gente ia perdendo o medo, a vergonha, a sensação de que “a minha história não vale a pena ser contada”, e fomos nos fortalecendo no processo, e nos encorajando a colocar pra fora aquilo que muitas vezes só o nosso travesseiro conhecia.

    E dentre tantas histórias bonitas de luta percebemos que, quanto mais dolorida uma lembrança, menor ela ficava ao ser dita, primeiro pra si depois compartilhada, porque quando a gente olha nos olhos do monstro ele fica menor. Falar daqueles momentos em que você venceu algo é cura, não só pra você como também para quem te escuta. Ouvindo umas às outras a gente se reconhece, a gente se encoraja e se sente mais forte para enfrentar os próprios medos e fantasmas. (O meu tá aqui ó, só clicar!)

    E esse medo pode ser deixar pra trás um relacionamento abusivo como também pode ser lutar pelo que você quer na sua vida e carreira. Desde cedo escutamos o que podemos ou não fazer, por isso seguir o que o nosso coração manda nem sempre será o caminho mais fácil. Tantas mulheres deixam de lutar pelas carreiras incríveis que sonham ter por se sentirem acuadas, incapazes, por temerem julgamentos e críticas, por não quererem enfrentar pais, maridos, chefes, o status quo… talvez falar com outras mulheres sobre essas escolhas e lutas ajude-as a vencer as próprias batalhas.

    Quer fazer mais?

    1. Faça uma lista das suas vitórias e cole num lugar onde possa vê-las todos os dias. E vá acrescentando as novas. O exercício em si já vai te dar um super gás pra seguir em frente.
    2. Convide amigas para falar sobre essas histórias e comece compartilhando as suas para que elas se encorajem.
    3. Sempre que souber de uma conquista feminina, reconheça-a valorizando o feito, diga pra elas o quanto foram incríveis, das meninas às idosas.

    Como JoutJout ensinou nesse vídeo: “O antídoto para o que nos envenena está dentro de nós mesmas.”

    Que tal se a gente dedicasse um tempinho para se curar somente pensando em tudo o que a gente já conquistou? Acho um bom exercício pra se fazer no inverno que é o tempo da reflexão, hein?!

    Texto originalmente publicado por Luciana Pego no blog Jogo de Damas

  • No Dia Do Rock, uma ode às mulheres

    O lugar da mulher na música foi por muito tempo o da beleza. Um belo rosto para vender belas canções. Eram bibelôs do palco para entreter e a parte técnica, o tocar de instrumentos e a produção backstage ficavam a cargo dos homens, afinal, eles “que entendem” de negócios, da técnica, da parte racional. Sempre havia um agente, pai ou marido para ditar como a cantora devia se vestir, agir, cantar e principalmente para controlar seu dinheiro.

    Quando a mulher estava no universo musical como namorada de cantores e artistas, a situação piorava. Ou era logo taxada de “groupie” ou “destruidora de bandas”, como aconteceu com Yoko Ono e Courtney Love.

    Essa realidade claramente seria contestada por várias mulheres ao longo do tempo, como Nina Simone, Joan Jett, Debbie Harry, Rita Lee e as próprias Yoko e Courtney. Não faltam exemplos de musicistas que foram além do que lhes era designado, pegando em instrumentos, fazendo produção, tomando as rédeas do palco e da vida.

    Com o avanço da internet, a possibilidade de fazer música sem a necessidade de gravadoras ou agentes fez aparecer uma cena musical forte e independente – principalmente no Brasil. Claro que a primavera das mulheres estaria presente nessa nova era. Nesse Dia do Rock, conheça algumas mulheres brasileiras que estão revolucionando a forma de fazer música dentro e fora dos palcos:

    PROJETOS


    – O selo PWR

    Foto: instagram.com/pwrrecords

    Produção de shows, turnês, newsletter, zine, oficinas e uma lojinha com bonés, camisas, ecobags: não tem quase nada que as meninas do PWR, selo musical criado em Recife, não façam. Hannah e Letícia estão dando suporte à bandas que tenham no mínimo 1 integrante mulher na formação, ajudando no lançamento, venda e na visibilidade das turnês. No hall de artistas da PWR, se encontram 12 bandas em menos de um ano de selo (Papisa, In Venus, Miêta, Katze, Cora, My Magical Glowing Lens, Walkstones, Six Kicks, Musa Hibrida, Ema Stoned, Lari Pádua e Winter). Você pode ouvi-las no bandcamp do selo (https://pwrrecords.bandcamp.com/).

    Do site da PWR:

    “PWR Records é um selo sobre representatividade. Diante de um cenário musical no qual muito se fala sobre a inclusão feminina e onde, por muitas vezes, o discurso não corresponde a ação, Hannah Carvalho (19) e Letícia Tomas (20), meninas que têm movimentado intensamente a cena nordestina, decidiram criar, no Recife, um selo no qual as mulheres podem reforçar seu poder de protagonismo na música em todo país.

    O ponto de partida foi mapear as bandas independentes do Brasil com ao menos uma mulher na formação, sem recorte de gênero musical. Letícia e Hannah, junto a Nanda Loureiro, do selo cearense Banana Records, construíram uma lista colaborativa online. Entre os meses de julho e setembro de 2016, foram registrados 310 grupos com ao menos uma integrante. Dentre esses, 44 são exclusivamente de meninas ou projetos solo. 9 são de Recife e a cidade mais citada é São Paulo, com 83. Um número ainda pequeno diante do tamanho de uma cena cada vez mais extensa e plural.

    Com os dados nas mãos, decidiram que era hora de estimular as mulheres a ocupar esse espaço historicamente masculino. Para isso, criaram o selo PWR Records, que pretende dar suporte nos lançamentos, além de ajudar na venda e criação de merchs. Para um trabalho sair através do label, é necessário que a banda tenha ao menos uma mulher na formação. Desta forma, a ideia é mostrar que o papel feminino na arte é sim de inovar e transgredir. E, com isso, pretendem ampliar a visibilidade nos festivais e eventos musicais. O futuro é feminino.”

    – O projeto multimídia WE ARE (NOT WITH) THE BAND

    Foto: instagram.com/wearenotwiththeband

    Nós somos a banda. Nós não estamos com a banda. Esta é ideia principal do projeto multimídia WE ARE (NOT WITH) THE BAND, que visa desmistificar a ideia que mulheres são apenas namoradas, acompanhantes, fãs/groupies dos elementos de uma banda. No site do WA(NW)TB, a missão é alargar, arquivar, divulgar e empoderar as mulheres na música. Lá é possível ler entrevistas de profundidade com artistas nacionais. No Instagram e Facebook do projeto, são exibidos vídeos, coberturas fotográficas de shows e eventos. As colaboradoras são Clara do Prado, Daniele Rodrigues e Filipa Aurélio.

    Do site:

    “Sentiu-se a necessidade de criar um espaço onde essas mulheres, de vários cantos do país, diferentes gêneros musicais e vivências, pudessem falar sobre suas dificuldades/lutas e vitórias no meio musical.

    Através de retratos, entrevistas e vídeos, queremos apoiar cada vez mais quem muitas vezes se esconde na sombra de um mundo, ainda, majoritariamente masculino.”

    – A página Quase Todo Dia Uma Banda De Mina Diferente

    Créditos: Tuesday Bassen

    Com objetivo parecido do We Are Not With The Band, a Quase Todo Dia Uma Banda De Mina Diferente utiliza a rede social mais famosa do mundo para postar, quase diariamente, músicas, vídeos, fotos, lançamentos e eventos de bandas e projetos independentes que tenham pelo menos uma mulher em sua composição. Com mais de 3mil curtidas, a intenção é mapear, fortalecer e divulgar a cena musical feminina.

    – A iniciativa Girls Rock Camp

    O Girls Rock Camp surgiu em Portland, nos Estados Unidos, em 2001. Até hoje, são realizadas dezenas de edições nos Estados Unidos, Europa e América Latina, desenvolvendo modelos de conduta positivos, espírito de colaboração e liderança. A iniciativa consiste num acampamento de férias diurno, onde durante uma semana meninas com idades de 7 a 17 anos são convidadas a ter uma experiência empoderadora, divertida e completa no mundo da música. Em meio a atividades de fortalecimento de autoestima, desinibição, trabalho em grupo, elas aprendem a tocar um instrumento, formam uma banda, fazem uma composição inédita e uma apresentação ao vivo, aberta para os pais, familiares, amigos e  toda a comunidade. Chegou ao Brasil pela primeira vez em Sorocaba, no ano de 2013, e este ano aconteceu em janeiro, em Porto Alegre, contando com uma rede de voluntárias envolvidas com música e empoderamento.

    BANDAS


    Sugestão de três bandas para ouvir no dia de hoje (e sempre):

    – Rakta

    Juntas, as paulistanas Carla Boregas (baixo), Paula Rebellato (voz e teclas) e Nathalia Viccari (bateria) têm uma sonoridade ímpar, que engloba uma batida psicodélica com traços de punk e letras ligadas ao universo feminista. Tudo a ver com o nome da banda, que é uma derivação da palavra sânscrita RAJAS – o componente energia, que produz movimento, força e expansão. Já fizeram turnê nacional e pelos EUA, Canadá e Japão. Seu segundo e mais novo disco, “III”, marca uma nova fase da banda, que agora estreia em estúdio como um trio sem guitarra. O lançamento está disponível no Spotify e Bandcamp.

    – Bertha Lutz

    Atualmente formada por Gabi (guitarra), Rafa (baixo), Carol (bateria) e Báh Lutz (vocais), Bertha Lutz é uma banda feminista de hardcore formada em 2006, envolvida desde então na construção de espaços feministas e autogestionados em Belo Horizonte. Além de levantar a bandeira antimachismo, o grupo também é um dos poucos com uma front woman negra no cenário do rock independente nacional, resistindo também contra o racismo. Inspirada pelo movimento riot grrrl, o som da BerthaLutz une hardcore e militância feminista em seus shows, e atualmente conta com um financiamento coletivo para gravar o novo EP da banda. O trabalho delas pode ser ouvido no canal delas no YouTube.

    – Oldscratch

    “Não, não me diga mais o que fazer
    Desde pequena fui manipulada por você,
    sociedade que só me dava boneca pra brincar,
    pra aprender a ser uma boa mãe e dona do lar”

    Assim começa a letra de “Dona do Lar”, a primeira faixa do álbum “Padrões de Conserva”, álbum mais recente da banda alagoana Oldscratch. É formada por Melinna Guedes (guitarra e voz principal), Julie Moura (baixo e voz) e Gabriela Santos (bateria e voz), que buscam sempre fazer shows e eventos em espaços públicos e abertos ao público. Numa banda onde literalmente todas as integrantes têm voz, as meninas exploram uma batida que mistura grunge e punk com uma pegada riot grrrl. Você pode ouvir o disco no bandcamp da banda.

    Para conhecer mais bandas de mulheres (não apenas de rock), confira a lista Girl Bands BR, e fique por dentro dos mais de 300 projetos mapeados.

    Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

  • Notas sobre nostalgia

    Eu sempre quis entender por que o ser humano é nostálgico. Ainda não sei. Não sei o que faz a gente procurar foto antiga de momentos que naquela época não pareciam tão incríveis como parecem hoje. O que faz a gente ouvir aquela música que hoje nem achamos tão boa, mas que mexe com a gente igual, mexe lá naquela memória que você faz questão de guardar por razão nenhuma.

    Tipo o dia em que você chegou atrasada para a primeira aula do dia na escola e ficou aguardando a que viria em seguida, enquanto ouvia o The Family Jewels, primeiro álbum da Marina and The Diamonds, num iPod com os fones no volume máximo, de farda amassada e casaco desproporcional ao seu tamanho, cabelo propositalmente despenteado, deitada no banco frio de concreto que ficava em frente à sala de aula. Era horrível existir naquele momento. Eram 7:30 da manhã e ninguém é feliz às 7:30 da manhã. Era ano de vestibular e raramente se é feliz nessa época também, com todas as pressões, a ansiedade para sair da escola e conhecer o Centro de Artes e Comunicação da UFPE, os problemas de relacionamento interpessoal, o não entendimento de quem você é (não que hoje eu saiba, mas naquela época isso perturbava muito mais), as espinhas e os fantasmas da depressão.

    Algumas memórias são muito cinzas, mas a nostalgia faz com que vejamos certa beleza nelas – uma beleza frívola, melancólica, mas ainda bela. Eu só não sei explicar porque eu me pego pensando nisso, se racionalmente está claro, claríssimo, que foi uma época difícil. A nostalgia tem poderes que eu desconheço. Mas toda vez que eu ouvir o disco The Family Jewels até o final, ou o one-hit wonder Gotye e sua “Somebody That I Used To Know” em algum shopping center, eu vou lembrar de 2012 com carinho e com uma beleza que talvez eu não fosse capaz de enxergar com 16 ou 17 anos.

    Acho que crescer é ganhar também umas lentes especiais para justamente enxergar isso, as pequenas coisas que te levaram a ser quem você é. E por mais duras que sejam, essas memórias fazem parte de um processo de aprendizado que só você conhece. Creio que a beleza está aí. Em se reconhecer. Em se apropriar do processo de ser, de querer ser mais. E para ser mais, é preciso olhar para trás mesmo. É aí que a nostalgia me ganha: olhar para o passado com carinho é olhar para a menina frágil, medrosa e cheia de sonhos que eu deixei no passado. Olhar para ela com esse carinho é entender que eu a carrego dentro de mim, e que eu preciso ser gentil com ela porque ela faz parte de quem eu me tornei também. Afinal, se eu não tivesse passado pelo que ela passou, eu não ia ter a força, a coragem (médio, ainda tenho muitos medos) e os pés no chão que tenho hoje.

    No fim das contas, creio que essa é a minha fascinação com a nostalgia: ela me ajuda a crescer.

    Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

  • A vida de uma refugiada: “Você não sabe em quem confiar”

    Em um assentamento de trânsito na Europa, mulheres e meninas explicam porque se sentem mais seguras dormindo no frio.

    Por serem mulheres, refugiadas passam por uma série de dificuldades extras [Créditos: Mona van den Berg/Al Jazeera]
    “Nós nunca dormimos [no mesmo horário]. Uma de nós está sempre acordada. Já ouvimos muitas histórias de mulheres que foram roubadas”, diz Samaher, 38 anos, de Bagdá. Ela tem olhos escuros e uma voz suave e triste.

    Três semanas atrás, ela fugiu do Iraque com seu bebê e duas amigas. Agora ela está no assentamento de trânsito para refugiados em Vinojug, na fronteira entre a Macedônia e a Grécia, esperando o trem para a Sérvia.

    “Eu estou tão cansada”, diz. “Mesmo quando é minha vez de dormir, não consigo. Eu estou sempre com medo que algo possa acontecer”.

    Apesar do sol estar brilhando, está amargamente frio no assentamento. Centenas de refugiados tentam se aconchegar nas tendas grandes e amornadas pelos aquecedores do pátio aberto. Em um dos bancos de madeira está sentada Manal, 30 anos, de Damasco, capital da Síria. Suas duas filhas, de 3 e 4 anos, agarram-se à ela, enquanto o filho de 10 anos brinca em outra parte da tenda.

    Grávida de seu quarto filho, Manal está viajando há duas semanas. Ela cruzou o Mediterrâneo em um barco de borracha e andou por quilômetros. “Quando você está grávida, essa jornada é muito difícil. Você precisa alongar bastante enquanto anda”, ela suspira.

    Para ela, é muito mais difícil para uma mulher estar na condição de refugiada do que um homem. “Nós temos que cuidar das crianças. Isso é uma tarefa que nunca acaba. É mais fácil para os homens, eles só precisam se preocupar consigo mesmos”.

    No espaço supostamente “child-friendly” (que aceita e tem espaço para crianças) do assentamento, Nameen, da cidade de Homns (Síria), cuida de sua pequena bebê. Ela entrou em trabalho de parto enquanto viajava pela Turquia. “Felizmente eles conseguiram me levar para o hospital a tempo. Deu tudo certo no parto”, diz a jovem de 25 anos, com um fatigado rastro de sorriso.

    Nameen ficou no hospital por dois dias, descansou por mais 10 na Turquia, e então atravessou o Mediterrâneo em um bote com a sua filha de poucos dias no colo.

    “Tudo que eu pensava era na minha menina, eu tinha muito medo que ela se afogasse ou adoecesse. Estava muito frio. Ainda sigo muito preocupada com a segurança dela, dia e noite.”

    As outras mulheres de Vinojug concordam: ser uma refugiada é muito mais difícil do que ser um refugiado.

    As autoridades não entendem os perigos específicos enfrentados por mulheres e crianças, deixando passar despercebidos sinais de violência, diz Jelena Hrnjak da ONG sérvia Atina [Créditos: Mona van den Berg/Al Jazeera]
    Mulheres Refugiadas

    Recentemente, a Anistia Internacional e a UN Refugee Agency (UNHCR) apresentaram relatórios sobre a posição vulnerável das mulheres refugiadas e os perigos que elas enfrentam.

    A Europa está falhando em prover a proteção básica que elas precisam, reportou a Anistia Internacional.

    Este problema é, agora, um dos mais críticos, devido à alta e crescente porcentagem de mulheres entre os refugiados que atravessam pela Europa. De acordo com a UNHCR, no verão de 2015, um quarto dos refugiados eram mulheres e crianças. Em 2016, eles representavam 55% desses refugiados.

    Todas as mulheres entrevistadas para os relatórios da Anistia disseram que se sentem inseguras e ameaçadas durante vários estágios de suas jornadas, afinal, mulheres correm mais risco de tornarem-se vítimas de violência, roubo e extorsão.

    Manal explica: “Geralmente, mulheres carregam o dinheiro da família com elas, porque os homens pensam que elas não serão importunadas e assaltadas, mas isso acontece o tempo todo. Meu marido viu com os próprios olhos uma refugiada sendo atacada por Sírios que cortaram sua garganta e levaram seu dinheiro”, diz.

    Há também o risco de estupro e assédio sexual por contrabandistas, guardas da segurança, policiais e até mesmo os próprios refugiados. Alguns contrabandistas tentam coagir mulheres a trocar sexo por preços menores para cruzar fronteiras.

    Em muitos desses assentamentos de trânsito, homens e mulheres dormem juntos nas mesmas tendas, e têm de usar os mesmos banheiros e chuveiros. Nos relatórios da Anistia, mulheres descrevem as estratégias que usam para minimizar os riscos: muitas deixam de comer ou beber para que não precisem usar o banheiro; algumas saem dos assentamentos para dormir na rua, pois se sentem mais seguras lá.

    “Sempre tem alguém que quer tirar vantagem dessas mulheres”, diz Vladimir Bislimovski, que trabalha na ONG La Strada. A ONG oferece assistência à mulheres e crianças em Vinojug. “Mas as mulheres nem sempre falam abertamente sobre suas experiências, especialmente quando se trata de violência sexual. Elas se sentem muito envergonhadas para falar”, diz.

    Para algumas delas, pode até ser perigoso falar sobre, acrescenta. Bislimovski. “Elas correm o risco de parentes homens considerarem que sua ‘honra’ foi violada caso descubram que elas foram estupradas. Então permanecem em silêncio. O que significa que não buscam ajuda, e que os agressores saem impunes”, afirmou.

    “Recentemente descobrimos duas meninas afegãs que foram estupradas por uma gangue numa terra de ninguém entre a Hungria e a Sérvia”, conta Jelena Hrnjak, da ONG Atina. “Descobrimos isso apenas porque durante o ato houve um conflito de gangues onde um dos membros foi esfaqueado até a morte. Se não fosse por isso, ninguém ficaria sabendo”.

    Vítimas de tráfico humano

    Hrnjak está apurando informações sobre problemas específicos enfrentados por mulheres refugiadas para que assistentes sociais sejam treinados para reconhecer estes riscos. “As autoridades aqui não tem absolutamente nenhum foco nos riscos que as mulheres refugiadas correm. A conversa deles é geralmente sobre comida e roupas, mas ninguém fala sobre segurança”, explica.

    Na estrada e no meio do caos dos assentamentos de trânsito, tudo pode acontecer com mulheres e jovens moças. Hrnjak sabe de casos onde mulheres foram forçadas a trabalhar para contrabandistas e traficantes. Quando o dinheiro delas é roubado, elas não podem seguir viagem. Mas têm de deixar os países e assentamentos de trânsito em 72h. Logo, elas precisam fazer de tudo por dinheiro. “É assim que elas se tornam vítimas de tráfico humano”, conta Hrnjak.

    Bislimovski compartilhou a história de duas crianças sírias, de 8 e 15 anos, que foram deixadas em Vinojug por pessoas que evidentemente não eram suas parentes. “Essas pessoas (que fazem os transportes de refugiados) perceberam que iria custar muito para elas atravessar a Europa com garotas, e que não queriam correr esse risco”, disse. “É muito claro que as intenções das pessoas que as deixaram lá não eram boas. Não é a primeira vez que meninas refugiadas são forçadas a se prostituir”.  Bislimovski também conta que a garota de 8 anos desenhou imagens de machados e sangue na ONG. “Por enquanto, elas estão alocadas num abrigo”, diz.

    Dentro de uma das tendas, Noura Hassan acende um cigarro. A sociável mulher de 50 anos é curda (do povo curdo, grupo étnico do Oriente Médio) e do Iraque. “Minha casa foi bombardeada, a maioria de meus parentes está morto. Meu marido fugiu do Líbano há um tempo, e eu estou tentando levar minhas crianças para a Alemanha agora”, explica Noura.

    Ela estava viajando sozinha, mas agora entrou em uma família que conheceu durante a travessia para a Grécia. “Você não deve viajar sozinha se for mulher”, diz. ” Eu não tenho medo, mas já ouvi muitas histórias coisas ruins acontecendo com mulheres”. Ela descreve sua própria e assustadora experiência na fronteira turca, onde os guardas não queriam lhe deixar passar. “Eles estavam gritando e batendo em pessoas. Eu esperei a noite toda. No final consegui cruzar a fronteira sem que eles percebessem”, diz.

    “As pessoas dizem que as mulheres estão protegidas, porque viajam em família”, conta Hrnjak. “Mas há muitas mulheres solteiras entre os refugiados. Para a segurança delas, se juntam a outros grupos, para que pareça que estão entre familiares. Mas os homens nesses grupos nem sempre estão bem intencionados. Sem falar que, mesmo em família, muitas mulheres sofrem com violência doméstica.”

    “Os homens tendem a descontar a tensão da estrada nas mulheres. Na ONG, tivemos mulheres do Afeganistão que eram constantemente espancadas por seus filhos mais velhos. Vemos homens batendo nas esposas na nossa frente”, continua Hrnjak.

    As temperaturas são extremamente baixas no assentamento, mas algumas mulheres preferem dormir no frio do que dividir tendas aquecidas com homens [Créditos: Mona van den Berg/Al Jazeera]
    “É muito perigoso para uma garota”

    Samaher agora está sentada na estação de apoio da Cruz Vermelha, onde sua pressão estão medindo sua pressão. Ela sofre de dores de cabeça e sua pressão arterial está muito alta – possivelmente uma consequência de todo o estresse enfrentado.

    “Vemos muitas mulheres aqui,” diz Aleksandar Jonuzoski, que trabalha na estação de apoio da Cruz Vermelha. “Muitas delas sofrem de infecção urinária pois bebem pouca água, não têm acesso a banheiros limpos e não estão acostumadas com o frio”, explica. Ele também vê muitos casos de mulheres grávidas. “30 por turno”, conta.

    Muitas grávidas sofrem com sangramentos e abortos espontâneos. “Elas passam por situações estressoras, precisam ficar muito tempo em pé em filas, são espremidas em multidões – é tudo muito ruim para uma grávida. Fazemos o melhor possível para que elas sejam levadas aos hospitais. Mas as vezes elas insistem em seguir a jornada para cruzar as fronteiras. E algumas delas precisam até pedir permissão aos maridos antes de ir ao hospital”, diz.

    A medida que anoitece no assentamento, o céu vai ficando rosa por trás do nevoeiro das montanhas. Há uma multidão de refugiados em frente ao casebre onde as roupas quentes são distribuídas. Entre eles, está Marwa, de Aleppo, Síria. O cabelo loiro-escuro da jovem de 18 anos escapa do seu gorro de tricô decorado com pequenas flores. Ela está viajando há 10 dias com sua família e namorado. “Durante a travessia pela Grécia perdemos toda nossa bagagem com roupas extras. Estamos passando muito frio desde então”, diz a moça. “Mas o pior aconteceu na Síria. Soldados tentaram levar meu dinheiro e me apalparam em todas as partes possíveis. Eu estava muito assustada. Mas eles não acharam meu dinheiro. Eu escondi nas minhas roupas íntimas. É muito perigoso para uma menina ser refugiada. Na estrada, você não sabe o que esperar. Nem em quem pode confiar”, diz Marwa, sorrindo timidamente.

    Matéria originalmente publicada no Al Jazeera pela jornalista Renate Van der Zee e traduzida por Lara Ximenes, do Observatório Feminino.

  • O sim e o não

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    Estive pensando sobre o sim e o não.

    Isso depois de ler que, segundo pedagogos, quando uma criança está na “fase do não” é porque está experimentando o mundo. Segundo esse pensamento, até então o “sim” era a única coisa que ela sabia existir, era a aceitação total do mundo como a criança conhece. E, de repente, lá vem o “não”, a aventura, o desafio…

    Interessante.

    Lembrei da adolescência. Eu sempre fui uma criança do “sim”. Não questionava os adultos. E, de repente, tinha que escolher entre dizer “sim” ou “não”. Foi confuso. Acabei aceitando muitas coisas que, só agora, sei que receberiam um grande e gordo “não”. O que mais me confundiu naquele momento foi uma das minhas músicas preferidas do Lulu… “Com habilidade pra dizer mais sim do que não, não, não”… Era difícil para uma adolescente entender se aprender dizer “não” era mais importante do que “sim” ou vice-versa. E quando o “não” era mais aceitável do que o “sim”? E quando o “não” era o inevitável que levava a conformidade?

    Foram anos para entender as várias variantes que estão entre o “sim” e o “não”.

    Hoje minha relação com o “sim” e o “não” mudou.

    O “não” está por aí, em toda parte. Ele me espera no sofá abraçado à preguiça, está no caminho de sempre, se agarra aos hábitos que não consigo largar. Como diz aquele ditado gasto, “o não a gente já tem”. E muitas vezes ele é uma certeza reconfortante. Como abrir mão de um “não” quentinho, macio, sem surpresas, que até sorri?

    É a possibilidade do “sim” que pode me congelar ou fazer pegar fogo. Hoje ele representa a aventura, traz aquele frio na barriga, acorda minha mente do torpor do dia a dia. O meu “sim” atual é bem distante daquele “sim” das crianças. O “sim” me faz lembrar de um filme em que um cego caminhava na beira de um precipício. Mas também me traz outras sensações como a esperança de atravessar esse caminho de pedras no oceano da vida. Me traz o frescor do vento na cara, apesar de estar sentada em cima de um caminhão numa estrada poeirenta. São várias emoções despertadas por um simples “sim”.

    É, ultimamente tenho dito mais “sim” do que “não”. Talvez porque o tempo realmente esteja voando. Mas isso não quer dizer que tenho aceitado tudo. Significa apenas que a vida tem se tornado mais interessante.

  • Com deficiência visual e ajuda da esposa, educador aposentado lança livro aos 83 anos

    Depois de anos dedicando-se à educação como professor e diretor do antigo Colégio CPI, no Recife, era natural que o Coronel Hercílio Fialho Filho quisesse escrever um livro. Era um sonho que ele viria realizar aos 83 anos e com uma deficiência visual. As condições seriam adversas se ele não contasse com Vera Fialho, sua esposa de 85 anos que pôde escrever o manuscrito das ideias do marido.

    “Ela foi muito importante para que esse livro chegasse até o final. Foi quem fez o manuscrito desde o primeiro ao último parágrafo. Ela foi insistente e importantíssima não apenas pela escrita, mas em sua existência. Eu devo tudo isso a ela, que foi essencial como co-autora e me ajudou a lutar contra esse problema de visão que tenho há mais de 20 anos”, conta o Coronel Fialho, com orgulho e paixão.

    Assim, a quatro mãos, nasce “Rumo ao Nordeste: uma adoção predestinada e inconsciente”, livro de 216 páginas divididas em 8 capítulos. O livro é uma homenagem ao Nordeste que o acolheu quando aqui chegou com sua família há 41 anos, vindo do Rio de Janeiro.  O coronel, que a princípio veio ao Recife apenas para prestar um concurso, foi fincando raízes cada vez mais profundas na região, onde criou sua família e firmou uma carreira como educador. “Como eu poderia resgatar essa história de uma forma que justificasse a minha permanência definitiva aqui? Como contar tudo de bom sobre o Nordeste, que me acolheu, e Pernambuco, que me adotou? Depois de noites mal dormidas pensando, cheguei à conclusão de que deveria registrar o meu legado num livro”, explicou o Sr. Hercílio.

    Sentindo-se mais nordestino do que muitos que aqui nasceram, ele enfatiza a força desse povo e o que eles têm de melhor: sua história, cultura, pontos turísticos, artesanato,  falando de cada estado com o carinho de um carioca-nordestino cabra da peste. “O nordestino merece toda homenagem que se faz. Creio que essa é uma muito bonita”, afirma o Coronel, que também é filho de alagoanos.

    Cada capítulo conta com uma homenagem aos estados da região, tudo isso enriquecido pelo Cordel que aprendeu a admirar e a praticar em seu livro. Não bastasse essa linda homenagem, ainda fala da importância do índio e do negro para a história e as conquistas do Brasil. Em um capítulo à parte, enaltece a figura ilustre de Luiz Gonzaga, que faz parte da sua vida desde a época de criança e pôde até conhecer pessoalmente na época que o artista tinha o programa de rádio “A hora do baião”.

    “Foi uma felicidade me afiliar com o Nordeste. No final do livro, conto como minha predestinação se confirma”, diz o autor, que em 2003 é reconhecido numa sessão solene na Câmara Municipal do Recife com o título de Cidadão Recifense. O livro também aborda sua contribuição para a educação em Pernambuco como gestor do Colégio CPI, que lhe rendeu uma medalha do exército pelos serviços prestados à educação no estado. O lançamento da obra acontece no dia 25 de julho, no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura do Shopping RioMar em Recife. O evento é gratuito e começa às 19h. É possível acompanhar as novidades sobre o livro na página do Coronel Fialho no Facebook.

    SERVIÇO

    Lançamento do livro “Rumo ao Nordeste: uma adoção predestinada e inconsciente”, de Hercílio Fialho Filho

    Data: 25 de julho (terça-feira)

    Local: Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura do Shopping RioMar

    Hora: 19h

  • A luta invisível das mães que desejam amamentar

    Sempre ouvi de mulheres no consultório que a hora de deixar a criança sob os cuidados de uma outra pessoa e voltar ao trabalho é a mais angustiante, principalmente porque no Brasil temos ridículos 4 meses de licença maternidade. Isso significa que o mesmo Estado que te orienta a amamentar seu filho apenas com leite materno até os 6 meses também exige que você o deixe em casa ou em uma creche com 4 meses de vida e volte ao trabalho. Ou seja: ou alguém dá outra coisa pra essa criança comer ou ela vai morrer de fome até você chegar.

    Considerando que com 38, 39 semanas de gestação já estamos exaustas e manter as atividades normais de trabalho se torna quase impossível. Que para garantir que a criança estará comendo outras coisas aos 4 meses os cuidadores precisam começar a dar outros alimentos 3 ou 4 semanas antes. Que, ao introduzir novos alimentos e ficar tanto tempo longe de casa, impossibilitada de amamentar, a chance da mãe não conseguir prosseguir com o aleitamento por muito mais tempo é gigantesca. Que a fabricante da fórmula de leite artificial é quem patrocina o congresso que trata da saúde da criança. Que essas fórmulas são vendidas livremente em qualquer farmácia sem necessidade de prescrição médica. Que a indústria massifica uma visão ultrassexualizada das mamas da mulher trazendo para muitas de nós grande constrangimento para amamentarmos em público. Considerando que a maior parte das empresas não reserva um lugar apropriado para que mulheres amamentem suas crias em intervalos no turno do trabalho. Que a indústria de alimentos, há décadas, vem convencendo mulheres a trocarem o peito por mamadeiras e nosso leite por fórmulas. Que o acesso à informação de qualidade sobre aleitamento é restrito para a maior parte das mulheres do nosso país.

    Considerando tudo isso, o profissional que coloca a culpa do insucesso do aleitamento nas costas da mãe (que em muitos casos é uma adolescente, ou uma mulher em situação de violência doméstica, ou uma mulher analfabeta funcional, ou uma mulher que é responsável pelo sustento da sua família) é um cabra tosco, limitado e sem noção.

    Texto originalmente publicado por Júlia Rocha, médica e mãe, em seu perfil do Facebook.

  • O machismo presente nos detalhes das festas de casamento

    Eu não sei vocês, mas tô amando planejar minha festa de casamento. Sempre fui festeira, sempre coloquei a mão na massa nos meus aniversários, nos da minha família e até mesmo em alguns jantares para amigos íntimos lá em casa. Então, se tratando de uma festa que é o sonho da minha vida, eu não vou medir esforços para que ela saia, na medida do possível, do jeitinho que eu e Diego sonhamos.

    Nessa busca pelos detalhes, percebi o quanto de machismo vem sendo colocado nas cerimônias e nas festas de casamento. Na cerimônia religiosa eu consigo até “entender” algumas falas, apesar de não concordar, mas é bem triste ver que muitas das novidades nas festas carregam doses cavalares de machismo e misoginia.

    Já na abertura da cerimônia, de uns anos pra cá tenho visto crianças – geralmente meninos, para já aprenderem sobre a “brodagem” – fazerem o caminho até o púlpito com uma plaquinha que diz “Ainda dá tempo de fugir”. Como se o noivo fosse um coitado, estivesse ali por obrigação e/ou pressão. Pode acontecer, claro, mas creio que seja uma minoria muito insignificante pra que essas plaquinhas “engraçadas” estejam se alastrando tanto nas cerimônias. Planejar casamento é gostoso, mas também é estressante, precisa de parceria, companheirismo do casal. Se o cara se empenhou tanto em estar ali, qual seria a razão para fugir? Não satisfeitos, atrás geralmente vem outra cria, com a plaquinha onde se lê “Foge não, ela tá linda“. Como se o casamento dependesse disso, como se baseasse exclusivamente na vaidade ou beleza da noiva. Close erradíssimo.

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    A cerimônia religiosa muitas vezes vem com falas machistas e que fazem parte do que algumas religiões acreditam, como submissão da mulher, homem posto como provedor da casa etc. Particularmente acho ofensivo, por esse motivo, optei por amigos nossos celebrando.

    É chegada a hora da festa. Comida, bebida, música… É chegada a hora do buquê. Eu gosto do misticismo divertido dessa tradição que deixa várias mulheres enlouquecidas, principalmente depois da bebida, haha. Uma amiga minha casou esse ano e chamou todas as mulheres da festa, solteiras e casadas, para jogar um… vibrador! Segundo ela, solteira ou casada, o importante é ter prazer na vida. Acertou em cheio, e a disputa foi acirrada, haha.

    Só que inventaram algo para os homens também. Algo desnecessário, sem o mínimo de tradição cujo intuito é exclusivamente rebaixar a mulher. Na cabeça deles, se as mulheres jogam algo para as amigas solteiras “desencalharem” (como se esse fosse o único objetivo de uma mulher), os homens também têm que jogar algo para os convidados que ainda não casaram. Seguem as opções de objetos jogados:

    Um abacaxi

    A agenda com telefone de outras mulheres

    Uma "piriguete"

    O primeiro é um abacaxi. A versão similar é uma bomba, que geralmente vem com os dizeres “agora a bomba é sua, você é o próximo“. Ou seja, pobre homem que pegar, vai ter que lidar com a mulher que ele divide a vida querendo formar casa e família. “Segura essa bomba uehueheuheuheueueeu”. Sério, caras? Por favor, cresçam.

    O segundo consegue ser ao mesmo tempo mais depreciativo que a bomba e menos que o último. É a “agenda do pegador”. E daí se o cara passou os últimos anos namorando com a mulher com quem ele está se casando agora? Pela lógica imbecil de quem joga isso, você só se “desfaz” afetivamente ou sexualmente de outras mulheres depois que casa.

    O terceiro é uma versão piorada da tal agenda: o noivo joga uma boneca, que representa “a piriguete”. Obviamente ele deixa bem claro aí que “piriguete” são as outras, a mulher dele é maravilhosa e é por isso que ele está casando com ela e descartando a outra. Além de baixo, é completamente desumanizador, é tratar a mulher como uma coisa.

    Por último, mas não menos importante: os bonequinhos do bolo. Te parece divertido ver em cima do bolo, naquele momento em que o casal está brindando com a família e amigos queridos, um bonequinho simbolizando você arrastando/algemando seu noivo e o fazendo casar à força? Não é muito mais legal e engraçado fazer com que toda a festa mostre a história linda que fez com que vocês chegassem ao ponto de dividirem o mesmo teto? Se seu noivo não está casando obrigado ou sob pressão, porque esses bonecos que fazem de você uma noiva “megera” estão no topo do seu bolo?

    Longe de mim querer cagar regra na festa de casamento alheio, mas a gente precisa parar de naturalizar essas “brincadeiras”, principalmente no nosso grande dia. Antes de nos cegarmos pelo afã de reproduzir o que há de tendência nas festas badaladas de casamento, é sempre bom pensar se aquilo vai faltar com respeito com você mesma ou com o seu relacionamento.

    Texto originalmente publicado pela jornalista carioca Mariana Rodrigues no blog Aquela Mari.

  • Cadê os bolsos nas roupas para mulheres?

    Créditos: C. Cassandra

    Sobre a nossa atual busca por roupas mais utilitárias, práticas e que acompanhem a vida real da mulher moderna. A nossa vida mudou e a moda precisa acompanhar. E bolsos, queremos bolsos!

    A moda feminina tem estado um pouco desanimadora nos últimos meses (anos?). Sim, ainda tem muita coisa que mexe com o nosso coração e algumas coisas novas sendo feitas (algumas marcas e coleções realmente surpreendendo), mas em uma das muitas discussões a respeito no grupo do Modices no Facebook, é impossível deixar de perceber o quanto a moda ainda pode ser frustrante para as mulheres. Acontece que a gente está em momento de evolução, mudança, crescimento e empoderamento e tem muita marca de moda que não está produzindo de acordo com os nossos novos desejos.

    Como bem disse a Brenda no grupo: “As marcas precisam entender que as roupas, hoje, são usadas como uma forma mais consciente de mostrar a sua personalidade, repertório cultural e posicionamentos”. Mais do que isso, a gente precisa que as roupas acompanhem nosso estilo de vida real, nossa vida ativa, nosso dia a dia cheio. A gente falou sobre isso quando, no post Calçadas para a Batalha, explicamos porque nós mulheres estamos em busca de sapatos mais resistentes, de solados mais grossos, que aguentem sol, chuva, transporte público, horas em pé, anos de uso.

    Seria pedir muito para que nossas roupas sejam tão utilitárias quanto? Não né? Nem precisa dizer que já faz muito tempo que as mulheres deixaram de estar confinadas à vida doméstica, deixaram de usar espartilhos que bloqueiam o oxigênio do cérebro, deixaram de ser meros objetos decorativos no mundo masculino. E, por isso, precisamos e principalmente, queremos roupas que não “digam” que devemos ser sexy ou ~femininas ou que valorizem nosso corpo antes mesmo de serem confortáveis, práticas e úteis, não acham?

    Toda roupa tem uma intenção e há um grande problema nas roupas femininas não terem “intenções práticas”. Se você reparar bem, boa parte das peças masculinas são pensadas para aguentar a vida real – com tecidos e uma “construção” mais resistente, para caber o que eles precisam – com bolsos e mais bolsos de tamanho perfeito para que o que eles carregam, com detalhes importantes – capuzes, cadarços, botões e zíperes que realmente têm uma função.

    Inclusive, senta aqui, porque precisamos falar sobre bolsos rapidão. Nada na moda é por acaso e a falta dos bolsos na roupa feminina não é algo atual. De acordo com a história, as mulheres usavam uma espécie de saco nada prático dentro de suas camadas de vestido para pode carregar seus pertences. O acesso a eles era quase impossível e, aos poucos, eles foram evoluindo e viraram uma espécie de “pochete” um pouco mais prática. Mesmo assim, as mulheres carregavam diversos objetos ao mesmo tempo (espelhos, sais, leques, documentos) e os bolsos se tornaram um problema estético – isso mesmo, estético – nas roupas.

    Os bolsos práticos, que deixavam a mão da mulher livre para viver, “estragavam” a silhueta e atrapalhavam o shape da roupa no século XVIII. Aos poucos eles foram sendo eliminados e substituídos por retículas para serem carregadas nas mãos, as precursoras das bolsas. E o que mudou até hoje? Praticamente nada.

    A verdade é que estamos extremamente cansadas de bolsos que não cabem coisa alguma quando precisamos ter as mãos livres e não podemos/queremos carregar bolsas. Estamos cansadas de roupas sem bolso nenhum ou apenas decorativos, mesmo quando elas poderiam tê-los sem nem deformar o tecido. Cansadas de calças que mostram nosso “cofrinho” com qualquer movimento normal – por que vocês acham que as calças de cintura alta estão sendo as preferidas nos últimos anos? Cansadas de transparências não solicitadas – porque insistiram em fazer camisetas com tecido fino demais, afinal mulheres devem ser delicadas. Cansadas de recortes e croppeds que não acompanham o movimento natural do nosso corpo.

    Queremos roupas que nos acompanhem e isso não parece ser tão um pedido tão absurdo. E o termo utilitário aqui não se refere apenas a roupas com mais bolsos ou, por exemplo, com detalhes que não fiquem prendendo nos nosso aneis e cabelos (quem também odeia esse tipo?). Queremos roupas que, assim como as masculinas, sejam mais versáteis. Roupas que tenham modelo, estilo e tecidos que permitam que elas passeiem do trabalho (onde passamos metade da nossa vida) à nossa vida social se grandes adaptações. Será que é possível?

    Texto originalmente publicado no Modicessite de moda que trabalha coletivamente para garantir representatividade e voz.

  • Estar bem não é estar feliz o tempo todo

    Créditos: Disney Pixar

    Desde muito cedo, acumulamos expectativas. Elas vêm de todos os lados, muitas vezes de origens desconhecidas. Uma dessas grandes expectativas é que precisamos ser felizes. Estamos aqui para isso. Para buscar a felicidade sempre. Parentes, professores, amigos e até músicas, comerciais e filmes nos bombardeiam com a ideia de que “felicidade é questão de ser”, é uma escolha, um caminho e, principalmente, é a consequência de uma série de normas e regras que, se seguidas direitinho, nos levarão ao ideal de felicidade que esperam de nós.

    Mas o que é ser feliz? Pergunta subjetiva e capciosa. Pergunta que, na teoria, devia dar espaço para múltiplas respostas, mas o ser humano gosta de padrões (tanto de segui-los como de criá-los), de caixinhas, e aí mora o perigo: começa-se a criar definições universais do que é felicidade.

    Essas definições vêm em muitas formas. Empregos “dos sonhos”, ter filhos, ter um relacionamento sério, um carro, uma bela casa, uma viagem para a Europa. Um diploma de graduação. Numa boa faculdade, claro. E a gente vai guiando nossa vida até esses destinos, seguindo direitinho aquela série de regras que nos garantem chegar lá. Essas regras são adquiridas via conselhos infalíveis (todo mundo tem algo a dizer sobre a sua vida, isso é fato), livros de autoajuda e nas representações midiáticas que mostram exemplos da mulher e do homem bem sucedidos, das mulheres e homens felizes – que geralmente são brancos, magros e heterossexuais (outro padrão).

    Dá para ser feliz vivendo nesses moldes? Eu tenho certeza que sim, muita gente é. O problema é que as consequências de viver em prol dos ideais de felicidade preestabelecidos são muito nocivas. Primeiro, porque eles não são para todo mundo, e isso deveria ser óbvio. Mas além disso, a interminável busca pela felicidade nos faz esquecer de algo que quase ninguém nos diz, mas que no fundo do nosso coração a gente sabe: às vezes, basta estar bem.

    Ser feliz o tempo todo é uma ilusão. Até porque a felicidade é, como dito antes, subjetiva – algo que me faz feliz pode não fazer outros felizes, assim como pode me fazer feliz agora e não mais daqui a uma hora. Eu não queria criar mais caixinhas para definir a felicidade, mas estamos todos fadados à hipocrisia, já dizia uma grande amiga. Então vou dizer bem pessoalmente o que é a felicidade para mim e, assim, poder explicar porque para mim, na maioria da vezes, não preciso estar feliz, mas bem.

    Para esta que vos escreve, felicidade é uma sensação como outra qualquer. Tristeza. Dor de barriga. Sono. Paixão. Ela está no hall das sensações boas, mas assim como as outras, ela é episódica. Eu fico feliz fazendo e lembrando de determinadas coisas – como momentos com amigos e família e/ou comendo uma comida muito gostosa. Vou estar sempre fazendo essas coisas? Não, assim como não vou estar sempre triste, com dor de barriga ou com sono. E é por isso que, para mim, não dá para ser feliz o tempo todo, simplesmente porque não fazemos ou sentimos o que nos faz feliz o tempo todo. É preciso dar espaço para sentir outras coisas. A felicidade é bela justamente porque é dinâmica e está em harmonia com todos os outros sentimentos que manifestam-se em mim.

    E é por isso que acredito que a felicidade não é um objetivo, um destino final (até porque se fosse, o que faríamos depois de alcançá-lo? um churrasco pra comemorar?), nem um estado de graça e elevação, nem algo para ser sempre. Se a gente fosse feliz sempre, como íamos valorizar esse sentimento? Ora, só sabemos o que é felicidade porque passamos também pela tristeza.

    Então se basta estar bem e não é preciso ser feliz o tempo inteiro, o que é estar bem, afinal? Estar bem é justamente equilibrar os momentos de felicidade com os outros episódios e sentimentos da vida. Estar bem é ser, independentemente dos ideais e expectativas esperados de nós pelo mundo, por mais difícil que seja introjetar isso na cabeça.

    Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

  • Como educamos mulheres para sofrer — uma reflexão sobre feminilidade e amor

    Arte: Henn Kim

    Texto originalmente publicado no Medium “Mulheres Que Escrevem” por Débora Nisenbaum, formada em publicidade e colaboradora da revista digital OvelhaMag. 

    Uma das partes mais complicadas de ser mulher, pelo menos para para mim, foi a necessidade de reconstruir constantemente dois conceitos fundamentais: amor e feminilidade. Estes elementos estão intrinsecamente ligados; e quando ambos são distorcidos, o resultado dessa mistura é sempre perigoso.

    Do alto dos meus 24 anos, posso afirmar que já tive que desmontar minhas ideias a respeito desses dois conceitos mais vezes do que eu gostaria. E cada vez que o fiz, foi porque eu acreditava em um tipo de amor que me fez sacrificar minha individualidade e até mesmo minha integridade como ser humano; ou então porque acreditava que minha essência como mulher estava em ser alguém que se esforça incessantemente para agradar os outros — incluindo meus parceiros. Viver numa sociedade que nos molda para o olhar masculino é constantemente re-aprender a ser mulher.

    Feminilidade

    A ideia da feminilidade é um conjunto de atributos que torna alguém feminina; uma miríade de características ligadas ao gênero feminino. A feminilidade engloba a aparência física da mulher, seu comportamento, suas vontades, etc. Em termos de aparência, por exemplo, a feminilidade é quase sempre coincidente com o padrão de beleza vigente. Na época atual, uma mulher feminina é magra, com seios e bumbum fartos, tem cabelos compridos, usa maquiagem, unhas longas, sapatos de salto e depila seu corpo. Em termos comportamentais, ela quer se casar, deseja ter filhos, não é chefe de família, não é ambiciosa, não discute, não confronta, não levanta seu tom de voz, não pronuncia sua opinião. Em outras palavras, é dócil e submissa. Ela também é altamente emotiva, carinhosa, cuidadosa, maternal e subjetiva, o que teoricamente a tornaria incapaz de tomar decisões de fundo racional, sendo frequentemente tomada pelos sentimentos.

    O grande problema do modelo de feminilidade como o conhecemos é que ele aprisiona mulheres dentro de um ideal que não compreende ninguém que deseje ter um poder sociopolítico idêntico ao de um homem. Apesar de o cenário estar mudando cada vez mais e uma boa parte das mulheres andarem na contramão dessas premissas (por exemplo, o número de mulheres chefes de família só tem aumentado), a expectativa da mulher extremamente feminina persiste. Ainda se espera que seu comportamento seja submisso e passivo, criado para a esfera doméstica, não para a esfera pública e social. Além disso, características que são de extrema importância em relacionamentos interpessoais, como compaixão e subjetividade, são estigmatizados como inferiores, exatamente por serem associados à imagem feminina. Na nossa sociedade, o feminino não só é considerado secundário, como também subalterno. Não a toa, termos como “mulherzinha” são considerados ofensivos.

    Esteticamente, a mulher feminina está necessariamente fora do seu estado natural: se deixarmos duas crianças, uma garota e um garoto, chegarem aos 18 anos de idade sem intervenções estéticas, o garoto será considerado masculino. A garota, contudo, estará longe de ser considerada feminina. O reflexo de uma cultura que recrimina a mulher que se distancia da feminilidade é a quantidade de procedimentos de beleza disponíveis no mercado, desde maquiagens até cirurgias para diminuir os lábios vaginais. Poderosas indústrias se erguem através de um movimento sistemático de primeiro abrir buracos na autoestima das mulheres, para depois oferecer-lhes produtos e serviços que supostamente lhes tampam.

    Amor

    Conhecemos o amor de várias maneiras: amor paterno, materno, fraterno, romântico. O que todos eles possuem em comum é a capacidade inesgotável de proporcionar carinho, afeto, suporte, companheirismo, cuidado, segurança, cumplicidade. Amar alguém é algo tão maravilhoso que nos juntamos para vivenciar isso, em grupos, em casais, em famílias. É um sentimento que nos liga, sem prender. Que cria raízes, não âncoras. Contudo, muitas vezes recebemos uma educação bastante desviada a respeito do amor.

    Quando somos pequenas e um garoto toma alguma atitude violenta, tal como puxar nosso cabelo ou dar um beliscão, somos encorajadas a acreditar que este pequeno delito é na realidade, uma demonstração de afeto. “Ele faz isso porque gosta de você”, nos dizem. Desde cedo, somos levadas a crer que devemos nos calar diante de atos que nos incomodam, agridem ou simplesmente não nos agradam, porque estes fazem parte daquilo que se chama amor. E por vezes, este amor não coincide de maneira alguma com o amor que recebemos, por exemplo, de nossos pais. O carinho, o abraço de uma mãe, que nos traz conforto e acalento e é até o momento o que conhecemos por amor, passa a ter que dividir espaço com o beliscão dado pelo garoto na escola, que dói e machuca. E isso não faz sentido algum.

    De forma complementar, aprendemos que determinados comportamentos fazem parte de uma suposta “natureza masculina”: homens não conseguem se controlar ao ver uma mulher atraente; são naturalmente propensos a infidelidade; são agressivos; agem por impulso por causa de seu “instinto animal”; entre outras mentiras. A função da ideia da “natureza masculina” é, por sua vez, legitimar todas as atitudes desrespeitosas, violentas e irracionais que um homem possa ter com mulheres. Assim, não resta opção para a mulher que não seja aceitar que seus relacionamentos com homens sejam permeados por esses comportamentos, porque “homem é assim mesmo”. A partir daí aceitamos o beliscão do garoto na escola, um namorado que “dá umas escapadas”, um tio que faz comentários inadequados sobre nosso peso. Também somos ensinadas a aceitar abusos e assédios, e até mesmo a absorver culpa por eles, fenômeno que integra o que conhecemos como cultura do estupro.

    Para além de aprendermos a associar violência com amor, nosso conceito de amor romântico está intimamente ligado à monogamia. Mulheres acreditam que devem ter o menor número de parceiros possível, já que ter vários é visto como algo que lhes desvaloriza (um conceito profundamente objetificante), e rapidamente buscar um com quem devem se casar. É sempre estimulado que busquemos um parceiro acima de qualquer coisa: de nossa realização profissional, de nosso desejo, de nossa satisfação sexual. A mulher pode até trabalhar e possuir uma profissão, mas sua realização ainda está presa ao casamento e à maternidade. A pressão existente para que uma mulher seja mãe é tamanha que é estudada como o conceito de maternidade compulsória.

    Não que o problema seja exclusivamente tratar o amor como algo que surge do tipo de união que historicamente trata a mulher como moeda de troca, mas toda a carga comportamental e subjetiva do ideal monogâmico segue preservada. Essa carga inclui ciúme, controle, chantagens emocionais, isolamento dos amigos; e todos esses comportamentos problemáticos são tratados com tanta naturalidade que se tornam piada.

    Imagem retirada de uma página do Facebook
    Imagem retirada de uma página de Facebook

    As relações abusivas

    O resultado do condicionamento diário de uma mulher para ser extremamente feminina e para aceitar esse ideal torpe de amor é uma pessoa que aceitará facilmente dinâmicas abusivas de relacionamento. Porque ela aprendeu a não discutir e não expressar sua opinião, ela será muito menos propensa a reclamar de atitudes alheias que lhe incomodam. Porque ela aprendeu que o amor às vezes é difícil e machuca, ela admitirá condutas tóxicas e abusivas da parte de seus parceiros. Porque ela aprendeu que “homens são assim mesmo”, ela aceitará uma relação péssima como seu destino.

    O agravante deste cenário é a caracterização da masculinidade como o exato oposto da feminilidade: o homem masculino é forte, agressivo, ambicioso, fala abertamente sobre suas opiniões e vontades, é encorajado a perseguir sua carreira acima de outros objetivos, não é emotivo nem sensível, não demonstra afeto abertamente. Além disso, enquanto mulheres são condicionadas a perseguir relacionamentos românticos, homens aprendem desde cedo a fugir deles. Também aprendem, logo quando são pequenos, que não devem expor suas emoções. O maior exemplo disso é ensinar a um garoto que ele não deve chorar. E a educação masculina só é feita dessa maneira porque chorar ou se emocionar de qualquer forma é um comportamento associado à feminilidade, que por sua vez é associada à fraqueza.

    A serventia do conceito da feminilidade é, apenas e tão somente, criar mulheres que agradam os homens. Uma mulher que foi ensinada a ser dócil e submissa, além de ter sua autoestima bombardeada diariamente, é muito menos propensa a vocalizar incômodos e necessidades para seu parceiro. Um homem criado para ser masculino é frequentemente um homem emocionalmente castrado, cujas habilidades para resolver conflitos e lidar com frustração, especialmente dentro de um relacionamento amoroso, são diminutas.

    Imagens retiradas do Facebook

    Ressignificando

    Enquanto não questionarmos os conceitos de masculinidade e feminilidade, vamos continuar amputando as capacidades emocionais e psicológicas de homens e mulheres. É natural que em nações mais equânimes*, os índices de violência de gênero** sejam menores. Na verdade, os aspectos culturais que moldam os estereótipos de gênero agem tão profundamente que, nessas nações, o número de mulheres vítimas de depressão também é muito menor¹. É urgente que esses conceitos sejam repensados e reformulados em países como o Brasil, onde uma mulher é agredida a cada 12 segundos.

    Não há nada de errado em se identificar com ideais estéticos de feminilidade, muito menos com desejar um casamento e filhos. Também não há nada de errado em não ser magra ou delicada, em não desejar um casamento e nem filhos. Contudo, é sempre importante perguntar por que sentimos necessidade de ter determinados atributos ou comportamentos. Será que sem as pressões sociais, ainda teríamos as mesmas vontades? Nós queremos o que queremos por desejo próprio ou porque fomos ensinados que este é o padrão correto?

    Homens precisam ser ensinados a desvincular sua autoimagem da masculinidade tóxica que aprendem. A autoconfiança masculina não pode estar conectada a uma ideia preguiçosa de natureza do homem, que bloqueia o desenvolvimento de compreensão, empatia e responsabilidade emocional. Não podemos censurar garotos por demonstrarem suas emoções, fazendo com que associem esse comportamento a algo negativo. Não podemos lhes negligenciar acolhimento e carinho quando se sentem machucados. A vivência humana é permeada de emoções; aprender a lidar com elas é parte fundamental de nosso crescimento. É necessário também trabalhar essas capacidades em homens mais velhos, para que possam se compreender e se relacionar melhor.

    Porém, mais ainda, precisamos ensinar mulheres a não aceitarem nada menos do que respeito, dignidade e amor, como ele deve ser: uma fonte de energia, de aprendizado, de satisfação e realização conjunta. Amor não é para doer. Ninguém deve se anular como indivíduo para que seu companheiro se sinta pleno.


    * Em que homens e mulheres são tratados de forma igualitária
    ** Feminicídio ou assédio, abuso sexual, estupro, violência doméstica e outros crimes cujas vítimas são em sua grande maioria mulheres.
    ¹ SOLOMON, Andrew. O demônio do meio dia — uma anatomia da depressão. 2001. Pp 170. É recomendada a leitura do capítulo Populações, para melhor compreender como estereótipos de gênero e sexismo afetam a saúde mental feminina.