• Conheça a história de Margaret Crane, a criadora do Teste de Gravidez

    Margaret Crane era uma designer freelance que trabalhava no departamento de publicidade de uma empresa farmacêutica. Havia sido escalada para desenhar a campanha de uma nova linha de cosméticos, mas tubos de vidro enfileirados com um refletor espelhado chamaram sua atenção: eram testes de gravidez laboratoriais, comuns nos anos 1960. Os resultados daqueles exames sairiam em semanas.

    Mesmo não tendo formação na área biológica, perguntou a um dos químicos sobre o processo do teste. Descobriu que um reagente, em contato com o hormônio da gestação, a gonadotrofina coriônica humana, produzia um círculo roxo na base da proveta. Este círculo era refletido pelo espelho, confirmando a gravidez. O processo era tão simples que assustou a jovem. Margaret percebeu imediatamente o quão prático seria se as mulheres pudessem realizar aquele simples teste em casa, intimamente, sendo as primeiras a saberem sobre sua própria gravidez. Em uma época em que os exames laboratoriais eram caros e totalmente expostos, além de demorados, a ideia de Margaret Crane era transformar um processo complexo em algo simples, barato e íntimo.

    As resistências, no entanto, vieram em avalanche. Iniciando por seus chefes, que não apoiaram a ideia e quase riram dela. Acreditavam que a invenção não seria confortável para a indústria farmacêutica, que lucrava com os testes em laboratórios. A sociedade conservadora também aboliu a ideia, associando a nova tecnologia a uma quebra da moral, incitando inclusive que o produto fosse vinculado ao aborto.

    Ao chegar em casa, convicta da ideia, Margaret viu numa caixinha de clips a inspiração de design para o protótipo do “Predictor”, primeiro teste de gravidez a ser realizado em casa. A caixa conteria o fundo espelhado, o reagente químico e um conta-gotas. Margaret Crane estava, naquele momento, colocando na mão das mulheres o poder de conhecimento e a libertação sobre si próprias e suas gestações.

    Descreditada nos Estados Unidos, só teve sua ideia aceita na sede da sua empresa que ficava na Holanda, onde registrou a patente do produto em 1969. Margaret Crane cedeu aos direitos do Predictor à empresa por apenas 1 dólar. Falta de visão comercial? Na verdade não. Em entrevista, Margaret deixa claro que sua preocupação foi em tornar o produto acessível às mulheres, e queria que sua ideia fosse adiante. A patente custava milhares de dólares, dinheiro que ela jamais poderia pagar na época, e os custos ficaram a cargo da empresa. Sua invenção não foi um barril lucrativo: foi uma libertação social. Em suas palavras, “o início de sua vida em diversos sentidos”.

    O protótipo de Crane foi leiloado em junho de 2015 ano por 12 mil dólares para o Museu Nacional de História Americana, na divisão de ciência e medicina. E hoje milhares de mulheres ao redor do mundo têm mais conhecimento e poder sobre sua saúde, seu corpo e sua vida, graças à Margaret Crane.

    Texto originalmente publicado por Helena Vitorino no site Lado M

  • “Amamentar não é um ato de amor”

    Foto: Pixabay

    A primeira vez que ouvi minha mãe pronunciar tal frase, estranhei.

    Eu havia ido buscá-la após uma entrevista para um programa da Rede Mulher e notei que ela estava aborrecida. Perguntei o que havia acontecido e ela disse:

    “Eles fizeram de tudo para que eu afirmasse que amamentar é um ato de amor. Mas eu nunca direi isso. Amamentar não é um ato de amor”.

    “Mãe, como assim?” Por um instante, achei que minha mãe estava virando casaca e negando o trabalho de toda uma vida.

    Minha mãe foi uma das grandes batalhadoras do aleitamento materno no Brasil e no mundo. Docente da Faculdade de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto, ela ajudou a formar núcleos de aleitamento por todo o país, colocou o assunto na pauta da formação de profissionais, escreveu livros, cartilhas e foi conselheira da OMS sobre o tema, para os países de língua latina.

    Eu cresci com mulheres batendo à nossa porta para “desempedrar” as mamas e aprender a dar de mamar. Com alunas que a procuravam para orientar teses de mestrado. Era peito e recém-nascido para todo lado. Aquela frase, dita assim de repente, me pegou totalmente de surpresa.

    “Amamentar é optar por dar o melhor alimento ao bebê. Não tem nada a ver com amar. Se fosse assim, poderíamos dizer que os pais amam menos seus filhos? Eles não amamentam. As mães adotivas também não. Ou as mulheres que fizeram plástica. Ou as mães que precisaram desmamar seus bebês para trabalhar…será que todos eles amam menos seus filhos porque não amamentam?”

    “Mas é o que a gente sempre escuta…que amamentar é dar amor”, argumentei.

    “Pois é…mas amamentar é dar alimento. O melhor alimento. O mais completo e o que melhor nutre o bebê. Já amar é outra coisa. As pessoas que confundem as duas coisas, sem querer, estão fazendo um desserviço ao aleitamento, pois as mães ficam mais ansiosas, culpadas e cheias de temores. Todos sabem que uma mãe tranquila amamenta melhor. E como uma mãe pode amamentar tranquila se ela acha que estará dando menos amor para seu bebê se fracassar? Olha o peso deste sentimento!

    Quanto mais desmistificarmos o aleitamento, melhor. As sociedades que amamentam melhor, são aquelas que o fazem naturalmente, como parte de uma rotina. O bebê está com fome, a mãe dá o peito. Simples assim. Quase mecânico. Ninguém pensa muito nisso.

    E as mulheres que por algum motivo não conseguem amamentar, precisam parar de sofrer. De sentir culpa. Existem muitas outras formas delas darem o suporte psicológico que o bebê precisa. É óbvio que o aleitamento é a melhor escolha, mas a partir do momento que esta escolha não pode ser feita, a mãe deve parar de sofrer.”

    Essa era a minha mãe. Cheia de ideias próprias. Cheia de amor. Uma batalhadora da maternidade sem culpa.

    Texto originalmente publicado por Thais Vinha, no blog Ombudsmãe

  • Vampiros emocionais


    Existem pessoas na vida que te usam como bengala, apoio emocional, cobertor pra carência. Até que um dia a bengala esteja gasta, o apoio quebrado e o cobertor esfiapado. Troca-se então por outro e assim sucessivamente.

    O que não passa pela cabeça dos que usam é o cuidado que se deve ter pelas coisas, o importante é somente tê-las e usá-las. Triste é ver um padrão de um usuário que vira escravo do próprio bem-estar, causado pelo mal-estar que proporcionou.

    O amor é algo lindo, mas que muitas vezes nos cega. Me relacionei com esse rapaz que sempre pulava de relacionamento em relacionamento, me contava que ninguém o entendia (nem os amigos), que os pais não davam a mínima pra ele, que preferia se isolar do convívio social. Criou um contexto onde seus problemas pessoais justificavam algumas de suas atitudes e desprendimentos. A primeira vez que saímos a conversa quase não teve fim, tínhamos inúmeros assuntos em comum, foi paixão à primeira vista. Na primeira semana que nos conhecemos me pediu em namoro.

    Com você é diferente.”

    E por acreditar naquela premissa de que o amor muda as pessoas, começamos um relacionamento que tinha lá seus altos e baixos, mas nada que não pudesse ser ignorado em nome do sentimento. Ele era difícil, mas ia melhorar, ia amadurecer, só precisava de tempo. Houve dias em que não cabia em felicidade, me sentia a mulher mais feliz do mundo, outros em que chorava escondida no banheiro que ficava ao lado do quarto dele. Ficamos juntos até o dia em que adoeci, até o dia em que não consegui sair de casa por semanas e tive que abandonar a faculdade por causa de uma crise depressiva, que desencadeou uma fobia social e me jogou no fundo do poço me fazendo descobrir que o buraco era mais profundo. Ele sumiu quando mais precisei, quando necessitei do apoio da pessoa que era meu melhor amigo, mas que nunca realmente foi. O abandono me fez sentir ser o ser mais imprestável desse mundo.

    Quem pode conviver com alguém feito eu? Ele realmente fez o certo em seguir com a vida, eu só iria ser um peso”.

    Não se passou pela minha cabeça o quanto a atitude dele tinha sido covarde e desleal. Não sabia que antes de mim ele já havia reproduzido isso com outras moças. Mas a cegueira ainda me impedia de fazer essas resoluções e de saber de todo o contexto. Para minha sorte ela não durou muito tempo. Na mesma semana do término ele já estava com uma moça e logo depois começou a namorar com outra. Um amigo de infância dele me confidenciou que não gostava dessa atitude, mas que era o jeito dele lidar com as coisas. O livre arbítrio está nas mãos dos jogadores, ganha quem tiver a melhor estratégia ou quem souber administrar melhor o que a vida nos dá. E por mais que eu quisesse entender o motivo que o levou a me virar as costas num dos maiores momentos de fragilidade da minha existência, algumas coisas acontecem pelo mais simples motivo do “sim, porque eu quis”. E coube a mim respirar fundo e me reerguer aos poucos. Faz parte do jogo.

    Tempos depois li um texto incrível da Débora Nisenbaum, que me deu um estalo e me ajudou a compreender ainda mais o quanto me submeti ao erro de acreditar que dando meu melhor poderia receber o mesmo em troca. Alguns fazem do amor apenas uma desculpa para enganar a solidão e a árdua tarefa de lidar consigo mesmo, transferem isso para a pessoa que se relacionam e esperam que ela os preencha de alguma forma.

    Acontece: amadurecemos e aprendemos que as relações vão muito além de uma conversa boa, de alguns dias bons. É compromisso, cuidado, respeito e companheirismo. É querer bem e compreender que as pessoas não são objetos descartáveis prontas para o uso até quando forem convenientes.

    Texto originalmente publicado por Celina na publicação digital Fale Com Elas

  • Mulheres no espaço urbano: como fazer cidades melhores para elas?

    Foto: Tatiane Melo

    Mulheres segregadas em vagões de metrôs exclusivos; locais coletivos que reprimem a necessária amamentação; dominação masculina nos espaços públicos. Uma sociedade excludente produzirá cidades excludentes. Quem nunca ouviu que “rua não é lugar de menina”? As conquistas do espaço das mulheres na nossa sociedade podem ser recentes, mas a necessidade de melhorar o modo como as cidades as acolhem é urgente.

    Se olharmos para uma realidade não muito distante, veremos que a figura feminina no âmbito público vincula-se a um julgamento negativo, enquanto a do homem, à honra. Em meados dos anos 50, Lucio Costa , urbanista responsável pelo projeto de Brasília, estabeleceu que seis andares era o ideal para os prédios residenciais, desta maneira, as mães poderiam chamar os filhos que brincavam para que subissem para o almoço. Por muito tempo, planejar a cidade para a mulher era garantir que o seu papel de dona-de-casa seria mais confortável. Muitos equipamentos públicos e privados sequer contavam com banheiro feminino, tamanho era o predomínio de homens no cotidiano da cidade.

    Mas os tempos mudaram: de acordo com o IBGE, mulheres compõem mais de 40% da força de trabalho no Brasil e possuem nível de escolaridade muitas vezes superior ao dos indivíduos do sexo masculino. Isso significa que elas se deslocam pela cidade tanto quanto os homens. No entanto, suas necessidades são muitas vezes desprezadas, a circulação acontece de maneira restrita e assim, a apropriação da cidade e a vivência do espaço público pelas mulheres são fragilizadas.

    Os problemas de infraestrutura, pobreza e violência que tanto atingem a qualidade de vida das pessoas nas nossas cidades, impactam fortemente as mulheres. Ainda que a melhoria da infraestrutura dos nossos espaços urbanos possibilite o aumento da qualidade de vida da população em geral, inclusive das mulheres, políticas que considerem as especificidades de gênero são necessárias.

    Então o que podemos fazer para que elas tenham suas necessidades atendidas, acesso pleno à cidade, seus serviços e equipamentos? Apresentamos aqui diretrizes de políticas públicas nas áreas de Habitação, Mobilidade Urbana e Espaços Públicos. Confira:

    Habitação

    © COURB Brasil 

    Foto: COURB Brasil/Mariana Morais

    A garantia do direito à titularidade e a localização dos respectivos lares são temas fundamentais no direito à moradia das mulheres. Por muito tempo, mulheres tiveram o seu direito à titularidade restrito e, em muitos países, ainda há costumes e até mesmo legislações que as impedem de serem proprietárias de imóveis, subjugadas por não gerarem riqueza.

    Programas habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida, consideram o forte vínculo materno na definição da propriedade. Além disso, programas que priorizam situações de vulnerabilidade e proteção contra a violência doméstica também são de extrema importância, já que muitas mulheres precisam aceitar as violências do seu agressor por temerem o desamparo.

    No que tange a localização desses lares, é necessário considerar que hoje, muito além de serem responsáveis pelo trabalho reprodutivo, vinculado ao âmbito privado dos lares, as mulheres participam do trabalho produtivo, aquele que gera renda. Portanto, a luta por medidas que auxiliem na promoção da acessibilidade a imóveis localizados próximos aos equipamentos públicos e de trabalho é essencial.

    Espaços Públicos

    © COURB Brasil 

    Foto: COURB Brasil/Mariana Morais

    O espaço público tem sido pensado por homens e para homens há muito tempo. Ao observarmos a exclusão das mulheres dos espaços coletivos, a segurança entra novamente como fator primordial. Esse fenômeno é bem conhecido nas ciências sociais ao ponto que o percentual de mulheres é usado como um indicador de segurança nos espaços públicos. Não porque a presença delas torna o lugar mais seguro, mas porque um local seguro é aquele capaz de atrair também o público feminino. Espaços públicos com iluminação e manutenção adequadas, localizados próximos a espaços com vida urbana vibrante e diversidade de usos, tendem a ser ocupados pela população como um todo e constituem um ambiente mais seguro para todos.

    Para que as mulheres se apropriem dos ambientes urbanos, elas precisam poder acessá-los. Sendo assim, o deslocamento delas não pode ser restrito pelo horário e meio de transporte em que utilizam.

    Outro ponto a ser considerado é a restrição ao lazer: campinhos de bairro, quadras e muitos espaços esportivos são frequentemente ocupados por homens, deixando o público feminino com menos alternativas de divertimento. É importante garantir diversidade de programações e atividades, a fim de incluir a todas as pessoas.

    Mobilidade

    © COURB Brasil 

    Foto: COURB Brasil/Mariana Morais

    Foi-se o tempo em que se permite ignorar as especificidades de gênero,  idade, condições econômicas e restrições de locomoção dos nossos cidadãos no planejamentos dos transportes. Possuímos em nossa sociedade diferentes padrões e necessidades de deslocamentos que precisam ser compreendidos e contemplados. Muitos estudos apontam que mulheres fazem mais viagens com períodos menores, fenômeno relacionado ao chamado trip chaining (uma só viagem, vários propósitos). Uma mobilidade mais flexível, com bilhetes de ônibus que permitam mais de uma viagem, por exemplo, facilita a vida de todos os usuários, mas em especial, a delas.

    Enquanto o respeito não impera no transporte público, algumas cidades como Brasília e Rio de Janeiro, reservam um vagão do metrô exclusivamente para mulheres, a fim de evitar o assédio. Mas é necessário alertar: a segregação das mulheres ou de qualquer outro grupo diante de uma problemática não é a solução.

    Políticas que promovam o bem-estar entre todos os usuários são essenciais. Um transporte público que possa cobrir a demanda com qualidade, com mais linhas e horários e campanhas educativas contra o assédio, são algumas das medidas urgentes para garantir a integridade das mulheres.

    A mobilidade ativa também deve ser considerada. Mulheres representam menos de 10% do total de ciclistas nas nossas cidades. A existência de ciclovias confortáveis e seguras aumenta a presença feminina nesses corredores de transporte. Além disso, campanhas que promovam o respeito, principalmente entre o público motorizado, que ainda é representado por uma maioria masculina, são fundamentais.

    Quando construímos ambientes urbanos a partir de perspectivas privilegiadas ao longo da história, violamos a ideia de cidades para todos. Os direitos e necessidades do público feminino devem ser contemplados no planejamento das nossas cidades, e para que isso ocorra,  a participação das mulheres em todas as etapas do processo deve ser ativa. A presença delas na política, governanças locais, associações de moradores e entre tomadores de decisão é fundamental para que suas vozes sejam ouvidas e suas necessidades representadas.

    O lugar das mulheres nas cidades, assim como de todas as pessoas, deve ser aquele que elas desejarem estar, como e na hora que quiserem. E a responsabilidade para que isso ocorra é de todos nós.

    Texto originalmente publicado por Mariana Morais e Bruno Avila no portal COURB – Instituto de Urbanismo Colaborativo

  • 6 ilustradoras ao redor do mundo para conhecer (e seguir)

    Por Lara Ximenes

    A arte é, além de uma forma de expressão, uma forma de questionar – ideias, padrões, formas. Quando essas artistas falam de temáticas feministas e intrínsecas ao dia a dia da mulher, conseguem tanto expressar seus sentimentos e ideais como questionar os que não concordam. Conheça os trabalhos inspiradores de seis mulheres ao redor do mundo que usam a ilustração como forma de empoderamento, além de representarem mulheres em todas as suas formas:

    1. Laura Athayde

    Laura é advogada e ilustradora. Seus desenhos retratam tanto situações cotidianas sobre machismo e empoderamento como divagam sobre relacionamentos e vivências amorosas/pessoais. Ela também compartilha retratos e figuras femininas em seu projeto Boobie Trap, no Instagram, Tumblr e Facebook.

    2. Mãe Solo

    “Diário de bordo de uma mãe inquieta”. É assim que a designer e ilustradora Thaiz Leão define o projeto Mãe Solo, que começou quando encarou sozinha a gravidez de seu filho Vicente em 2014. Nesta época, Thaiz percebeu como várias coisas que aprendemos sobre maternidade estão erradas e que a realidade é bem diferente da maternidade dos comerciais de margarina. As tirinhas bem humoradas e realistas estão no Facebook do projeto, que esse ano ganhou livro lançado com fundos arrecadados via financiamento coletivo.

    3. Cécile Dormeau

    A ilustradora francesa Cécile Dormeau desenha personagens femininas respeitando a diversidade dos corpos de forma divertida. Apesar de nem sempre falar sobre a temática feminista, suas personagens têm estilos e personalidades únicos e realistas, criando representatividade e facilitando a identificação com o que a imagem quer passar.

    4. Ianah

    Além de ilustrar, Ianah tatua e faz graffiti. Áreas predominantemente masculinas, e ocupá-las já é uma atitude 100% feminista. Mas o mais legal é que além disso ela retrata personagens femininas de múltiplas formas, com muita criatividade e representando principalmente os traços de mulheres negras na sua arte.

    5. Frances Cannon

    Canadense, Frances tem uma arte mais conceitual, experimentando cores e texturas diferenciadas sobre o corpo da mulher. Suas ilustrações são inspiradoras e retratam principalmente as suas próprias sensações e sentimentos como artista e mulher.

    6. Negahamburger

    Uma das primeiras a circular com artes feministas pela internet, Evelyn fala sobre aceitação, amor próprio e sororidade sob o nome artístico de Negahamburger. Sempre retratando mulheres que fogem dos padrões da beleza feminina, sua arte equilibra delicadeza e força com seu traço único que levanta bandeiras de empoderamento. Ela também tatua e faz fanzine, lambe lambe e graffiti.

  • Viajar também é resistir

    Foto: Pixabay

    Naquele setembro de 2015, quando decidimos fazer uma aventura e uma correria louca pelas estradas da Argentina, da Bolívia, do Peru e do Chile, nossas preocupações limitavam-se ao breve tempo que tínhamos para conhecer diversos sonhos e percorrer muitos quilômetros. Foram vinte dias, saindo de Buenos Aires para retornar por Buenos Aires, desenhando um torto quadrado que passasse por Córboda, Salta, o Salar de Uyuni, La Paz, Copacabana, Cuzco, Machu Picchu, Arequipa, Arica, o Atacama, Santiago e Mendoza. Os ônibus noturnos preenchiam metade das nossas hospedagens. A única forma de dar conta do projeto. Prático, mais barato, mais proveitoso, simples e aventuroso, como deve ser.

    Éramos 3 moças, permeando o meio da sua segunda década, duas fazendo 26 anos em plena viagem. Professoras, estudantes e muita energia para realizar a empreitada nas férias de verão. Pagando nossas contas, recebendo apoio dos amigos e familiares em diversos graus, nada era um obstáculo para iniciarmos. Nada realmente foi. Porque não deixamos espaço para tal.

    Pois não faltou gente questionando se era tudo bem irmos “sozinhas”. Ao menos da minha parte, ninguém quis ser ofensivo com isso, estava apenas preocupado. Entre sondagens do quanto pensei a respeito da viagem e perguntas sobre segurança, meus familiares foram muito insistentes, nutridos de afeto, em saber se seria seguro. Um pouco cansada, lembro de em certa medida responder “Não posso dizer que será 100% seguro,  100% seguro não existe, nem para atravessar a rua”. Mas, em momentos de maior franqueza por essas perguntas, a verdade vinha à tona: seguro para ninguém é, mas para três jovens mulheres é menos seguro. “Oh, ao menos são três, é melhor que duas, melhor que uma”.

    Oh, sim, é melhor. É melhor para qualquer um em termos de segurança. Mas alguém não pode deixar de dizer “se fosse homem, tudo bem, mas menina é complicado.”. É verdade que para “menina” é mais complicado, mas este drama não estava nos nossos planos como obstáculo – embora não deixasse de merecer cuidados.

    Não é possível ignorar a realidade. A violência contra a mulher está aí e cego é aquele que negar. Se isto não existisse, teria pego a minha mochila e ido para Machu Picchu alguns anos antes. Teria viajado muito mais, porque sou o tipo de pessoa que não se importa tanto de fazer as coisas sozinha. No entanto, ir muito longe me trazia insegurança enquanto mulher. E está aí um obstáculo que eu não me sentira muito confiante em ultrapassar sozinha até então, não na América Latina, não em qualquer país onde a explícita misoginia ainda vibra quase como um pilar da sua cultura (nem conto o machismo porque este está em praticamente todos os países vibrando como pilar da cultura). Mas eu sempre soube que bastava uma companhia para o ultrapassar. Porque não era sobre eu poder ou não, era sobre não me precaver. E foi fluido e natural realizar esse movimento acompanhada.

    Estarmos em três foi um argumento que eu usei muito a quem perguntava sobre segurança. Mostrar que tínhamos toda a rota e método planejado também. Falar das listas de itens na mochila, das técnicas para manter as roupas organizadas, da nécessaire de remédios, dos lencinhos umedecidos para os perrengues nos entre dias de ônibus, da bota comprada para as longas caminhadas. Dos blogs de outros mochileiros, das dicas sobre as cidades dos viajantes, das análises sobre cultura, dos posts de mulheres falando que estar em grupo ajuda a manter “inconveniências” à distância. Tudo isso foi entrando como uma viagem consistentemente pensada.

    Preparadas, pensadas, prontas. Viajarmos não era e nunca foi um problema, as precauções estavam tomadas e o que poderia ser um obstáculo – as possíveis caraminholas de medo por sermos mulheres embutido nas perguntas alheias – , não entrou na mente. O preparo e a união eram os nossos escudos. E para mim, aquilo deveria bastar para qualquer pessoa.

    Em verdade, se não há mulheres viajando sozinhas, como poderiam as mulheres viajar sozinhas? Que mudança se prende ao tempo e a tradição? Que mudança pode ocorrer sem que ninguém esteja mostrando que ela é possível?

    Às vezes é muito simples. Eu não cheguei tão longe na época, eu via com naturalidade a “permissão” (o direito) para viajar entre mulheres, independente do que a sociedade pensa. A gente não pode ignorar os riscos a mais, mas eles precisam ser corridos, ou ficamos aprisionadas pelas amarras do passado, de juízos nada empáticos e de impulsos criminosos (embora não o sejam para todos). É possível se prevenir e reduzir, mas não dá para esperar que as coisas se resolvam sozinhas. No fim, a realidade do que vai acontecer no futuro é dada para nós como se fossem um jogo de dados (embora a gente possa definir se vão ter 6 números ou 20).

    Por uma boa dose de sorte e outra de prevenção, nós tivemos uma única situação de arrepiar-nos a espinha e nos manter aceleradas por boas horas em razão de sermos mulheres. Após atravessar a ponte que liga a Argentina à Bolívia, chegamos em Villazon quase à meia-noite, sem bolívares, e sem os turistas que contávamos que fariam a peregrinação conosco. Foi uma cagada imensa, mas contávamos que a rodoviária estaria aberta. Não estava. E rodamos seus arredores por boas horas, em busca de um lugar para descansar que fosse salubre. Em um dado momento, sentadas na praça tentando pensar no que faríamos, um senhor de idade boliviano, andando aos tropeços, aproximou-se de nós e disse algumas vezes, vendo que tivemos dificuldade de entender,  para tomarmos cuidado pois éramos “chicas” e tinha “gente mala” no lugar que ele estava apontando, na rua à nossa frente, o único lugar que tinha movimento àquela hora.

    Ainda era o início da madrugada, então aquela insinuação de perigo maior do que o que já prevíamos deixou todas nós mais tensas, e nos empurrou para decidir não permanecer muito mais tempo na rua, independente da salubridade (quem já foi a Bolívia pode ter uma noção do que quero dizer com isso, mas só indo a Villazón e seu centrinho para entender de imediato.. Você só vai querer fazer isso se for a Uyuni depois de passar pela Argentina de ônibus, porque no mais é um lugar perfeito para se esconder do mundo). A experiência até decidirmos o que fazer é uma história à parte, mas no final das contas nada demais aconteceu conosco e chegamos a ser convidadas por bolivianos cabeludos para virar a noite num show de rock que estava rolando ali perto. E o som até que estava bacana. Mas não ficamos lá, pois precisávamos descansar (embora a sonzera rolasse solta no quartinho do hotel ao lado que ficamos. Estava bom, viu?).

    Poderia ter acontecido muitas coisas naquele lugar, mas não aconteceu. Poderia não ter sido um senhorzinho gentil a nos abordar. Poderíamos não ter sido acolhidas simpaticamente pela turma do rock. Poderíamos ter surpresas nas ruas escuras que percorremos. Mas nada foi assim. Dos “e se….” nada se extrai. Apenas temor, apenas gasto de energia. Olhares, insinuações, a isso estamos acostumadas todos os dias. Melhor que não tivesse, mas, tendo, vivemos e resistimos. Falamos muito disso ao longo da viagem, especialmente na reta final, quando nos demos conta da sorte que tivéramos e questionamos o fato de chamarmos isso de “sorte”. Não deveria ser sorte não ter acontecido nenhum assédio sério. Deveria ser normal.

    Era uma viagem com riscos, ok. No entanto era, principalmente, e sempre foi assim para nós, uma viagem de maravilhas. Mesmo que nossas passagens tenham sido breves pelas cidades, elas foram intensas. Os vinte dias pareceram meses. A América do Sul guarda presentes da natureza e da cultura latina que devem ser vistos e desfrutados por todos nós. Do tango em Puerto Madero de Buenos Aires ao imenso azul e branco ilusionista do Salar de Uyuni, das vibrações de paz do lago Titicaca no ano novo de Copacabana a simetria monumental e inteligência hipnótica de Machu Pichu, das pinturas divinas do Atacama a simpatia do povo de Mendonza.

    Era para isso que fomos viajar. É para isso que eu penso que se viaja. Era para esse encontro com as belezas, com a diversidade, com novas culturas, com nós mesmas diante do que nos é apresentado e do que pensamos ao viver essas experiências.

    Dali, senti-me segura na disposição para ir a longas distâncias sozinha. E a próxima viagem já está sendo planejada, porque encontrei nesse rolê pela América do Sul o segredo para não deixar o temor se tornar obstáculo: planejar e tentar.

    Texto originalmente publicado por Julia Antoun no site Mulheres Viajantes

  • UMA: A voz das mães e crianças que precisam ser ouvidas

    (Foto: Joelson Souza)
    Por Lara Ximenes

    De um grupo de apoio no Whatsapp com 8 mães de crianças com microcefalia no Recife, em Pernambuco, surgiu a UMA – União de Mães de Anjos, que hoje é formalizada com estatuto e sede, lutando pela vida e reabilitação de crianças com síndrome congênita do zika vírus. O grupo foi criado pela hoje presidenta da UMA, Germana Soares.

    Jaqueline Vieira é uma das mães que faz a UMA acontecer. Mãe de Daniel, de 1 ano e 9 meses, ela é secretária do grupo e esteve na Assembleia Legislativa do Estado na última quinta-feira (27) junto com as outras mães da UMA para pedir, em uma passeata, melhores condições para essas crianças, como ampliação do número de vagas na rede de atendimento de saúde pública local e maior participação da União de Mães nas discussões da Secretaria de Saúde.

    Nos últimos 15 dias,  três crianças com a síndrome congênita do zika vírus foram a óbito. A fatalidade foi ocasionada pela falta de um tratamento de reabilitação multidisciplinar e medicamentos caros que não são cedidos pelo SUS. “O que a gente cobra das autoridades como grupo é uma assistência de qualidade, multidisciplinar, ou seja, com fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional. Não adianta a criança só fazer fono e não fazer fisioterapia. Não adianta fazer só fisioterapia e não fazer terapia ocupacional (T.O.). Tem que ser esse conjunto de reabilitação multidisciplinar. A criança tem que passar por físio, fono e T.O. no mínimo duas vezes por semana. E esse tratamento tem que ser adequado e com qualidade para as crianças”, diz Jaqueline.

    (Foto: Joelson Souza)

    Daniel, por exemplo, não faz fono, nem fisio, nem T.O. Ele se alimentava bem pela boca e, segundo Jaqueline, comia bem. Mas por não fazer nenhum tratamento, ele perdeu o que ainda iria começar a aprender: a deglutição. “A comida acabava indo para o pulmão, e ele estava tendo bronquiaspiração (aspirando a comida), o que resultou numa pneumonia onde ele passou 30 dias internado e saiu do internamento com uma GTT (gastrostomia). Hoje ele não come mais pela boca e sim por uma sonda na barriga. O que levou essas crianças a óbito foi esse conjunto de coisas: não faziam fono, perderam a deglutição que ainda nem tinham aprendido, tiveram infecções como pneumonia e bronquite devido à alimentação pela boca ter sido aspirada para o pulmão e, por fim, pegaram infecções generalizadas nos hospitais devido ao longo tempo de internação”, explica a secretária. Ela também disse que ontem, sexta, outra criança faleceu em Belo Jardim pelo mesmo motivo.

    Se o governo do Estado, há dois anos, aparecia preocupado na mídia com as questões relacionadas à síndrome congênita do vírus da zika, hoje não parece estar ciente dos problemas que essas crianças estão enfrentando para (tentar) crescer. “O apoio que a gente tá recebendo é nenhum. No começo, eles faziam reuniões com a gente, mas do nada deixaram de fazer. Queremos andar lado a lado com o governo porque ninguém melhor do que a gente, mães, para dizer quais são as demandas das crianças com a síndrome, para dizermos o que está acontecendo”, desabafou Jaqueline.

    A carta

    Na passeata, a UMA entregou uma carta aberta à deputada estadual Terezinha Nunes, do PSDB, coordenadora da Frente Parlamentar da Criança com Deficiência. “A gente tem esperança que, com isso, as coisas possam mudar. Queremos colher bons frutos da nossa luta”, acredita a mãe de Daniel. A carta pode ser lida na íntegra abaixo:

    Em seu Instagram, Terezinha Nunes publicou que o documento com as reinvindicações já foi entregue à Secretaria de Saúde. “Faremos reunião na próxima semana profunda e ampliada da Frente (Parlamentar da Criança com Deficiência) para discutir todas as pendências”, afirma Terezinha:

    Como os leitores do OF podem ajudar a UMA:

    O maior foco da UMA no momento é montar um centro de reabilitação na sede, que fica no Barro. A ideia é oferecer os serviços multidisciplinares (fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia) e tratamento médico. “A gente quer estruturar essa sede para ela vir a ser um centro de reabilitação. Para isso, precisamos de um alvará da prefeitura. E para ter esse alvará é preciso adaptá-la totalmente, com uma estação elevatória, um corrimão… precisamos que seja acessível porque tem criança que já nasce andando de cadeira de rodas”, lembra Jaqueline.

    Quem puder ajudar nesse processo de estruturação, pode procurar a sede da UMA, que fica na Rua André Dias Figueiredo, 152, no bairro do Barro. Lá elas também recebem doações de fraldas e leite. “Apesar de aceitarmos doações, nosso foco hoje é por políticas públicas e a criação do centro de reabilitação”, acrescenta Jaqueline.

    Jaqueline e Daniel: “A UMA representa minha família, minha segunda casa. É onde recebo apoio, ajuda, aquele abraço. Quando nossos próprios familiares não nos ajudam, entre as mães encontramos esse apoio pois estamos todas no mesmo barco” (Foto: Joelson Souza)
  • Desabafo sobre negligência hospitalar viraliza no Facebook

    Créditos: Pablo Assis/Facebook

    O empresário Pablo Assis compartilhou, no Facebook, momentos de sufoco que passou com sua esposa, Amanda Assis, num hospital particular do Rio de Janeiro. Na manhã do dia 30 de junho, Amanda começou a sentir dores fortes e foi levada pelo marido ao hospital Copa ‘Dor.

    Após uma tomografia, o diagnóstico foi dado: era apendicite. “Apendicite é, na imensa maioria das vezes, um caso meio óbvio pra medicina. Remove-se o apêndice via cirurgia e pronto. Mas foi aí que nosso drama começou”, afirmou Pablo.

    O problema é que o hospital não queria autorizar a cirurgia de Amanda, que tinha seguro de saúde e agonizava de dor. Ao contactar o plano de saúde da esposa, que é americana, Pablo ouviu que o hospital estava se negando a aceitar o procedimento padrão do plano.

    “Às 18h chega no leito um senhor da administração do hospital dizendo que infelizmente o hospital não aceitaria o seguro, e que nós precisaríamos pagar a cirurgia e depois correr atrás do reembolso. Em bom português: um paciente com dores excruciantes precisaria pensar no desembolso instantâneo de R$50.000+ porque o Copa`Dor não aceitava “a política” da nossa seguradora”, conta o empresário no texto.

    A situação só foi revertida porque, ao contactar uma amiga, Pablo foi apresentado à ONG “Movimento Chega De Descaso”, que busca representar os interesses individuais e coletivos na garantia do direito essencial à saúde, seja no público ou privado, impedindo que instituições se aproveitem da vulnerabilidade dos doentes. Sabendo que o seguro de Amanda havia enviado ao hospital uma carta dizendo que cobriria a paciente até 2 milhões de dólares caso fosse devido, Davi Monteiro, do MCD, orientou Pablo a dizer as “palavras mágicas”: “Diga ao hospital que você quer um LAUDO CONCLUSIVO do diagnóstico e que vai a juízo buscar uma LIMINAR para exigir a operação. BOOM! Em 15 minutos a supervisora geral e o diretor financeiro do hospital estavam na sala e a partir daí tudo fluiu. Cirurgia autorizada e bola pra frente”, relata Pablo.

    Amanda já se recupera bem e rápido da cirurgia, mas Pablo deixou o seu texto como um alerta pra que mais pessoas saibam seus direitos e também para divulgar o trabalho do MCD, que conta com colaborações e pode ser contactado em seu site. O texto de Pablo pode ser lido na íntegra aqui.

  • Grata pelos nãos

    Créditos: Freepik

    Discurso de agradecimento: Oscar, Emmy, Jabuti, Nobel, tanto faz. Já iria preparada, lógico, papelzinho na mão pra não esquecer de ninguém. A estatueta meio trêmula numa mão, enquanto começaria a lista.

    Obrigada a você que me disse não.

    Você, meu primeiro crushzinho de colégio, que me disse não e me libertou de escrever seu nome dentro de coraçõezinhos em folhas de caderno e nas paredes da escola. Era um nome grande, chato de escrever, e a fila precisava andar.

    A você, que recebeu meu currículo numa concessionária, num escritório, numa loja de shopping e em tantos outros lugares e me recusou uma vaga porque eu era inexperiente demais, jovem demais, embora cheia de energia porque desesperada para ganhar algum dinheiro. Se não fosse você me negando essa oportunidade, eu não teria criado o sangue nos olhos e o tempo livre para insistir na busca e entrar em empregos que tinham muito mais a ver comigo e me pagavam melhor.

    Obrigada a você que me negou espaço pra crescer na sua empresa. Assim pude sair em busca de lugares com tetos mais altos, e, por que não, onde o limite ia além das nuvens.

    A você que me subestimou, que achou que eu não ia a lugar algum porque “olha de onde ela VEIO, olha do que ela é FEITA”. Nada como um “você não pode, você não consegue” para me dar aquela vontade de realmente conseguir.

    Obrigada a você que disse não à minha amizade. Assim me livrou de perder tempo com quem claramente não gosta de mim e me fez valorizar ainda mais as pessoas que tenho ao meu lado.

    Obrigada a você que me fechou portas. A você que torceu contra. A você que virou as costas. A você que me barrou e me expulsou. A você que disse que o que eu fazia não tinha valor.

    Feito Arya Stark, minha lista prosseguiria com o nome daqueles que me disseram não. Fácil lembrar, não por revanchismo, mas pela mais genuína gratidão.

    Os nãos foram importantíssimos na minha jornada: me ajudaram a amadurecer, ao perceber que o mundo não está ao dispor das minhas vontades; me fizeram criativa, para buscar soluções onde não parece haver saída; me tornaram resistente, para seguir mesmo depois de bater a testa numa parede. Paredes, às vezes, estão ali para margear o caminho, não para sinalizar que ele acabou.

    Os nãos que encontrei não me derrubaram. Afinal, já diria o poeta Mano Brown: “tô firmão, eis-me aqui”. Os nãos fizeram parte da sequência de eventos que me conduziram até esse momento, na exata medida de como as coisas deveriam ser.

    Mesmo na minha fantasia mais megalomaníaca, no entanto, eu não teria tempo o suficiente para agradecer a todos os que me ofereceram buquês de nãos.

    Acabaria lendo a lista mais curta, obrigada aos que me deram força, acreditem nos seus sonhos, etc, etc. Derramaria uma lágrima, solitária, no olho esquerdo. Thank you, thank you! Meu vestido um arraso. Palmas. Sou grata pelo não sobretudo quando aprendi a dizê-lo.

    Não estou a fim de sair hoje, foi mal. Não estou disponível. Não vou poder fazer isso. Não quero. Não curto. Não me chame assim. Não me interrompa, não terminei de falar. Não sou obrigada. Não sei. Não.

    O não protege meu tempo, o não me lembra quais são minhas prioridades, o não impede que pisem em mim.

    Quando estava sendo alfabetizada, aprendi a escrever “não” antes do “sim”. Gostava do til. Uma palavra que equilibrava uma minhoquinha sobre a cabeça, claro que me interessei mais. Pena que demorei tantos anos para aprender a usar a palavra.

    Sabe como é, mulher que diz “não” não é de bom tom.

    Pra esses, tive que aprender outra palavra: foda-se.

    Texto Originalmente publicado pela escritora Aline Valek na newsletter Uma Newstletter #8.

  • ⁠⁠⁠A quem servem as leis?

    Foto: Freepik

    Na última semana, um comerciante da cidade de Olinda, na Região Metropolitana do Recife, foi autuado em flagrante por ato obsceno e assédio sexual depois de descoberto gravando vídeos das funcionárias e clientes no banheiro da sua loja de produtos de emagrecimento. Sandro Silva Leal colava seu celular com fitas dupla face no banheiro e o escondia com 36 caixas, deixando apenas o espaço da câmera. Os vídeos e fotos foram encontrados no computador dele pela polícia, além de conversas em que ele assediava as funcionárias mandando links de vídeos pornô e outros detalhes escabrosos que não quero me ater nesse texto (saiba mais aqui).

    A questão que quero abordar diz respeito à condenação deste criminoso. Lendo a matéria, eu (e aposto que você também) imagina que ele foi preso, certo? Na verdade, não: Sandro foi liberado da delegacia após pagar uma fiança de $5 mil. Ao ser questionado pela imprensa e pelas vítimas que se revoltaram diante disso, o delegado Gilmar Rodrigues afirmou que é preciso separar o legal do justo.

    “O justo era ele ficar preso, porque o crime é repugnante, mas eu preciso fazer o que manda a lei, que, infelizmente, é muito branda”, relatou ao portal NE10. Essa declaração me lembrou uma frase de John Godfrey Saxe, que dizia que as leis, assim como as salsichas, deixarão de inspirar respeito na proporção em que soubermos como elas são feitas. Será por acaso que a lei é “muito branda”, como disse o delegado? Quem está por trás delas e a quem elas servem?

    Até 2005, no Brasil, havia uma lei que permitia que o estuprador casasse com a vítima para não responder pelo seu crime. Essa e outras leis do século passado “contra” estupro eram fundamentadas em ideais patriarcais onde não se protegia a vítima, e sim a “honra” da família, do pai ou marido dela. A mulher era vista como propriedade e objeto que não podia manchar essa dita honra. A lei claramente era – e é – feita por e para homens.

    Uma vez que a justiça demorou tanto tempo para enxergar essa lei como absurda, não é à toa que a violência contra a mulher segue com estatísticas alarmantes no país. De acordo com a ONU, a taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo. Em Pernambuco, onde aconteceu o caso citado acima, 33 mulheres foram vítimas de mortes violentas só no mês de janeiro deste ano, segundo a pesquisa Visível e Invisível: vitimização de mulheres no Brasil. Quando o assunto é violência doméstica, o Estado registrou, no mesmo mês, 2.743 denúncias. Imagine quantas não tiveram a coragem de denunciar?

    Para a sociedade mudar, as leis precisam mudar junto com elas. Como as vítimas vão se sentir seguras para denunciar se não sentem que são atingidas pela justiça? Se sentem que elas vão mito mais proteger o agressor do que a elas? Para cada vítima que denuncia, existem várias pessoas relativizando a veracidade da denúncia, sem sequer levar em consideração que ela mesma relativizou essa violência dentro de si. É muito difícil aceitar que você sofreu uma violência e vir à público declará-la leva ainda mais tempo. Sem acolhimento legal, essas violências seguirão silenciadas junto com as mulheres que as carregam.

    Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

  • Uma reflexão feminista sobre o Dia do Amigo

    Foto: Atlanta Black Star

    Digitando “amizade feminina” no Google, os primeiros resultados que você vai encontrar são piadas relativizando a amizade entre mulheres. Piadas essas que todo mundo já ouviu, que estereotipam a relação entre mulheres como falsa, fingida e superficial, enquanto a amizade entre os homens é verdadeira, sem frescura, na brodagem. A propagação desse estigma de amizade superficial é muitas vezes inconsciente, mas se jogarmos luz, é um dos muitos discursos que o patriarcado usa para nos enfraquecer e nos manter desunidas.

    Dizer que a amizade entre mulheres é falsa estimula a rivalidade feminina e faz com que elas não conversem entre si, não confiem uma na outra – logo, não dividam nem compartilham angústias e dores que só elas conhecem, muitas dessas por conta do machismo.

    O exemplo mais prático disso é quando, num relacionamento abusivo, o abusador faz de tudo para que a vítima se isole das amigas – pois elas são quem, na maioria das vezes, percebe que algo está errado e tenta proteger a vítima. Afastando-a das amigas, fica mais fácil para o abusador afirmar que ninguém além dele a ama, que ela não tem valor, que ela precisa dele.

    A verdade é que o patriarcado sabe que, unidas, as mulheres podem muito. A sororidade (ou seja, irmandade e coletividade feminina) nos leva a lutar umas pelas outras, nos defender do machismo e fortalecer uma rede colaborativa de apoio tanto pessoal como profissional.

    Por trás dessa falsa ideia de que a amizade feminina é fútil, existe outro artifício muito comum, que é o mito da menina legal demais para ser amiga de outras mulheres. A menina que gosta de futebol, rock e coisas ditas “masculinas”, enquanto as outras são fúteis, curtem maquiagem e “coisas de mulherzinha”. Essa moça geralmente é mais aceita por grupos de homens que afirmam a ver como “um cara” da turma, e essa aceitação muitas vezes representa algo positivo para a autoestima de meninas e adolescentes.

    “Parabéns, você é como as outras”. Além de estimular a rivalidade feminina, frases como essas fazem parecer que essa menina está blindada contra o machismo por conta de seus gostos, quando na verdade está tão sujeita a violências quanto as “mulherzinhas” – inclusive sujeitas a sofrer machismo nos próprios grupos que teoricamente as aceitam. Quantas vezes mulheres não são questionadas por homens sobre seus gostos, normalmente relativizados por simplesmente serem… mulheres? “Ah, se você gosta de futebol, diga aí o que é um impedimento. Quais os jogadores do time tal? Ah, você gosta de videogame? Quantos jogos já zerou?”

    Esse raciocínio leva muitas mulheres a acreditarem que não podem ser amigas de outras mulheres que tenham gostos diferentes – como se esportes, games, rock’n’roll e tantas outras áreas como ciências e tecnologia fossem exclusividade dos homens.

    Dito isso, aproveite este dia do amigo e não deixe de abraçar uma amiga irmã. Se não pode, mande mensagem, ligue, se faça presente. Acredite, a nossa união faz toda a diferença e pode nos defender das atrocidades do mundo.

    Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

  • Especial cultura vegana: empreendedorismo, consumo e ideologia – Parte II

    Por Lara Ximenes

    Esta é a segunda parte do especial sobre cultura vegana do OF. Para uma melhor compreensão, certifique-se de ler a primeira parte do especial clicando AQUI.

    Não é só soja e verdura

    Você sabia que é possível substituir as claras de ovos pela água de cozimento do grão de bico? É a aquafaba, uma das substituições e sabores descobertos pelos veganos. Este é apenas um exemplo de substituição realizada pelas pessoas que seguem esse estilo de vida. Existe também o leite condensado sem leite, que consiste em água fervendo + aveia + açúcar cristal. Estas substituições derrubam o mito de que o vegano só come mato e, principalmente, que ele não experimenta sabores diferentes.

    “Quando a gente começa a experimentar novos sabores, podemos ir adaptando nosso paladar. Minha dica para quem quer ser vegetariano ou vegano é ir adicionando mais alimentos de origem vegetal no prato. A ideia é não retirar todos os alimentos de uma vez. Primeiro retira a carne vermelha, depois a branca, depois os frutos do mar. Assim podemos acrescentar novos alimentos ao longo da vida, nos desvencilhando do vínculo social com a carne animal”, é o que sugere Nana Barros, nutricionista e pós-graduanda em nutrição vegetariana pela Faculdade Santa Helena. Ela atende no Recife, em consultas domiciliares ou em consultório.

    “É preciso saber que o veganismo é um estilo de vida que busca não causar ou minimizar ao máximo o sofrimento animal, por isso o vegano não se alimenta de animais nem de produtos de origem animal, bem como não utiliza nenhum produto que possa ter causado sofrimento a estes, como couro, seda e lã”, explica Nana, que também é membro da SVB no Recife.

    Para a nutricionista, o vegetarianismo não é um estilo de vida novo, mas é pouco difundido até mesmo na comunidade médica. “As pessoas encontram muitas dificuldades nos consultórios médicos e de nutricionistas principalmente por conta da influência da indústria farmacêutica. Existe uma falta de interesse em ensinar nas faculdades de medicina que boas fontes vegetais de cálcio e ferro podem te munir contra uma anemia e uma deficiência óssea, por exemplo”, conta.

    Nicoly (esquerda) já foi paciente de Nana (direita) (Foto: Blog Minha Janela)

    Outro mito ainda perpetuado pelo senso comum é que a dieta vegana não contém os nutrientes necessários. Segundo Nana, este mito é consequência da falta de informação. “Na minha opinião como profissional de saúde, qualquer um que escolher pode ser vegano. Já é consenso entre as associações de saúde mundiais como a Organização Mundial de Saúde (OMS) que a dieta vegana estrita é saudável e adequada para todas as fases da vida”, diz a nutricionista. De acordo com o site da SVB, a exceção é apenas no que diz respeito a vitamina B12, pois alguns vegetarianos e veganos podem precisar de suplementação, principalmente gestantes, lactantes e crianças.

    A dieta vegana pode e deve suprir a necessidade de B12, mas não é tão fácil, pois ela se encontra em larga escala nos alimentos de origem animal. Essa suplementação deve acontecer com acompanhamento médico e baseada nos exames de sangue, dependendo de fatores como a forma que o organismo daquela pessoa absorve a vitamina B12.

    Do site da SVB:

    “Devemos lembrar que leite, queijos e ovos são de origem animal e contém essa vitamina. A maioria dos vegetarianos utiliza esses alimentos. Se o uso deles for regular (diário) e atingir as necessidades diárias, não é necessário utilizar suplementos”.

    Veganismo: uma questão feminista?

    Em setembro de 2013, Luana foi ao Congresso Vegetariano Brasileiro e assistiu uma palestra sobre Feminismo e Vegetarianismo. “Decidi a partir daquele ponto que não fazia mais sentido para mim não ser vegana. Caiu a ficha de que a indústria de carne, ovos e laticínios só se perpetua pela exploração do corpo feminino dos animais. Não é só a coisa da reprodução pela carne, é forçar uma vaca a ser emprenhada todo ano e o leite, que originalmente é do bezerro, ser tomado de uma forma bruta e brusca por humanos”, diz Luana, que acredita não ser por acaso que virou doula (assistente e acompanhante da mulher no parto humanizado) na mesma época em que virou vegana.

    “A política sexual da carne”, de Carol J. Abrams (Foto: Editora Alaúde)

    “Como desejo ser mãe, não quero ser cúmplice de uma indústria que considero cruel e escabrosa com outras fêmeas, mães de outra espécie”, diz. Mesmo assim, ela não acha que toda vegana deva ser feminista e toda feminista deva ser vegana. “Isso é o que eu acredito. Não acho que uma feminista que não seja vegana deixe de ser completa na sua vida. Ela está sendo completa no que ela acredita. Se ela acredita no veganismo, massa, se não acredita, não sou eu que vou dizer como ela deve viver sua luta”, diz.

    Já a nutricionista Nana, por outro lado, acredita que é contraditório uma mulher ser feminista e não ser vegana. “Antes de ser vegana eu já era feminista, mas nunca tinha atentado para o fato de que sou um animal fêmea do mesmo jeito que a vaca também é. Quando você se torna vegano, você se coloca no seu lugar no universo. Tem a concepção de que você é um ser entre todos os outros, e não superior. No feminismo exigimos o mesmo direito que os homens têm e. eu. pessoalmente. quero que as minhas irmãs vacas e galinhas tenham os mesmos direitos reprodutivos que eu”, afirma Nana.

    Para quem deseja se aprofundar nesse assunto, a nutricionista recomenda o livro “Política sexual da carne”, de Carol J. Adams, que traça um panorama do machismo por trás do consumo da carne. “O meu feminismo é atrelado ao veganismo e, por isso, chego até a considerar incoerente quem é feminista e não considera o feminismo como estilo de vida”, opina.

  • Especial cultura vegana: empreendedorismo, consumo e ideologia – Parte I

    Por Lara Ximenes

    (Foto: Freepik)

    Só neste mês, Recife já recebeu dois festivais de comida vegana: a 3ª edição do Festival Vegano e o VEG Ciência. Ambos eventos contaram com demonstração e apresentação de pratos e receitas de origem vegetal, sem nenhum tipo de carne ou produto de origem animal. Há alguns anos atrás, essas iniciativas não seriam comuns na cidade – é o que afirma Luana Antero, 28, vegana desde 2013, e que trabalha com a confecção de desodorantes naturais na sua marca artesanal Doula Vegana.

    “Logo que virei vegana comecei a buscar alternativas para todos os produtos que eu usava que tinham origem animal ou eram testados em animais. Um desses produtos era o desodorante”, afirma Luana. “Como transpiramos para liberar toxinas, afinal, o suor também é um produto do nosso sistema excretor, o principal problema dos desodorantes tradicionais é que eles são antitranspirantes”, conta.

    Segundo Luana, a axila tem muitos gânglios que precisam liberar toxinas, e o desodorante antitranspirante impede essa liberação. “Além da alta quantidades de alumínio, que não é algo bom de estar circulando pelo nosso corpo, você lê o rótulo de um desodorante comum e não sabe nem exatamente quantos químicos estão presentes. Já no rótulo do desodorante natural temos apenas óleo de coco, bicarbonato e polvilho”, afirma a empreendedora.

    Luana no Cais do Parto, um dos lugares onde revende seu desodorante vegano (Foto: Lara Ximenes)

    Dados

    No Brasil, 8% da população se considera vegetariana, segundo o Target Group Index, do IBOPE. Apesar de parecer baixa, a porcentagem representava aproximadamente 15 milhões de pessoas na época – número que já está ultrapassado, pois a pesquisa foi divulgada em outubro de 2012. Os dados também não distinguem vegetarianos de veganos (vegetarianos não comem nenhum tipo de carne enquanto os veganos não consomem nada de origem animal).

    Apesar disso, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) estima um crescimento de mercado significativo: de Janeiro de 2012 a Julho de 2016, o volume de buscas pelo termo “vegano” cresceu 1000% (mil por cento) no Brasil.

    Fonte/Gráfico: Sociedade Vegetariana Brasileira

    Do site da SBV:

    “Já existem, no Brasil, cerca de 240 restaurantes vegetarianos e veganos, além de um boom de lançamentos de pratos e lanches veganos em restaurantes e lanchonetes não-vegetarianas. O crescimento do mercado brasileiro reflete tendências mundiais: no Reino Unido, houve crescimento de 360% no número de veganos no país na ultima década (2005-2015). Nos Estados Unidos, o número de veganos dobrou em 6 anos (2009-2015).”

    Veganismo e consumo: do alimento aos produtos de beleza

    A jornalista e blogueira Nicoly Monteiro, 25, é uma das consumidoras do desodorante natural que Luana produz. Vegana há quase um ano, Nicoly desde criança questionava a violência contra os animais. “Vi um porco sendo caçado para ser cozinhado uma vez quando e desde então nunca mais comi. Sequer lembro o gosto. Mesmo eu tendo gostado do sabor das carnes um dia, não é um sacrifício pra mim deixar de consumir carnes, porque não consigo dissociar a violência que os animais sofrem do gosto daquilo que estou comendo”, afirma Nicoly.

    Assim como Luana, ela também precisou revolucionar a forma que consumia não só alimentos, mas artigos de beleza, roupas e até o seu hobby por velas, que são majoritariamente produzidas com cera de abelha. A partir dessas reflexões, criou o blog Minha Janela, onde aborda questões sobre beleza natural e veganismo.

    O blog Minha Janela também tem um canal no YouTube, onde Nicoly fala de consumo consciente e recomenda produtos (Foto: Reprodução/YouTube)

    Pesquisando para o blog, Nicoly descobriu que um estudo do Journal of Inorganic Biochemistry (disponível, em inglês, nesse link) indicava que o alumínio, quando absorvido pela pele, poderia causar efeitos similares aos do estrogênio, hormônio com habilidade de causar o crescimento de células cancerígenas. O estudo não comprova uma relação definitiva entre o uso de alumínio e essas consequências, mas sim indica essa possibilidade – o que bastou para Nicoly. “Usar ou não esse tipo de desodorante é uma opção completamente individual. Eu escolhi não usar, porque sei que há interesses de muitas empresas de que esse assunto siga sem maiores pesquisas. No final das contas, é o meu corpo e a minha saúde que está em jogo, e prefiro não correr riscos”, disse neste post.

    Beleza natural, cruelty free e vegana: semelhanças e diferenças

    Quando Nicoly virou vegana, o Minha Janela também entrou na onda – desde então ela só posta sobre produtos veganos. Mas quando o blog começou, ela ainda era vegetariana, ou seja, consumia e postava sobre alguns produtos que eram naturais e cruelty free [sem crueldade], mas nem sempre eram veganos. Mas quais são as diferenças entre esses produtos?

    Os desodorantes de Luana, que são naturais, veganos e cruelty free (Foto: Acervo Pessoal de Luana)

    Produtos veganos, além de não testarem em animais, não têm nenhum elemento de origem animal.

    Já o produto Cruelty Free é aquele que não foi e nem teve seus ingredientes testados em animais, mas apesar disso podem conter material de origem animal, como leite, carmim, glicerina e cera de abelha – logo, não são necessariamente veganos. Geralmente esses produtos são identificados com uma pequena logo de um coelhinho no rótulo. Algumas marcas nacionais conhecidas que são cruelty free: O Boticário, Granado, Phytoervas e Contém 1g.

    Os logos oficiais de coelho que identificam produtos que não testam em animais.

    As marcas naturais são aquelas que fabricam produtos sem ingredientes e químicos agressivos para a saúde e para o meio ambiente. Elas são cruelty free e usam ingredientes que provém da natureza (que não necessariamente foram cultivados livres de agrotóxicos).

    As marcas orgânicas são parecidas com as naturais, exceto que os ingredientes são 95% orgânicos, ou seja, foram cultivados respeitando o meio ambiente, sem a ação de agrotóxicos e insumos químicos prejudiciais à saúde – além disso, são cruelty free e veganas.

    “Para mim, a beleza natural veio até antes do veganismo. É meio que um divisor de águas quando você começa a prestar atenção nos rótulos dos produtos. Por exemplo, um hidratante, a maioria deles quase não tem ingredientes que realmente hidratem a pele, principalmente nas grandes marcas e nos produtos mais baratos, infelizmente. Eles possuem ingrediente químico para dar cor, textura, cheiro, mas que realmente hidrate, quase não tem. O que eu acho mais legal dos produtos da beleza natural é que tudo que está no rótulo é realmente direcionado para a função que você quer”, alerta Nicoly.

    “Sem dúvida nenhuma, os melhores produtos que eu já testei, principalmente os de cuidados com a pele, são os naturais. Vale lembrar que consumindo produtos desse tipo 100% do seu dinheiro está indo em benefícios para você, em ingredientes que são bons para seu corpo, e para o meio ambiente, enquanto que na cosmética tradicional tem muito ingrediente que pode trazer malefício e alergia”, defende a jornalista.

    Consumo Sustentável, Consciente e Responsável

    De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o consumo consciente é uma nuance do consumo sustentável. O indivíduo que consome conscientemente sabe de onde vêm os seus produtos e prioriza as empresas éticas e responsáveis nessa produção, “mandando um recado” para o setor produtivo para que sejam ofertados produtos que tragam benefícios e menos impacto para o meio ambiente. Para Nicoly, o consumo responsável é quando essa consciência é colocada em prática – e é o que ela aos poucos está fazendo, a sua maneira e como pode.

    “O veganismo mudou minha relação com o consumo. Me fez ser mais consciente não só no que diz respeito a crueldade animal, mas ao meio ambiente como um tudo. Muitas vezes a loja nem pratica crueldade com animais, mas com seres humanos através do trabalho escravo, como a maioria das fast fashion. Essas marcas quase sempre monopolizam o mercado”, afirma a jornalista.

    Outro benefício que Nicoly vê no veganismo é direcionar seu apoio e dinheiro para empresas que ela acredita. “Mudei meus hábitos de consumo quando vi que estava enriquecendo empresas que não têm nada a ver comigo. Porém essa parte é muito difícil e até mesmo impossível em lugares com pouca opção, como por exemplo onde não se pode comprar frutas orgânicas pois só há supermercados grandes por perto. Acho que a questão é fazer o seu melhor todos os dias, não se sentir culpado ou policiar e julgar os outros, mas tentar consumir alinhado com as causas que você acredita. Muita coisa tem um preço baixo mas o custo alto. E normalmente esse custo se resume ao sofrimento de alguém. Seja um animal ou uma pessoa. E no caso das comidas, o custo da nossa saúde”, lembra Nicoly.

    Veganismo e o empreendedor local

    (Foto: Acervo Pessoal de Rodrigo)

    “Embora quatro anos não seja muito tempo, Recife teve uma mudança bem expressiva no cenário vegetariano desde que virei vegana”, afirma Luana. Uma dessas mudanças é graças à produção de produtos artesanais veganos e vegetarianos produzidos por negócios locais. Produtos industrializados não fazem parte da vida da doula e empreendedora graças a esta mudança. “O veganismo também é uma libertação dessa dependência com a indústria”, afirma Luana.

    Um espaço que recebe essa produção local é a Vegaria, primeiro empório totalmente vegano do nordeste. O empreendimento fica localizado em Boa Viagem, no Recife, e é comandado pelo casal Rodrigo Pedrosa e Juliana Moura. “Começamos com uma loja de produtos naturais e, como 50% do público fiel era vegano, investimos totalmente nesse ramo. Mudamos de nome e de local e assim surgiu a Vegaria”, conta Pedrosa.

    Rodrigo Pedrosa e Juliana Moura, a dupla por trás do primeiro empório vegano do Nordeste (Foto: André Nery/JC Imagem)

    A loja funciona desde fevereiro de 2016 e, um ano depois, já teve crescimento de 60% nos lucros. Um dos grandes diferenciais é abrir as portas para parcerias com fornecedores de produtos locais, como Luana e seus desodorantes. “Nossa intenção não é sermos exclusivos, mas vender algo que siga nossa filosofia de vida”, diz Rodrigo.

    Outra iniciativa são eventos temáticos com comidas veganas nos finais de semana, onde levam pizzas, feijoadas, hambúrgueres e salgados sem nenhum ingrediente de origem animal ao público. Nesses eventos, existem parcerias com produtoras locais de alimentos, como a Frutteto e a Juju Vegan, ambas comandadas por mulheres. A Frutteto inclusive foi responsável por levar comida vegana pela primeira vez para a Fenearte (maior feira de artesanato da América Latina) em 18 edições.

    “Os eventos da Vegaria são divulgados virtualmente e nosso público frequenta em peso. Creio que rola essa identificação com a loja não só por falta de outras opções, mas porque acreditamos na causa vegana e levantamos essa bandeira”, diz o empreendedor.

    Por enquanto, a Vegaria não pretende abrir franquias ou expandir, mas está com um projeto paralelo para ser lançado oficialmente em agosto, que é o Açougue Vegano Mock Club (o pré-lançamento aconteceu no 3º Festival Vegano mencionado no começo da matéria). O nome vem do termo “mock meat”, designado aos produtos análogos à carne, como insumos de tofu e soja. A proposta é que o açougue seja itinerante, participando de eventos físicos, e também virtual (e-commerce), servindo itens de origem vegetal como charque de casca de banana, linguiças e hambúrgueres de soja e muito mais. “É legal que as pessoas saibam que elas ainda podem experimentar todo tipo de sabor mesmo sendo veganas”, lembra Rodrigo.

    Esta é a primeira parte da reportagem especial sobre veganismo do OF. Clique AQUI para ler a segunda.

  • A Gordofobia em Nós – Do Comentário Aparentemente Inofensivo até as Telas do Cinema

    A maioria de nós acredita que é impossível ser bonita e saudável sem ser magra.

    Créditos: 20th Century Fox

    Faz algum tempo que o tema Gordofobia vem habitando minha vontade de escrever. Na verdade, ele nunca esteve distante de mim já que, como uma pessoa gorda eu sempre tive que lidar com os comentários e olhares das pessoas que me julgavam em todas as esferas (de família e amigos, até estranhos na rua).

    “Ah, Maiara, mas você não é gorda, imagina, é até bonita!”

    Em primeiro lugar, ser bonita não tem nada a ver com ser gorda ou não. Essa é uma ideia que injetam na nossa cabeça desde muito cedo para aniquilar nossa auto-estima e para vender produtos nessa ditadura da beleza magra na qual vivemos.

    O entretenimento e a mídia reforçam essa lógica diariamente, fazendo com que, cedo ou tarde, passemos a acreditar ser impossível ser bonita sem ser magra. No filme Nunca Fui Beijada, por exemplo, uma das ‘meninas más’ chega a sentir inveja de um esqueleto.

    “Certo, é isso. Só água e laxante até a formatura.”

    “Ah claro, pessoas gordas podem ser bonitas, mas é que você não é gorda”

    Em muitos contextos sei que sou vista como uma pessoa gorda. Uma reflexão que tenho feito é que eu talvez esteja em um lugar de passagem. Não sou e nunca serei magra, mas não chego a ser gorda como outras pessoas que sofrem muito mais com a discriminação e a violência do que eu. Mesmo assim, ouvi ofensas e comentários gordofóbicos a vida inteira. Uma discussão muito bacana sobre isso está no vídeo “Nem gorda, nem magra” do Canal das Bee com a participação da Hel Mother (se não viram esse vídeo, assistam!).

    O importante é que hoje eu entendo que sempre serei assim e TUDO BEM.

    “Grande e no comando, como posso te ajudar?”

    “Ah, mas não é Gordofobia, é só uma questão de saúde! Estamos preocupadas com você.”

    Vamos lá: ser gordo não é igual a ser doente. Precisamos parar de fazer essa associação grosseira. Muita gente magra se alimenta mal, não se exercita, tem problemas sérios de saúde e ninguém fala nada. Poucos apontam o amiguinho por estar bebendo demais, fumando demais, comendo pouco ou por ser sedentário. Mas basta ver uma pessoa gorda comendo que começa o julgamento. Ah… os fiscais de prato! Cuidado, eles estão por todas as partes.

    Além das pessoas comuns, a gordofobia também é reforçada pela medicina moderna. Todas as vezes que entrei num consultório médico na vida, de ortopedista à otorrino, ouvi que precisava perder peso. Mesmo antes de fazer qualquer exame que comprovasse alguma irregularidade com a minha saúde. Ouvi também de professores de Educação Física que eu precisava emagrecer para ter um melhor desempenho. Mesmo assim, sempre fui bem nos esportes, contrariando o que me diziam ser possível.

    Então que tal sermos sinceros? A maioria das pessoas odeia os gordos, principalmente as mulheres gordas. E é claro que seria mesmo pior para mulheres, já que a cobrança sobre nós, especialmente em relação a aparência, é sempre maior. A busca da ‘perfeição’ estética faz parte de uma lógica que coloca os corpos das mulheres como objetos para apreciação masculina, o que, além de tudo, heteronormatiza as nossas relações.

    Me vem à cabeça neste momento aquele filme descabido chamado ‘O Amor é Cego’, no qual Jack Black é consagrado como herói por escolher ficar com uma mulher, mesmo ela sendo gorda.

    gordofobiaLembrando que ele só se interessa por ela inicialmente porque está enfeitiçado para ver apenas a beleza interior das pessoas, o que por si só já é um problema [pois a “beleza interior” é representada pela loira-magra-padrão].

    Essa história representa muito bem alguns aspectos importantes da gordofobia. Primeiro: mesmo o personagem do Jack sendo gordo, ele só se relaciona com mulheres magras. Porque um homem ser gordo é aceitável se ele for legal e engraçado, por exemplo. Já a mulher não tem essa permissão em nenhuma circunstância.

    Em segundo lugar, na trama a personagem Rosemary (a mulher gorda com quem Jack Black se envolve) é colocada em situações caricatas, quebrando até uma cadeira ao sentar, além de ser vista como totalmente descontrolada na hora de comer.

    Infelizmente, isso não é exclusividade de O Amor é Cego. Os personagens gordos em filmes ou séries são, em geral, os fracos, bobos, compulsivos, sem vida sexual e representados de maneira caricata/degradante.

    ‘Você não sentou no meu kit kat, sentou?’

    Em contraponto, a divinização da magreza seqüestra das pessoas qualquer chance de individualidade, nos dizendo que só existe um jeito de ser bonita e aceita: sendo  magra (além de branca e heterossexual, claro).

    gordofobia

    Para resumir: ninguém deixa de ser bonita, saudável ou desejável por ser gorda. Ninguém perde a capacidade de ser esportista, de ir para as baladas, de gostar de salada ou pegar várias pessoas. Está mais do que na hora de rompermos com essa lógica gordofóbica e todos podem ajudar nesse processo!

    Então aí vão algumas dicas do bem para melhorar a própria gordofobia.

    – Parar de julgar o que amiguinho come.

    – Parar de falar coisas como ‘gordice’, como uma associação a coisas gordurosas ou calóricas. Alguém fala ‘vou fazer uma magrice’ quando vai comer salada? Gordos comem coisas calóricas e coisas não calóricas assim como os magros. Essa associação não é produtiva e pode ser muito ofensiva.

    – Amigas magras: não falar – ‘nossa, to muito gorda’, pois não é verdade. Se colocar nesse lugar sendo que não sofrem essa opressão na pele é um tanto desrespeitoso. Vocês podem estar mexendo nas feridas das amigas gordas sem perceber.

    ‘Estou a uma gripe estomacal de distância da minha meta de peso’

    Ninguém nasce pronto e estamos sempre sujeitos a ofender os outros, mesmo tomando cuidado. O importante é repensar as atitudes que se tornaram tão naturais para que possamos chegar numa sociedade menos violenta. Chega de gordofobia!

    Texto originalmente publicado por Maiara Beckrich no site Nó De Oito

  • Quando o assunto é violência contra a mulher, o Brasil ocupa o 5º lugar no mundo

    Andrezza tinha 18 anos e todos os sonhos de uma jovem da sua idade. Era alegre, bonita, divertida, gostava de baladas e de curtir a vida. Foi numa dessas baladas que encontrou Rafael, um jovem bem mais velho que ela. Foi atração à primeira vista. Ficaram juntos nessa noite e assim foi por um bom tempo. Mas aquela jovem alegre, aos poucos foi se modificando. Ele era possessivo, ciumento, e a privava do convívio com os antigos amigos. Na cabecinha de Andrezza, isso tudo acontecia porque ele a amava tanto que não queria dividi-la com ninguém. Ela era dele, só dele. A família reclamava, aconselhava, mas como fazê-la entender, no auge da paixão, que aquele não era um bom rapaz?

    O tempo foi passando e Andrezza cada vez mais envolvida. Um dia, quando saíram juntos à noite, ela não voltou mais. Todos achavam que tinham fugido. A polícia foi acionada e depois de várias investigações, descobriram que a verdade não era tão simples assim. Eles não fugiram. A realidade era bem outra. Ele fugiu sozinho, pois num momento de ciúme excessivo, eles brigaram e Rafael matou a namorada. Desnorteado enterrou o corpo num matagal distante e fugiu.

    Ela só tinha 18 anos e uma vida cheia de sonhos que foi destruída por um namorado perturbado que não sabia controlar suas emoções. Mas ela é apenas mais uma nessa estatística cruel em que as mulheres são vítimas dos namorados ou companheiros. Seu caso é apenas mais um dessa violência galopante em que vidas são ceifadas por muito pouco. Matar tornou-se algo banal. E os números só fazem aumentar. Ainda não se sabe como controlar essa violência. Talvez se os políticos e autoridades competentes sentissem na pele a dor desses pais, algo mais efetivo fosse feito. Talvez até mudassem as leis tão flexíveis para que as penas fossem mais duras e os assassinos pensassem duas vezes antes de tirar a vida de alguém.

    Ainda são contabilizados no Brasil 4,8 assassinatos a cada cem mil mulheres, apesar da Lei Maria da Penha. Isso nos permite ocupar um assombroso 5º lugar no mundo nesse tipo de crime. Desses, um pouco mais da metade são cometidos pelo parceiro ou ex. Em 2016, 503 mulheres sofreram agressões físicas a cada hora. As agressões mais graves, 43%, se deram dentro de casa e 39% nas ruas. E elas têm crescido em vez do cenário melhorar, como querem nos fazer acreditar. É inacreditável essa constatação, mas a cada 7 minutos, ocorre uma denúncia de violência contra a mulher. Sem contar as que preferem calar porque dependem de quem as maltrata, ou por vergonha, ou porque têm medo do companheiro fazer coisa pior.

    O que se vê são assassinos cruéis com benesses, sendo libertados em curto tempo por bom comportamento. Matar passou a ser uma notícia que logo é esquecida, porque surgem outras e outras que diariamente estampam as capas dos nossos jornais e são manchetes dos noticiários de televisão. O que fazer diante disso tudo? Que incompetência é essa dos nossos governantes que não conseguem conter a violência contra a mulher e contra a sociedade de um modo geral? Só nos resta rezar para não sermos a próxima vítima.

    Josilene Corrêa é jornalista