• #homofobiaédoença



    Hoje eu não fui trabalhar porque acordei sentindo uma coceirinha meio gay na garganta. Ontem, foi uma sapatice nos dentes.
    Não consegui terminar minha monografia porque deu uma dor de gay nas mãos.
    Não vou a festas desde 1994 porque sofro de síndrome gay de pânico.
    Eu tenho amigos mas não consigo encontra-los porque apresento sinais de gaypressão.
    Gosto de fazer esportes, mas nunca faço. Eu tenho um problema de gay nos tendões.
    Tenho problema nos pulmões, mas nunca fumei cigarro. Minha doença é um defeito gay de malformação.
    Eu enxergo mal porque fui diagnosticado com pressão ocular homossexual.
    Tenho má digestão porque pego homem e mulher no carnaval.
    Tenho frieira desde que me assumi lésbica.
    Tenho fraqueza na cabeça e tontura nas pernas.

    Preciso de um psicólogo, não pra entender de onde vem meu mau caratismo. Não pra saber  porque motivo não pratico altruísmo. Não pra me ajudar a superar o medo. Não pra ouvir e humanizar meus segredos. Preciso de um psicólogo pra me curar da sexualidade, da natureza, da alma e do coração.

    Preciso de um juiz para autorizar meu tratamento de desviadação. Preciso de auxílio. Não quando sou espancado na rua, de mãos dadas com um amigo. Não quando sou ofendido no congresso por um político. Não quando me olham torto, me lançam piadas ou me negam emprego. Não quando me julgam, me estereotipam e me mostram desprezo. Preciso de apoio pra ser gente. Ainda que meu tratador esteja muito mais doente.

    #homofobiaédoença

  • Você cria expectativas… Vem a vida e te ‘’Ladygaga’’

    Quando eu era pequena, minha vó dizia que frustração causava febre. Você desejava aquela comida que não dava certo, esperava aquela festa que não acontecia, contava com aquele dinheiro que não saía… E, dias depois, adoecia sem saber o porquê. Era raiva, decepção, vontade ‘’somatizada’’. O mesmo tipo de doença misteriosa que fazia qualquer pessoa ganhar um terçol depois de negar favor à mulher grávida.

    Se você acha que isso é antigo, precisa ler, aqui na internet, a recente história da senhora que estava passeando com a netinha na rua quando a menina, de um ano, apontou para o copo de suco de uma pessoa estranha. “Eu qué”. A avó dedicada abordou a mulher do suco e pediu, carinhosamente, que ela cedesse um pouquinho do seu lanche para a ‘’bebezinha não passar vontade’’. A moça não só negou, como também fez cara feia. Coisa que as redes sociais definiram como ‘’falta de humanidade’’.

    Falta de humanidade é criar crianças e adolescentes que recebem doce na boca e Ipad nas mãos para não espernear em público. É deseducar essa turminha que chantageia pai, mãe, e é convencida de que pode tudo. É iludir esse povo que faz manha com o mundo, que acha um absurdo levar multa por estacionar ‘’rapidinho’’ no lugar errado. Que acha sacanagem não ser disputado a tapas pelo mercado de trabalho. Que acha que é perfeito demais pro companheiro, inteligente demais pro professor, feliz de menos pra vida e semprefodapracaralho.

    Lidar com frustração dá mesmo febre. Uma daquelas febres que ninguém vê. Dá raiva, dá nó nas tripas do intestino. Não é fácil não passar naquela prova para a qual você tanto estudou. Não é legal cancelar o casamento na praia por causa do tempo que fechou. Não é bom perder a saída do cruzeiro porque o voo atrasou. Frustrar, frustrar, frustrar. Até na boca o verbo trava. Trava a vontade, trava os planos, trava o esperado. Trava tudo quando você mais se preparou. Porque você sonhou, trabalhou, divulgou… E veio a vida pra te ‘’Ladygaga’’.

    O Rock in Rio foi uma aula de sobrevivência ao assassinato do ‘’tão esperado’’. Filas e mais filas se formaram à espera da cantora. Gente vendeu carro, vendeu moto. Viajou dias de ônibus. Saiu da Bahia, de Minas, do Espírito Santo. Gente pediu demissão do trabalho. Gente que trocou ingressos pelo próprio gato. Gente que organizou cartazes, performances, gritos desesperados. Gente que passou meses inteiros sonhando com a Gaga cantando ‘’Million Reasons’’ em cima do palco.

    Aí veio vida sendo vida. Trazendo aquele balde de água fria e brincando de choque de realidade. A cantora mandou dizer que estava com dores no corpo por conta da fibromialgia e cancelou a apresentação. Você queria uma Lady Gaga, o mundo te deu Maroon five.

    É assim. Um saco. Merece mesmo uma lagriminha no canto do olho, talvez um porre no meio do sábado. Mas não cabe escândalo diante da TV, remédio calmante na veia e estardalhaço. Você não vai morrer. Você vai sofrer, mas está a salvo.

    Porque a vida vai te ‘’ladygaga’’ tantas vezes, meu amigo. Bem no meio da sua cara. E não serão vezes simples, como a viagem perdida e o décimo terceiro atrasado. Não serão coisas passageiras, como o resultado ruim da prova e o show cancelado. Serão coisas tão sérias, tão pesadas, que nem febre de frustração vai dar.

    É debaixo do chuveiro que a gente aprende a lição gelada. Nossa expectativa dá pulos pra se aquecer. Como a mãe que sonhou ter seu bebê de parto normal e mal conseguiu segurar a criança nos braços. O pai que desejou ter netos e mal viu o filho formado. A moça que desejava conhecer o mundo e descobriu um câncer incurável. O cara que queria ser atleta e se viu acidentado.

    A vida é esse festival de músicas fora de ordem. Esse desafio feito para artistas de reinvenção. A vida é essa surpresa. Essa febre de incerteza. Esse colo de vó para choro frustrado. Esse teste constante pro coração.

     

     

     

  • Entrevista: Renata Pinheiro, primeira mulher a dirigir um longa de ficção em Pernambuco

    Aroma de novas ideias

    Por Lara Ximenes

    (Foto: Lara Ximenes)

    Como Renata Pinheiro, com a sua Aroma Filmes, conquistou espaço no cinema pernambucano predominado por homens na cadeira de direção

    Em 2012, a revista Valor Econômico publicou a matéria “Cinema pernambucano vive sua era de ouro”. No texto, o cinema produzido no estado é exaltado por sua força e comprometimento poético, apontado como um cinema de qualidade e ousadia. Além disso, fala-se dos diretores de sucesso que colocaram Pernambuco no mapa do cinema nacional. Na lista, são citados Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Marcelo Gomes, Kleber Mendonça Filho, Daniel Aragão, Camilo Cavalcante e alguns outros cineastas pernambucanos de renome, cujos filmes abocanharam prêmios festivais afora. Não dá pra ignorar: todos esses diretores são homens. O machismo na sociedade não fica de fora quando o assunto é arte, mas desde a retomada do cinema pernambucano em meados da década de 90, as mulheres estavam lá: como diretoras de arte, produtoras, montadoras, roteiristas. Com bem menos holofotes e glamour, é inegável a presença das mulheres nesse espaço. Renata Pinheiro é uma dessas mulheres que lutou pelo seu espaço nesta área hegemonicamente masculina. Autodidata, a pernambucana emprestou ao cinema o olhar que adquiriu no curso de artes plásticas fazendo direção de arte. Ao longo da sua carreira, fundou a Aroma Filmes com Sérgio Oliveira, seu sócio e marido, produtora que a ajudou a tornar-se a primeira mulher a lançar um longa de ficção em pernambuco, em 2013, com o filme Amor, Plástico e Barulho – um ano após a tal matéria do Valor Econômico. Apesar de terem sido necessários mais de dez anos após a retomada do cinema pernambucano para que uma mulher dirigisse um longa de ficção, as coisas estão mudando, como a própria Renata frisou na entrevista abaixo (Tuca Siqueira, que dirigiu o curta premiado Garotas da Moda, está prestes a lançar seu longa de ficção Amores de Chumbo, por exemplo). Além de questões de gênero, Renata conta um pouco sobre seu amor pela sétima arte e o engajamento político em suas obras.

    Antes de ser diretora, você foi artista plástica formada. Como surgiu o interesse em trabalhar com cinema?

    Eu já tinha feito teatro também, era um curso de extensão da UFPE. O cinema começou a ser produzido de novo no final dos anos 90 e aí eu não sei te dizer se eu fui me aproximando dele ou ele de mim, foi uma coisa muito natural que aconteceu. No Baile Perfumado (1996, Lírio Ferreira) por exemplo, eu não trabalhei diretamente no filme mas cedi meu ateliê para eles usarem como um laboratório de efeitos especiais – tiros, sangue – do filme. Logo depois daí, eu fui convidada para fazer a direção de arte de Texas Hotel, de Claudio Assis, e assim foram surgindo vários outros convites. Mas tenho a impressão de que as instalações de arte que eu fazia quando artista plástica sempre abordavam essa questão da construção espacial, um reflexo sobre espaço – e o cinema é muito isso, porque quando você constrói um cenário você na verdade constrói um ambiente propício para a narrativa, então tem tudo a ver. Acho que foi um processo natural que aconteceu.

    Essa questão da construção espacial se reflete também nas suas obras?

    Eu imagino que sim, porque a geografia está muito presente no que eu faço. Não que a gente não filme fora daqui, temos até um filme de estrada, o documentário Estradeiros (2011, Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira). Mas eu acho que Recife imprime muito forte nos meus filmes. Superbarroco (2008) por exemplo é ambientado na casa grande de um engenho da minha família, um lugar que eu fui desde criança. O filme é bem psicológico mas tem uma construção de espaço mais subjetivo que o ambiente real, que é a casa grande. Ultimamente algumas pessoas têm feito convites para direção de arte e eu peço para que elas digam o motivo que estão me procurando. Por coincidência duas pessoas, uma do Rio de Janeiro e outra de São Paulo disseram que acreditam que eu não tenho um trabalho tão naturalista, eu trabalho interpretando espaços, proporcionando espaços com mais elementos do que necessariamente elementos literais de personagem. Me consideram uma diretora de arte não naturalista, o que eu acho ótimo – e é uma reflexão que vem de outras pessoas, eu nunca pensei sobre isso mas eu acredito que meu cinema é muito isso: uma construção simbólica da realidade. O que foi interessante por exemplo em Amor, Plástico de Barulho (2013, Renata Pinheiro) é que ele tinha que ter um pé numa realidade, pois era ambientado no show bussiness da música brega do Recife, que de fato existe, mas mesmo assim deu para subverter essa realidade com a construção da imaginação e dos sonhos da personagem Shelly com imagens mais subjetivas. Acho que é o que eu gosto de fazer.

    Já que falamos em Amor, Plástico e Barulho: o seu interesse no brega para ambientar o longa teve relação com o seu trabalho de direção de arte no documentário Faço de Mim O Que Quero (2009, Sérgio Oliveira e Petrônio de Lorena)? De alguma forma esse documentário inspirou a ficção?

    Faço de Mim O Que Quero é um argumento meu, eu já tinha interesse sim nesse universo porque eu como diretora de arte viajei muito e fiquei muito encantada quando fui lá no norte, perto da Venezuela, na época que fiz a direção de arte de A Festa da Menina Morta (Matheus Nachtergale, 2007), ali eu tive contato com artistas pequenos do brega de lá, que cantavam, e todo esse mundo me encantou muito. Aí escrevi o argumento para o documentário mas nem pude dar andamento por questões de trabalho, então Sérgio escreveu o roteiro e convidou Petrônio para dirigir e eu participei como diretora de arte. Adoro esse filme, acho que é muito mais sobre comportamento do que sobre a música em si, e eu achei que o que eles conseguiram buscar era muito revelador mesmo – a época em que ele foi filmado acontecia de fato um boom econômico de crescimento da classe trabalhadora mais cheia de si, com orgulho próprio e mais condições financeiras, e a gente vê isso em Amor plástico e barulho também, esse momento do boom da auto estima elevada cria uma arte pop produzida nos subúrbios brasileiros que é muito legal, inclusive isso de não esconder a sensualidade, de não ter pudor. Eu acho uma maravilha porque não é hipócrita, e essa é a característica brasileira que me encanta muito, acho que é bem diferente de todo resto do mundo. É uma característica renegada pela mídia e pela classe média brasileira, acha que isso é um traço selvagem, mas eu acho que pelo contrário, é bem saudável por na música a sensualidade.

    E a Aroma Filmes, como surgiu?

    A Aroma surgiu para a gente fazer nossos próprios projetos, em 2008. Antes da aroma já tínhamos a empresa sem o nome fantasia, no meu nome, onde Sérgio fez três curtas antes desse ano: Schenberguianas (2006), Corpos Porcos (2003) e Nação Mulambo (2007). Então a Aroma com o nome mesmo foi em 2008, com o meu filme Superbarroco. Como eu e Sérgio fizemos alguns trabalhos antes da Aroma, as coisas foram se intensificando e ter uma empresa parecia o caminho mais certo para começar. Porque você produz seus filmes, você não depende de produtor nenhum, não tem que agradar o gosto de terceiros, enfim, quem tem esse interesse no cinema autoral crie mesmo sua empresa. Aí a gente começou lançando dois longas e diversos curtas (infográfico ao lado), tá sendo bem possível viver de cinema. Mesmo com essa conjuntura política, é um grande mercado – tem muita gente que se forma em universidades e já sai para trabalhar com cinema, gente que trabalha há mais de dez anos, enfim, se for para parar esse processo a luta vai ser grande.  É uma indústria que tá se formando mesmo. Muita gente se emprega no cinema – você contrata diversas pessoas para filmar, para finalizar, têm os serviços terceirizados de gráficas e transporte. Eu acho uma arte e uma indústria muito limpa e saudável pois contrata todo tipo de serviço, e é honesta também porque tudo que é investido é comprovado, a própria existência do filme é uma comprovação.

    Cena de “Amor, Plástico e Barulho” (2013)

    E como foi trabalhar por trás das câmeras como diretora, depois de tanto tempo como diretora de arte?

    Foi algo natural também, nada foi muito premeditado. Eu sou autodidata em direção de arte, e nunca me preparei pra isso. Foi uma consequência da minha formação com as artes plásticas, com o teatro… isso tudo me aproximou do cinema, assim como o meu amor por ele. Sempre fiz videoartes para salas de exposição como artista plástica, mas meu primeiro curta, para um circuito mesmo de cinema, foi o Superbarroco (2008), que foi absolutamente uma necessidade minha de expressão depois de tantos projetos como diretora de arte, eu estava sentindo que precisava retomar um trabalho meu, autoral, ele veio mesmo como uma necessidade artística. Como por exemplo, agora na Aroma Filmes a gente tá com vários projetos em andamento meus como diretora, então não tenho previsão de quando farei outro trabalho como diretora de arte novamente. Pelo contrário, na verdade estou pensando em preparar uma exposição junto com o projeto da série África da Sorte e o próximo longa para ser lançado Açúcar e o que vai ser filmado agora, Carro Rei. Enfim são vários projetos com investigações diferentes, isso requer uma concentração bem grande e um tempo dedicado ao mergulho nessas temáticas. E é um prazer construir uma obra assim desde o início. Eu acho que talvez um ciclo tenha se fechado na direção de arte e é mais provável um retorno meu às artes plásticas do que a direção de arte em si. Agora a principal diferença entre as direções talvez seja a complexidade de lidar com uma equipe grande, mas o ato mesmo de dirigir sempre me foi inerente porque sempre fui muito opiniosa, mesmo como diretora de arte eu já sugeri diversos planos, todos os filmes que eu fiz eu estava sempre como braço direito do diretor sempre opinando mesmo, sempre atenta da interpretação dos atores até sobre eixos de câmera, eu verificava tudo que eu achava ruim, algum ruído. Diretor de arte também fica lá no monitor e eu não senti nenhuma diferença ao assumir uma direção, acho que eu estava muito preparada para isso. Existe assim, por exemplo, a questão de ter que lidar com muita figuração, uma equipe muito grande, a complexidade é maior sim, mas eu não sinto que não estava preparada pra isso no meu primeiro longa, por mais que fosse mais difícil. Em Amor, Plástico e Barulho filmamos tudo o que queríamos e se fôssemos colocar tudo isso seriam 3h de filme (risos), mas deu tudo certo.

    Nos seus filmes, existe sempre um engajamento político: podemos ver referências politizadas ora sutis, ora escancaradas. Você acha que o cinema deve ser usado como uma arma política?

    Eu acho que qualquer tipo de comunicação é uma arma política. Cinema não deixa de ser não só uma arma política mas de transformação, sem dúvida. Então todo discurso que você elabora ele tem um lado. Esquerda, direita, centro… É impossível você não fazer arte com um posicionamento político, pra mim. Não existe arte neutra. E, claro, minhas obras refletem minha forma de pensar – então nesse sentido eu acho que a gente tenta causar, não sei se de forma maniqueísta, uma reflexão. O curta Praça Walt Disney (2011) é muito isso. A gente tem a nossa visão sobre Boa Viagem –  e não é um filme panfletário nem levanta nenhuma bandeira, mas mostra uma realidade que causa reflexões: como chegamos aqui? que bairro é esse, que modelo progressista ele pegou para se desenvolver? esse é o modelo que a gente imagina ser o melhor para nós? E é isso que eu queria, causar uma reflexão. E dependendo do filme ou da situação, claro, denunciar mesmo, chutar o pau da barraca. Acho lindo filme que denuncia as injustiças que a gente vê, principalmente na temática da mulher, porque é preciso defender essa causa diante dos absurdos que a gente vê elas passarem, as violências físicas e intelectuais. Eu diria que Dilma Rousseff é uma das vítimas dessa violência de gênero inclusive, nas críticas a ela. Essas coisas têm que se denunciar mesmo.

    Em Segundo Sexo, Simone de Beauvoir afirma que o homem é “o sujeito” e a mulher é o “outro”. Você acha que essa visão é transportada para a arte? Que a arte do homem é a geral, o padrão, e a da mulher é vista como algo de segunda categoria, menos qualidade devido ao olhar feminino, muitas vezes associado ao fútil e melodramático?

    Acho que existem filmes que olham para a realidade com sensibilidade, tentando olhar a vida com outro viés, e existem aqueles filmes que são um padrão de clichês, comercial. É provável que as mulheres daqui pra frente desfaçam esses clichês e mostrem a realidade de outra forma, até porque é lhes dado mais voz para se expressar artisticamente agora, e eu acho que essa é a grande revolução, dar voz às mulheres – e os homens e toda a sociedade ganhará muito com isso -, porque assim vai surgir esse cinema diferente, até porque o papel que é imposto para nós é outro. A gente é vítima de machismo, então a gente deve encarar a vida de outra forma, contando a história de outra forma. Agora eu não sei exatamente se essa definição de cinema de mulher nos coloca num mundo à parte. Eu prefiro entrar na brincadeira séria que é fazer cinema de qualidade, e não ser colocada num subgênero. Existem os homens sensíveis que colocam as suas personagens mulheres como personagens ativas em suas histórias, mas tenho a impressão que se elevam o número de mulheres diretoras, produzindo suas obras, a gente vai ter a oportunidade de ver um novo cinema, e essa é a grande coisa que está por vir.

    (Créditos: Lara Ximenes)

    Inclusive o filme brasileiro que mais fez sucesso nos últimos anos foi dirigido por uma mulher, Anna Muylaert, o Que Horas Ela Volta? (2015).

    Pois é, exatamente! Uma mulher, uma mãe que criou seus filhos sozinha… Ainda é difícil você ver um homem que cria seus filhos sozinho, por exemplo. Essas outras experiências de vida que as mulheres experimentam se refletem em suas obras.

    E como você se sentiu sendo a primeira mulher pernambucana a dirigir um longa de ficção no cinema local?

    Eu tava lançando o  Amor Plástico e Barulho, em Brasília, quando o jornalista Julio Cavani me falou isso. Eu não sabia que eu era a primeira mulher (risos). Eu achei maravilhoso saber isso porque não foi fácil, apesar de o tema que eu escolhi ter sido muito bem vindo no Funcultura naquele ano, passando de primeira. Mas foi difícil impor respeito na equipe. A gente convida para trabalhar sempre pessoas que acreditam na sua obra, mas sempre rolam dificuldades, todo mundo tem. Então eu espero que isso seja um grande estímulo à outras meninas e mulheres que estão começando. Para mim foi natural, simplesmente chegou a hora de lançar o longa e eu não sei como não aconteceu de outras mulheres lançarem antes de mim, porque sou de uma geração intermediária do cinema pernambucano. E o melhor é que eu acho Amor Plástico e Barulho bem feminista, uma abordagem que eu dei naturalmente porque é como eu vejo as coisas, sem preconceito. É interessante que logo o primeiro longa de ficção de Pernambuco dirigido por uma mulher seja sobre justamente uma abordagem da condição das mulheres num mundo machista, no caso do filme o mundo da música. Eu me orgulho disso, mas é um mérito que não sei se é meu, afinal foi apenas uma coincidência.

    Até porque é meio triste que, num cinema tão consagrado como o nosso, só em 2013 uma diretora feminina teve esse protagonismo, né?

    Exatamente. E isso é porque a gente é muito ensinada, era mais difícil antes, tava conversando com Anna mesmo, dizendo que se arrepende de não ter tido uma reação mais imediata à alguns abusos que ela recebeu, mas é como eu disse, a gente é ensinada a ficar calada quando for agredida. É naturalizado, como se fosse pra ser assim. Então o fato de você não levar um projeto adiante enquanto mulher também se dava por ser mais cômodo fazer parte da equipe de um homem, porque é mais aceito. Mas tá mudando, tá mudando tudo.

    Em algum momento você sentiu que sofreu machismo trabalhando no cinema?

    Eu sofri bastante machismo mas eu prefiro não comentar essas coisas porque acho que sempre me saí muito bem dessas situações. Eu trabalhando sempre senti uma força muito grande, inclusive já chamada de “força masculina”, pra você ver (risos). Mas eu tenho uma construção ali interna mesmo do objetivo artístico que eu quero chegar então o caminho que eu vou seguir eu posso receber várias agressões ali, descasos, mas eu nem ligo, penso logo que a pessoa que é idiota e sigo para atingir meu objetivo. Então não posso dizer que fiquei traumatizada com nenhuma agressão, mas tiveram várias, pois a maioria dos homens quer sempre te rebaixar, provar que você não tem valor, e isso é muito recorrente, é o pior machismo, silenciar a mulher, tirar o brilho.

    Na sua opinião, o que falta para que as mulheres daqui assumirem mais o papel de diretoras? O que você diria para estudantes que aspiram a direção?
    Acho que fazer um mergulho na obra que já foi feita por outras mulheres, para contemporizar e entender esse contexto e também para que não desistam nunca, porque sempre vão ter pessoas para lhe desviar, lhe colocar para baixo. existe muita inveja (risos). e claro, cinema a gente não faz sozinho – então busque seus parceiros, pessoas que vão lhe dar força e caminhar junto com você. O mundo cobra muito mais perfeição das mulheres do que dos homens, isso é fato. Mas não se desanime com um não, porque a gente sempre recebe, e muito, porque a cobrança é maior. Aqui no Recife eu já ouvi comentários bastante machistas sobre obras minhas que se fosse um homem que tivesse feito, era completamente passado sem nenhuma crítica, bobagens que não são nem de longe críticas construtivas. As pessoas procuram mesmo agulha no palheiro quando é com mulher, a exigência é muito maior, como se você tivesse que ser perfeita. E essa é a sociedade machista em que vivemos, não há nenhum filtro. Não pensam “ah, essa pessoa têm um repertório, vamos respeitar”, sempre vêm os comentários com violência. Mas não vamos deixar de fazer por isso. Não vamos nos acomodar, temos que fazer.

  • Solitude é povoar a sua própria solidão

    Em 2012, escrevi sobre a coragem que precisamos reunir para, contra toda uma sociedade que nos diz que o único lugar que podemos desejar ocupar se encontra à sombra de um parceiro, desafiar a ameaça de nos vermos sozinhas e despertar para a construção de uma solitude. Recebi mensagens de muitas mulheres tocadas por esse texto, que chegou a ser replicado por algumas plataformas de grande alcance, como o portal Geledés. Mas qual a diferença entre solidão e solitude, afinal? A origem dessas duas expressões está no latim “solitudine”, porém, a primeira expressa um estado de isolamento e desertificação emocional, enquanto a outra remete à plenitude que podemos experimentar em nossa própria companhia.

    “A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho” (Paul Tillich)

    Minha proposta aqui é atar 2012 e 2017, compartilhando as impressões de cinco anos tentando exercitar alguma solitude, indo além da percepção formal daquele texto, humanizando o discurso para pincelar com os desafios e as conclusões de uma experiência real de avanço em face da ideia de libertação emocional, enquanto mulher. Sendo assim, transcrevo o escrito inicial, para então tecer minhas considerações:

    Épreciso ter coragem de estar sozinha também. E sobre isso ninguém nos ensinou. Ninguém vai nos ensinar. Há uma normatividade rígida se impondo sobre a afetividade feminina, mas dessa vez não fala de castração. Simula liberação. Para que ela se efetive, é preciso produzir em massa uma ansiedade quanto ao sexo, um desespero por parceiros, uma incompletude que nos rouba de nosso protagonismo e nos aprisiona — sendo esse o mesmo mecanismo da sensação de insuficiência física produzida pela ditadura estética e da sensação de insuficiência emocional produzida pela cultura romântica. A quem a insuficiência sexual está servindo? A quem o patriarcado serve. Falar disso, embora seja claramente um questionamento sobre até que ponto nossos corpos e sentimentos são realmente e apenas nossos, fatalmente soará como moralismo. É assim que querem que vejamos.

    Antes de tudo, devemos admitir que as meninas fazem sexo cada vez mais cedo e que isso reflete um problema grave de gênero, uma vez que não fazem por mero instinto, mas porque há toda uma cultura que prega a obrigatoriedade da vida sexual. Independentemente de a infância ser uma construção histórica, a sua abreviação contemporânea é um interesse mercadológico. Elas fazem sexo para não se sentir socialmente inadequadas. A quantidade de vídeos de revenge porn de adolescentes tomando as redes sociais, a quantidade de letras de música falando de “novinhas” e o investimento pesado da indústria e da mídia na erotização infantil demonstram que há toda uma legislação subjetiva determinando a hipersexualização da mulher desde muito cedo.

    Tudo à nossa volta constrange, impele, coage para o sexo. Mostrar-se sexualmente ativa, intensa e frequente é garantia de privilégios. Ora, o patriarcado é sobre sermos coadjuvantes: dos processos políticos e de nossas vidas. À frente, sempre a figura masculina, determinando o nosso manuseio correto. Logo, não só os homens gozam de um conjunto de privilégios, é preciso também “conceder” aparentes benefícios às mulheres, incentivando a competição entre elas, para que elas acreditem que há alguma forma de premiação dentro desse sistema. E as mulheres são “premiadas” segundo diferentes critérios: submissão aos padrões de beleza, ajuste à moral e aos costumes (mulheres relacionáveis), disposição sexual e capacidade de proporcionar prazer ao homem (mulheres consumíveis)…

    Na contemporaneidade líquida, os falsos privilégios femininos estão ligados especialmente ao consumo sexual, de modo que as mulheres precisam comprovar que são livres, donas de seus corpos e bem-resolvidas, mantendo uma aura de autonomia. Essa autonomia sexual precisa ser aparente, não pode representar, em hipótese alguma, uma ruptura com o patriarcado, ela é uma ficção de uso, uma licença. A apropriação da homoafetividade feminina como fetiche é um exemplo de como a liberdade sexual feminina é encarada como uma concessão. Essa autonomia também vende o produto feminino com uma garantia de blindagem emocional: a mulher bem resolvida dá menos trabalho, não precisa de tantos cuidados no trato, não se melindra com qualquer gestozinho agressivo, não demanda tanto desgaste na sua administração.

    É interessante para o patriarcado que a nossa sexualidade seja estimulante, garantindo o entretenimento em longo prazo ou o descarte imediato, como todo bem de consumo. Quase nos esquecemos de que existimos para nós, quase nos condenamos a bobas da corte. Agora somos máquinas de prazer. Democratizamos e afirmamos, assim, o sexo como mercado: somos todas profissionais de alguma maneira, eis o sonho machista realizado. O que não representa, de modo algum, a problematização da pornografia ou a libertação da mulher em situação de prostituição, ela permanece segregada e violável.

    Resta claro como o patriarcado subverte os nossos processos e rouba a cena que jurávamos protagonizar. Quantas outras causas pensamos alavancar e correm esse mesmo risco? Ou já foram sequestradas e ainda não percebemos? Diante de um sistema que corrompe e usurpa até mesmo a idéia de empoderamento por meio de uma sexualidade mais livre em prol do prazer masculino, o que parece definitivamente libertário? Respondo: o triunfo sobre essa ansiedade por parceiros e pela consagração sexual dentro do jogo de falsos privilégios dados à mulher. É no estado de solitude que essa solidão devastadora e insaciável perde a força. É quando tomamos coragem de romper com a obrigatoriedade de um parceiro, com esse desespero por companhia e afirmação sexual que finalmente podemos empregar a nossa energia em atividades diversas, que nos permitam tomar o mundo, que nos apresentem uma perspectiva de igualdade de gênero a respirar fora da guerra dos sexos. Ou o contrário: é quando empregamos a nossa energia em atividades que nos façam tomar o mundo, que nos apresentem uma perspectiva de igualdade de gênero respirando fora da guerra dos sexos, que tomamos coragem de romper com a obrigatoriedade de um parceiro, com esse desespero por companhia.

    De qualquer modo, é preciso autoconhecimento. A nossa intimidade sempre foi objeto de disputa e controle, nunca nos pertenceu. Parece improvável que realmente a gente venha a conhecer relações mais saudáveis e justas sem que haja uma retomada e reconhecimento dessa intimidade, para que nunca mais fique ao cálculo dos interesses culturais, sociais e econômicos traçados pela supremacia masculina. Precisamos nos explorar mais, somos um universo desconhecido para nós mesmas. Aprender a ficar só e a ser por inteiro, virando o tabuleiro da manipulação afetiva e sexual, pode ser um passo determinante para nos desintoxicar de séculos viciadas em submissão, competição e aprovação. Se mesmo o nosso protagonismo em algumas questões pode ser uma ilusão de ótica, aprender a estar consigo e a preencher-se de companhias não sexuais (notem como a sororidade é imprescindível), de objetivos que nos obriguem a ir além de nós e que restaurem o óbvio — não somos as nossas emoções, NÓS TEMOS AS NOSSAS EMOÇÕES — podem ser os únicos passos concretos para a descolonização e autodeterminação femininas.

    Em sete parágrafos, a falácia da liberdade sexual, o cultivo de uma dependência afetiva pela cultura romântica, a ditadura da beleza como medida da feminilidade, a exposição das meninas à objetificação sexual, a competitividade entre mulheres, o estereótipo de mulher bem-resolvida como forma de desumanização e o consumo sexual são explicados como facetas do mesmo processo de socialização, que vão cada vez mais nos mutilando emocionalmente para que estejamos sempre prontas para o sexo e, se possível, sem perturbá-lo com demandas emocionais “tolas”. Hoje eu só evitaria o termo “sororidade”, porque ele é bem relativo.

    Continuo chamando a atenção para o quanto o trunfo de “moralistas” é usado contra nós, sempre que ousamos pensar a existência da mulher para além do quanto ela é formada para a satisfação sexual masculina, internalizando equivocadamente que essa é sua própria satisfação e exercício de liberdade erótica. A identidade da mulher contemporânea está profundamente assentada sobre a sua sexualidade, mas essa sexualidade não reflete de fato liberdade, reflete uma radicalização na dominação sexual por homens. A classe sexual dominante está nos dizendo que podemos nos relacionar com nossos corpos da forma que lhe convém, isto é, “Você pode caminhar nua e lubrificada o bastante por esse terreno, porque EU DEIXO”. Até que ponto libertar-se sexualmente tem sido para si e não para o outro?

    Por outro lado, para cultivarmos essa falsa noção de liberdade sexual, é fundamental descartar nossas necessidades afetivas. Mas sequer tivemos tempo de conhecê-las, retirando-as da caixinha de feminilidade para enxergar o que é nosso e o que é demanda da cultura romântica para nos deixar eternamente à disposição da nutrição emocional dos homens. Durante séculos imperou um feminino classicamente submisso e associado ao espaço do lar. Com a apreensão desse feminino pelo capitalismo, dentro da lógica de mercantilização dos corpos, emerge a super mulher, atropelando a anterior: da rua, sexualmente objetificável ao máximo, vazia de pretensões afetivas até onde isso pareça conveniente, desejosa de sua autonomia até onde isso não represente uma ruptura com o sistema e, aparentemente, senhora de seu corpo, desde que ele reflita o que é esperado pela indústria. Mas para isso há um pacto: ele precisa estar aberto a ser constantemente moldado pelo que ela produz.

    Entre uma geração com um determinado estereótipo de feminilidade e outra, o que sobre de nós? Quem somos nós, de verdade, fora da caixinha da mulherzinha dócil e servil emocional ou do mulherão servil sexualmente, por vezes com um pé em cada uma, vivendo uma afetividade dúbia, partida ao meio? Você conhece os seus desejos, o que te faz bem, permite-se querer mais da vida, sonhar alto, ou internalizou que um companheiro basta para a vida fazer sentido? Estamos sempre sendo formadas para ser a companhia de alguém. Ambos os modelos de mulher foram inventados para corresponder às necessidades masculinas e do mercado, nunca às suas próprias. Não nos pertencemos. Alguma pausa precisa existir para que não tenhamos mais a subjetividade tragada para dentro dessa engrenagem. Precisamos nos tomar nas mãos em definitivo, deixando de existir para o outro, passando primeiro a existir para nós mesmas e depois para a coletividade, tomando os espaços públicos dominados por eles ao longo de séculos. Para isso, a coragem enquanto enfrentamento do medo de encarar a sua própria solidão, que é uma ferida fabricada pelo processo de socialização de gênero, e buscar um autoconhecimento que nos deixe mais à vontade em nossa própria pele, preenchidas com a nossa própria companhia e das demais mulheres à nossa volta, que conosco compartilharão experiências, em um fortalecimento mútuo. Pesquisar outras possibilidades existenciais que nos deem prazer de estar vivas desloca o nosso eixo de segurança das relações com o outro para a relação conosco e com as outras, rompendo também com o ciclo de competitividade.

    Desconhecemos, ainda, tudo o que podemos realizar quando nos colocamos no centro de nossas vidas. Talvez tenhamos medo de caminhar de forma mais autônoma e, paralelamente a isso, na ideia de masculinidade também foi depositada uma forte expectativa de proteção. O que é uma falácia, uma vez que o mesmo estereótipo paternal nos expõe à violência e à dominação. Que ousemos nos imaginar vivendo o avesso de tudo o que o mundo espera de nós, como mulheres: desde o dia em que você começou a ter vida sexual até agora, em algum momento já se imaginou feliz mesmo sem casamento ou filhos? E aquela viagem, aquele trabalho que te motiva, o seu projeto artístico, tudo o que você pode e deve inventar por aí? Como seria a vida ideal dentro de uma ideia de felicidade com solitude para você? A qual situação gostaria de dizer um enorme “foda-se”e ainda não fez? Temos o direito de reescolher o nosso caminho e as nossas crenças, infinitamente, sem achar que cada homem que aparece é o salvador em face da culpa milenar que carregamos. Quando vamos em busca de todas as ferramentas, linguagens terapêuticas, redes de apoio que possam nos desvendar no mecanismo de nossa própria ferida secundarizante, um novo mundo se abre diante dos nossos olhos. Começamos a despertar para as muitas mulheres que nos habitam, sentimos novamente tesão de viver, vamos povoando a nossa solidão. E, obviamente, mudamos pouco a pouco a dinâmica das relações, as coisas não ficam mais tão fáceis e à disposição dos predadores afetivos e sexuais. Rompemos com essa caricatura edipiana que advém da maternidade compulsória. Descobrimos quem somos nós e o quanto podemos realizar. Cercar-se do que ama fazer e buscar outras possibilidades de realização na vida, bem como companhias que nos impulsionem para o que de melhor existe em nós, são modos de povoar a própria solidão, convertendo-a em solitude.

    A energia sexual que nos é constantemente solicitada é também energia de criação. Porque é capaz de gerar a vida. A energia afetiva que despendemos é energia nutridora. Esse fôlego infinito significa que estamos constantemente doando criatividade e nutrição para a vida dos homens, abastecendo-os. Somos como geradores. Tenha certeza: eles não realizam um terço do trabalho emocional que realizamos, não passam o dia inteiro quebrando a cabeça para compreender nossos padrões psicológicos, não se dão desculpas do tipo “ela tem problemas com a mãe ou com o pai”. Não que não tenhamos o direito de desejar construir uma vida ao lado de alguém, mas viver à espera disso pode ser uma morte lenta. Não que não possamos estar agora em uma relação, mas quando ela terminar, é preciso ter um espaço seguro para o qual voltar e redescobrir o prazer de estar consigo. Até mesmo as relações ficam mais ricas quando mergulhamos nesse processo de libertação, porque entramos plenas para viver as novas trocas. Olho historicamente para esses milhões de geradores desperdiçados, pifando por trabalhar à exaustão, e penso: se eles foram brilhantes funcionando sob tais condições precárias, imagina quando operarem sob os cuidados merecidos, doando sua energia para aquilo que transformaria o mundo. O seu próprio mundo e o que divide com todos.

    Texto originalmente publicado por Maria Gabriela Saldanha no Medium

  • 18 motivos para usar coletor menstrual e ser livre, leve e solta

    Arte: Mídia NINJA

    Eu sempre tive uma gastura de menstruar. Cada mês era um sufoco. Eu nunca sabia direito como colocar o absorvente. Ora colocava mais pra frente, ora mais pra trás. Sempre vazava, sempre!  Não conseguia escolher direito qual era o melhor tipo. São tantos! Noturno, com abas, sem abas, extra, super fino, etc. Quanta opção! Ficava confusa. Era um desconforto sair de casa.

    Eu caminhava com a eterna sensação de estar sempre suja e fedendo. Pedia repetidamente para as amigas olharem se estava suja. Usar branco?! Jamais! E na hora de dormir, parecia uma enxurrada de sangue. Uma hemorragia. Acordar suja tinha virado rotina. Era mais um dos castigos que o divino tinha dado a nós mulheres.

    Até que descobri ‘um tal’ de coletor. Algumas amigas começaram a falar disso. Um copinho legal que colhe seu sangue e é isso e aquilo e é fantástico. Mas eu ainda estava cheia de preconceitos e receios. Eu não conseguia usar absorvente interno, imagine um coletor.

    Daí, um dia mexendo no Facebook, vi uma amiga vendendo coletor. Resolvi comprar. Uma compra no impulso. Eu não tinha certeza se teria coragem para usar. Comprei e usei. E de lá pra cá, há quase um ano, a minha relação com a menstruação é outra. É quase revolucionário. Então, queria compartilhar com vocês algumas coisas que mudaram a minha vida e de como é usar esse treco. Quero que vocês me ajudem a construir os tópicos e a tornar esse texto uma construção coletiva. Precisamos compartilhar mais essas coisas que nos deixam mais livres e seguras.

    1. Fluxo

    Eu sempre pensei que meu fluxo de sangue era muito. Os absorventes  sempre ficam cheios, pesado. Passei a usar os absorventes noturnos. Com o coletor tudo mostrou-se diferente. O fluxo é bem menor do que parece. É óbvio que varia de mulher para mulher, mas ele é sempre menor do que aparenta no absorvente.

    2. Como colocar

    Com o tempo você vai descobrindo a forma que deixa você mais confortável. Hoje eu coloco ele em pé. Mas no começo, eu sentava no vaso e ali colocava. O primeiro mês, período de adaptação, foi caos. Fica como medo de colocar o bagulho errado. Dele se perder dentro de mim e essas paranóias todas que pensamos. Com o tempo você vê que é tudo tão de boaaaaaaaaa. Se joga amiga! Dobra ele. Faz um trouxinha. Arreganha as pernas e enfia o coletor. Eu costumo colocar até meu dedo indicador todo entrar, tipo absorvente interno, mas, mais uma vez, você vai se adaptando com o tempo, entendendo seu corpo, e tudo vai ser perfeito.

    3. Vaza?

    Como eu tinha medo, no meu primeiro mês eu não colocava certo e vazou um pouco. Hoje não vaza nada. Minha vagina já está pronta para recebê-lo. Faço academia, ballet, uso saia, roupa branca… parece sonho. Estou sempre limpa.

    A sensação é igual daquelas propagandas de absorvente…livre, leve e solta!

    4. E o cabinho, corta?

    Eu não cortei o meu. Ele está lá. Tem mana que corta. Preferi não. Ele não me incomoda e me ajuda na hora de tirar. Tem meninas que viram o copinho e usam com o cabo para dentro. Bom, testa o primeiro mês com cabinho. Se não curtir, ou incomodar, corta.

    5. Como tira?

    Enfia seus dois dedos. Aperta ele um pouco, solta o ar e puxa. Faz isso no vaso ou no local de tomar banho. Isso indica as instruções. Mas, como disse e insisto, você vai descobrindo a melhor forma para você. Eu, por exemplo, puxo pelo cabinho e pronto. Sai lindo e sem derramar nada. Das duas formas faz um barulhinho.

    6. Posso dormir com ele?

    Podeeeeeeee. Você terá seus melhores sonhos.

    7. Quanto tempo posso ficar com ele dentro?

    Até 12h é o indicado. Você terá que observar seu fluxo para ajustar isso.

    8. E a higienização dele?

    Eu compro sabonete neutro e lavo sempre que tiro durante o ciclo. Tem meninas que só passam água. Eu prefiro passar um sabonetezinho. Quando termina o ciclo escalda ele. Deixa secar e guarda no saquinho. Quando for o mês seguinte, lava com sabonte e usa de novo.

    10. A cor do copinho

    Eu uso o transparente. Agora ele não é mais transparente. Fica um pouco amarelado com o tempo. Não sei quimicamente explicar os motivos. Se souberem falem aí nos comentários para aprendermos juntas.

    11. Quando devo trocar o coletor?

    Depende da marca. Em geral de 3 em 3 anos.

    12. E o cheiro?

    Pasmem! O cheiro é muito diferente. Na verdade não tem cheiro. Lembro que na primeira vez eu pegava o coletor e ficava cheirando e nada. Nesse momento eu me apaixonei pela menstruação. Pelo meu sangue. Pelo meu corpo. Sai andando pela casa com o coletor cheio mostrando para minha mãe e irmã como aquilo era fantástico.

    13. O nosso sangue serve como adubo?

    Sim, tem meninas que jogam o sangue no vaso das plantinhas para alimentá-las.

    14. Quanto custa o coletor?

    80 reais. Mas sempre faça uma boa pesquisa. Rola umas promoções legais.

    15. Qual marca usar?

    Eu usei só uma até agora. Acho que não tem muita diferença. Vocês podiam colocar nos comentários quais vocês usam para irmos montando opiniões!

    Eu uso Inciclo. E basicamente gosto porquê é transparente e gosto de ver meu sangue 🙂

    16. Como é na hora de fazer xixi e cocô?

    Ah manas, é tranquilo. Quando você fizer uma forcinha (haha) ele vai descer um pouco, mas quando terminar ele volta ao seu local.

    17. É pessoal e intransferível

     

    18. E para transar?

    Nunca transei (penetração e oral) com ele, haha. Também não conheço ninguém que tenha feito. Rola brincar um pouco, masturbar. Mas compartilhem aí se vocês já tiveram experiências desse tipo! haha.

    Texto originalmente publicado por Laryssa Sampaio na Mídia NINJA

  • Prêmio Viva o Seu Sonho dá bolsas de estudo para mulheres

    O Prêmio Viva o Seu Sonhobolsas de estudo para mulheres que são chefes de família e que precisam de recursos para melhorar o seu nível educacional. O programa disponibiliza anualmente um total de mais de 1,5 milhões de dólares em subsídios.

    As bolsas de estudo para mulheres são voltadas a mães que tenham baixa renda e estejam cursando ou tenham sido aceitas em um curso de graduação ou em treinamento profissional. A necessidade financeira deverá ser demonstrada pela candidata. Para concorrer à ajuda do programa, é preciso ser residente de países membros da Soroptimista Internacional das Américas – do qual o Brasil faz parte. Não há restrições quanto ao país onde a bolsista irá cursar a faculdade.

    Como funciona o programa de bolsas de estudo para mulheres

    Existem três tipos de bolsas: 3 mil dólares, 5 mil dólares ou 10 mil dólares. O prêmio em dinheiro pode ser usado para arcar com quaisquer custos associados aos esforços das selecionadas para alcançar um nível educacional mais alto. A grande vantagem é que ele pode ser combinado com outra bolsa (da universidade, por exemplo) e usado para pagar outras despesas, inclusive com os filhos.

    A inscrição para concorrer às bolsas de estudo para mulheres é online e vai até o dia 15 de novembro. Além de preencher um formulário com suas informações (pessoais e sobre renda), a candidata precisa de duas pessoas para completar o formulário de referências. A interessada também deverá escrever um texto de até 750 palavras sobre os desafios que ela enfrentou e como o prêmio a ajudaria a viver o seu sonho.

    O prêmio Viva o Seu Sonho existe desde 1972 e já distribuiu cerca de 30 milhões de dólares para ajudar milhares de mulheres a alcançar seus objetivos e terem uma vida melhor.

    Veja mais informações sobre o programa
    Acesse o passo a passo e inscreva-se
    Veja as respostas para as dúvidas frequentes

    Texto originalmente publicado por Jaqueline Crestani no blog Partiu Intercâmbio

  • Histórico: Universidade Federal de Goiás forma a primeira doutora surda

    Fotos: Adriana Silva/UFG

    Neste ano, mais um passo à frente foi dado em prol da acessibilidade. A Universidade Federal de Goiás formou a primeira doutora surda na história da instituição. A economista e gestora governamental Elcileni de Melo Borges, de 45 anos, apresentou uma tese sobre as mudanças urbanas do Estado nos últimos 11 anos.

    Integrante da equipe do Observatório das Metrópoles, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, ela tem bastante experiência em estudos urbanos e habitacionais. O trabalho apresentado, “Habitação e Metrópole: transformações recentes na dinâmica urbana de Goiânia”, teve pesquisas feitas em sete municípios locais para identificar os impactos na reconfiguração urbana da metrópole goianiense entre 2005 e 2016. “Foi quando se viu aflorar uma nova periferia e novos padrões de segregação residencial e socioespacial”, justificou ela, em comunicado da UFG.

    A surdez da doutoranda surgiu aos 27 anos, após a descoberta de um tumor no nervo auditivo. Depois de passar por uma cirurgia, ficou com deficiência auditiva bilateral. Inserida no Programa de Pós-Graduação em Geografia do Instituto de Estudos Socioambientais (PPGeo/Iesa), a pesquisadora frequentou as atividades durante quatro anos e teve uma mãozinha amiga para ajudar na conclusão dos estudos.

    Fotos: Adriana Silva/UFG

    Uma aluna ouvinte transcrevia simultaneamente o que era dito em sala de aula, presencial ou virtual, para que Elcileni acompanhasse. Segundo comunicado da Universidade, a alternativa deu bons resultados. “Usando a plataforma Google Docs, eu conseguia ler de forma instantânea. Era como se fosse um ‘closed caption’. Com isso, obtive aproveitamento suficiente em todas as disciplinas, disse a doutora.

    A comunicação entre a banca e a aluna durante defesa da tese também aconteceu por meio de plataformas multimídia, incluindo até mesmo a participação de professores de São Paulo e Portugal. Ela é a segunda pessoa surda a se formar na pós-graduação da UFG. A primeira foi Renata Garcia, que concluiu Mestrado em Ciências da Saúde em 2016.

    Elcileni afirmou ainda que a tecnologia foi de grande valia até mesmo para seu lado pessoal, aumentando sua segurança e confiança. A experiência prática me ajudou a vencer o medo de me expor ao público e me possibilitou o contato com o instrumental e a temática da pesquisa, dando maior segurança para realizar apresentações orais em seminários nacionais e até internacionais – como por exemplo, o estágio doutoral realizado no Instituto de Geografia e Ordenamento Territorial – IGOT, da Universidade de Lisboa”.

    Com força de vontade, recursos tecnológicos e bons parceiros de estudos, a gente pode chegar longe, não é?

    Texto originalmente publicado por Brunella Nunes no site Razões Para Acreditar

  • “Coitado do homem que casar com você”

    Ontem eu mandei um homem se calar pra eu terminar de falar. A resposta dele foi imediata: “Noooossa! Ela é mandona. Coitado do homem que casar com você.”

    Bem, eu sou casada. Com um homem. Há 5 anos. Eu não conto casamento a partir do civil, mas a partir de quando ele se mudou pra minha kitnet e a gente carregou juntos os móveis dele pro meu barraco pela rua, rindo e tropeçando, com a ajuda de alguns amigos. Naquele dia eu casei. No civil fazem 3 anos.

    Uma vez perguntaram pra ele como é casar com uma feminista e ele não soube responder porque pra gente parece muito normal. A ideia que as pessoas fazem das feministas é muito confusa. É como se eu fosse fazer o “papel do homem” e ele, para haver equilíbrio, tivesse que fazer o “papel da mulher. Eu deveria bater nele quando ele não me obedecesse, eu deveria dar ordens, eu jamais deveria cozinhar, eu jamais deveria lavar uma roupa dele, eu deveria me negar a tudo o tempo todo. Eu deveria estuprá-lo quando ele não quisesse transar.

    A verdade é que as coisas não acontecem assim, nem o contrário disso. Se eu tiver com a mão na massa eu do um grito do quintal pra ele trazer aquela meia pra eu lavar logo. Se ele tiver com a mão na massa ele lava uma calcinha. Eu acordo mais cedo e faço pão com ovo, levo na cama. Se eu preciso terminar aquele trabalho da faculdade eu levanto os pés no sofá e ele limpa a casa sozinho. Eu odeio lavar louça então sempre é ele que lava, mas por vezes ele está estudando e eu lavo, porque… porque não custa nada.

    Quando ele é machista eu dou uma olhada torta sim e a gente senta e conversa. Pergunto se ele perdeu a cabeça e ele acha rapidinho. Nunca gritamos um com outro. Nunca, jamais por briga nenhuma dormimos separados. Se ele quer transar e eu não eu digo: “Coitado! Vai dormir tarado!” A gente ri e dorme de conchinha.

    Eu poderia fazer um livro com uma lista de coisas que fazemos ou não fazemos que fazem de nós, mesmo sendo um casal hétero, o oposto do que seria a família tradicional brasileira. Ou do que seria um casamento “normal”. Sobre “como é casar com uma feminista” é simples. Eu não tenho nenhuma obrigação por ser mulher, ele não tem nenhuma obrigação por ser homem. Temos igualitariamente a obrigação de não sermos babacas ou submissos um ao outro.

    Então assim, eu perguntei pra ele se ele se acha um coitado por ser casado com uma feminista. A resposta foi que não. Ele disse que tá muito feliz, obrigado.

    Texto originalmente publicado por Roberta Dominici no Facebook

  • Por que estas mulheres protestaram pela retirada da estátua do “pai da ginecologia moderna” no Central Park?

    Foto: DailyNews

    Neste fim de semana, mulheres negras e ativistas de Nova York foram às ruas protestar pela retirada da estátua do médico J. Marion Sims. Localizada no Central Park, o monumento homenageia o homem que foi considerado “pai da ginecologia moderna” e atuou nos EUA na metade do século XIX. O problema é que Sims realizava seus experimentos científicos com mulheres negras escravizadas, usadas como “cobaias” de suas experiências médicas – sem consentimento e sem anestesia.

    De acordo com o Núcleo de Direitos Humanos da Unisinos, a cirurgia de reparação de fístula urogenital criada por Sims foi “testada” em escravas que sofriam da doença:

    “Os procedimentos eram brutais e doloridos. O médico operou mulheres negras por mais de quatro anos sem a utilização de anestesia, em um ambiente com condições anti-sépticas inadequadas. Uma destas mulheres foi operada pelo menos trinta vezes, todas sem a utilização de qualquer método que inibisse a dor, muito embora este tipo de medicação já existisse na época.” 

    Seshat Mack, uma das manifestantes presentes no ato do domingo, relatou ao Daily News que “na melhor das hipóteses, J. Marion Sims era um homem racista que explorou a instituição do racismo para seu próprio ganho”. Rossana Mercedes, outra ativista da manifestação, defende que a ideia de materializar imperialistas donos de escravos, assassinos e torturadores é uma forma de supremacia branca, e não uma “homenagem”.

    As verdadeiras mães da ginecologia moderna

    Ilustração do Dr. J. Marion Sims com Anarcha, por Robert Thom. (Pearson Museum, Southern Illinois University School of Medicine)

    Vanessa Gamble, historiadora da Universidade George Washington (USA), acredita o médico contribuiu para que a cirurgia de reparação da fístula urogenital ajudasse mulheres hoje em dia, mas a forma com que ele praticou essa técnica não pode ser ignorada ou esquecida. “É parte do problema ele ser lembrado pela sua contribuição, mas não ser falado como ela aconteceu”, disse Gamble no podcast Hidden Brain.

    Hoje, ela tenta resgatar a história de Anarcha, Lucy e Betsey, três das mulheres negras escravizadas e operadas por Sims (as únicas que ele registrou os nomes em seus escritos). “Essas mulheres eram vistas como propriedade. Elas não podiam consentir”, conta Gamble.

    Na entrevista, a pesquisadora conta que Anarcha tinha 17 anos e havia passado por um parto muito traumático. Algumas fontes dizem que ela passou três dias em trabalho de parto. Mesmo assim, chegou a ser operada 30 vezes por Sims. Segundo Vanessa, Sims relatou em seus escritos como Lucy quase morreu e chorava de dor por conta das cirurgias, que eram feitas sem anestesia. “A dor delas era ignorada, por se acreditar que elas eram mais resistentes”, diz Vanessa. Ela também lembra que as mulheres brancas que eram tratadas por Sims recebiam anestesia.

    A historiadora relata como essa prática do passado acarretou em consequências no presente: até hoje, pessoas negras (em especial mulheres) recebem menos anestesia em comparação às pessoas brancas, pois ainda há quem acredite que elas possuem mais resistência à dor. No Brasil, não é diferente: Lúcia Xavier, da ONG Crioula, relatou ao Núcleo de Direitos Humanos da Unisinos que as mulheres negras daqui também não estão sendo acolhidas corretamente pela medicina, e que muitas relatam como os médicos sequer lhes tocam – o que atrapalha na prevenção de doenças como câncer:

    “Elas acabam recebendo menos anestesia, porque se acredita que as mulheres negras seguram mais a dor. Então, a seleção de quem vai receber uma medicação, independente de ser uma prescrição, tem a ver também com o olhar que se tem sobre a mulher negra. […] Os exames que são necessários acabam não acontecendo, porque há nojo e desprezo pela pessoa”, conta Lúcia.

    Sobre os monumentos que homenageiam o médico ao redor dos EUA, Gamble enfatiza: “Quando vejo essas estátuas e memoriais do Sims, o que eu realmente enxergo é o que não foi contado”, relembrando que além da estátua do Central Park, Sims também é homenageado no Alabama e na Carolina do Sul – enquanto nada é falado sobre Anarcha, Lucy e Betsey. “As vozes dessas mulheres estão em falta na história”, ressalta a historiadora.

    Texto escrito por Lara Ximenes com informações traduzidas livremente do podcast Hidden Brain, da Daily News e da matéria (In)Visibilidade Negra, escrita por Ana Patrícia Wisniewski, do Núcleo de Direitos Humanos da Unisinos (Universidade do Vale do Rio Sinos).

  • Manifesto definitivo de uma mulher que não quer ser mãe

    Para escrever um manifesto sobre as mulheres que não querem ser mães, é preciso falar sobre maternidade compulsória. Vivemos em um sociedade que prega o desejo de ser mãe como norma imposta a todas, e, por conta disso, há uma infinidade de mulheres que escolheram ser mães sem terem uma base concreta da realidade da maternidade. No entanto, acredito que justamente por isso o tema precisa ser pautado.

    Nossa construção social impõe a reprodução como algo que visa complementar a mulher, como algo que irá trazer a felicidade e a maturidade. A romantização da maternidade é cruel, já que não há um debate honesto sobre as consequências dela na vida das mulheres. Entretanto, não vou me alongar sobre o assunto, pois acredito que outras podem falar melhor sobre este assunto que eu.

    O que precisa ser destacado em relação a esse tema é que sair dessa norma da maternidade compulsória e ser uma mulher que não quer ter filhos, pode ser algo difícil. Optar por não ser mãe requer uma dose de auto-conhecimento e de desconstrução do que nos é ensinado desde meninas, ou seja, a partir do momento que ganhamos nossa primeira boneca e temos que aprender a “cuidar” dela.

    Além disso, sair da normatização requer muita confiança, pois somos taxadas. Quando apresentamos nossa decisão, somos bombardeadas por frases como: “Mas uma hora o relógio biológico toca”, “Mas você é muito nova para dizer isso”, “Quando ficar mais velha, vai mudar de ideia”. Parece ser algo impossível para a sociedade entender que temos plena consciência na nossa decisão.

    Para muitas, essa não é uma escolha pensada do dia para noite. Pessoalmente, o meu processo foi longo. Eu analisei todos os lados e cheguei à conclusão de que simplesmente não tenho condições emocionais, além disso tenho outras prioridades para o meu futuro e, portanto, não quero ter filhos. Mesmo justificando todos esses fatos – o que não deveria ser necessário -, a compreensão dessa escolha pelos outros parece uma tarefa ainda árdua.

    Como se não bastasse duvidar da decisão, a sociedade também já tem um estereótipo pronto para o futuro das mulheres que não querem ser mães. Temos que ouvir: “Vai ficar velha e sozinha”, “Vai ser a tia dos gatos”, “Vai morrer sozinha”. São previsões totalmente errôneas, uma vez que mulheres que não tiveram filhos podem estar, sim, muito bem, cuidando de si mesmas, construindo ou progredindo em suas carreiras, aprendendo a se conhecer. Enfim, são infinidades de possibilidades.

    No entanto, nenhuma dessas boas possibilidades parecem existir para a sociedade. E por isso temos que lidar sozinhas com as nossas escolhas. Nossa decisão ainda tem outra consequência, que é a falta de representatividade. Procuramos em livros, filmes e novelas pelas mulheres que, como nós, optaram por não ter filhos, e parece que elas não existem – ou quando existem são representadas como mal amadas, frias ou as tias tristes que cuidam do filho dos outros.

    Nós, mulheres, não temos o direito legal de decidir se queremos ou não ter um filho quando engravidamos, e quando fazemos a escolha de tomar todas as medidas possíveis para que isso não ocorra, somos desacreditadas. Dito isso, finalizo deixando o grito de todas as mulheres que não querem ser mães:

    SABEMOS O QUE QUEREMOS!

    Parem de duvidar da nossa capacidade de escolha e aprendam a nós respeitar!

    Texto originalmente publicado por Nathalia Marques no site Lado M

  • Para quem conhece quem tem ansiedade

    Foto: Henn Kim

    Este é um texto importante pra mim, porque é dedicado às pessoas que não têm ansiedade, mas conhecem quem tenha e desejam ajudá-las e entendê-las melhor.

    É difícil entender quem tem ansiedade quando você nunca sentiu isso na vida. Não faz sentido por que a pessoa fica pensando em várias besteiras quando simplesmente é mais fácil não pensá-las, quando ela poderia só ter calma e não se preocupar tanto. É só não fazer isso, certo? Errado.

    A primeira coisa que você deve saber é que a gente não queria ser/estar assim. Queria muito não se preocupar tanto, ficar calmo e não ser desesperado. E olha, a gente tenta pra cacete não chegar aos níveis extremos… Então, por favor, entenda que a gente batalha todos os dias com a gente mesmo, mas tem hora que não dá.

    A gente precisa de respeito e espaço. Numa crise, esteja por perto sempre e seja solícito, mas sem forçar nenhum comportamento. Como cada crise vem de um jeito, em cada uma temos uma maneira de lidar: às vezes desabafando, às vezes ficando quieto, às vezes sozinho, às vezes na companhia de alguém. Não adianta forçar perguntar o que tá acontecendo, exigir respostas… a pessoa só vai dizer se quiser. Talvez ela não queira falar nada, talvez não saiba o que dizer, ou nem entenda o que tá passando ali. Por favor, deixa a pessoa falar se quiser falar, no tempo que ela precisar levar pra isso.

    Nem sempre tem um motivo, então não se preocupa se para isso não houver resposta. Quando o gatilho é mais declarado e a pessoa se sentir confortável para conversar sobre ele, pode ser uma boa ideia mostrar para ela saídas e oferecer um conforto. Sabendo a origem às vezes é mais fácil conseguir fazer com que ela se acalme. Mas também, se não der certo, entenda que é assim mesmo, e ela vai precisar levar o tempo que for. Ansiedade é sobre o tempo da pessoa, não sobre o quanto você tem de paciência pra ficar ao lado dela. Aliás, se for pra se estressar e piorar a situação, nem chegue perto.

    Não menospreze a dor de um ansioso. Nem a dor de ninguém. A gente não sabe como ou porquê dói na pessoa, mas se ela tá sentindo o que sente, é porque pra ela importa — e isso é tudo. Às vezes pode parecer a coisa mais estúpida desse mundo, mas é a coisa estúpida que importa pra ela. E talvez não tenha sido essa coisa boba que tenha engatilhado uma crise ou surto, às vezes há uma série de fatores anteriores que ela vem conseguindo guardar e suportar, que essa coisinha boba é o “eu não aguento mais” dela. Respeite.

    Não fica chateado se não conseguir alcançar a pessoa. Alguns tem uma dificuldade enorme em se abrir, em procurar ajuda. A gente fica se sabotando o tempo inteiro, a gente acha que ninguém quer nos ouvir ou cuidar dos nossos problemas. Podemos nos sentir um peso, e pensar que as pessoas já têm problemas demais e não precisam dos nossos. Se é o caso, vai com calma, um passo de cada vez até chegar até a pessoa. Ela não tá desconfiando de você (e se estiver não é culpa sua, nem dela)… Mas a gente tem muito medo… de tudo.

    E se você estiver ao lado da pessoa, com todo amor e carinho e mesmo assim não funcionar, não é culpa sua e nem da pessoa. Tem hora que não dá. Tem vezes que são mais fáceis de lidar com a ansiedade e outras que não são. Cada um leva um determinado tempo, e algumas só melhoram com a própria pessoa lidando com ela. Imagino que se você está aqui lendo este texto por causa de alguém que gosta, é porque não quer ver essa pessoa mal… Mas olha, por mais que queira batalhar com ela, você não pode batalhar por ela.

    Não vai ser sua culpa se ela te afastar. Dê espaço, o quanto for, o quanto ela precisar. Esteja ao lado dela quando voltar, quando decidir internamente que é hora de compartilhar… Quando quiser esquecer do momento que ela passou. Não é pra ficar bravo se ela não quiser dizer, tenha um pouco de paciência.

    Não é culpa de ninguém. Não deixe que a pessoa se isole, no sentido de que sinta que não tem ninguém no mundo por ela. Deixe-a saber que por mais que ela queira ficar sozinha, você vai estar ali se ela precisar de algo.

    Ah… e por mais que não lembremos de agradecer, por mais que a gente não diga nada, saber que tem alguém conosco faz uma diferença absurda.

    Você é incrível por querer entender melhor como funciona a cabeça de quem você gosta. É maravilhoso que você pesquise mais e se esforce para ajudar alguém. Lembre-se disso!

    Acho que por fim, e não só nestes casos, como em todos os outros nessa vida: tenha empatia. Amor ajuda tudo, cura tudo, assim como o perdão e a confiança. Estabeleça diálogos claros, abertos e francos. Precisamos de mais relações nas quais temos liberdade para sermos quem somos, mesmo que isso exija mais esforço.

    Temos que crescer juntos, buscar maneiras de fazer dar certo. Se a ansiedade parece que afasta as pessoas de ti, busque maneiras de aproximação, sempre tem um jeito — nem que a gente precise inventá-lo.

    Conhecer o outro e conhecer a si mesmo é o começo para buscar crescimento.

    Texto originalmente publicado por Mariana Alvares na Revista Subjetiva.

  • Uma solução prática para lidar com a raiva no ambiente familiar

    – Miguel, tô ficando nervosa. Vou pro quarto. Quando você quiser conversar comigo, me fale. Não vou ser tratada com grosseria.

    Levantei e saí. Ele estava contrariado por uma negativa minha e se pôs a me chamar de boba e falar em um tom grosseiro. Dormi mal, sabia que a minha tolerância estava bem baixa. Nesses dias o meu foco é me manter consciente e não me perder nas histórias que conto em minha cabeça. “Em caso de despressurização, primeiro coloque a sua máscara, depois ajude a quem precisa…”

    Me fechei no quarto enquanto ele batia na porta, ainda nervoso. Ao notar que eu não ia abrir, me chamou com um tom mais calmo.

    – Mãe, abre… Eu quero conversar com você. Por favor.
    – Diga, filho…
    – Eu tava bravo. Você não deixou tirar foto no celular.
    – Foi, e te expliquei o motivo. Tudo bem ficar com raiva filho, o problema é o que a gente faz com ela. Eu estava com raiva e dei um tempo. Quando a gente tá muito bravo não consegue pensar direito, e fala coisas que machucam. É importante se acalmar pra pensar nas soluções. É difícil encontrar solução com muita raiva.

    – Eu sei, mãe. É que eu esqueço, sabe? Eu sei que é pra afastar, pra respirar. Mas na hora eu não consigo lembrar o que fazer, aí fico brigando com você.
    – E como você acha que a mamãe pode te ajudar?
    – Eu queria algo pra eu lembrar…
    – Vamos fazer o nosso cantinho da calma? Que tal? Você e sua irmã escolhem um lugar e a gente coloca lá só coisas que acalmam e ajudam. E todo mundo da família pode ir quando estiver bravo, pra recuperar a paz pra conversar. Quer?
    – Vamos, mãe! Eu quero!

    Escolheram um cantinho no meu quarto, onde eles tem livre acesso. Colocaram os livros “Eu te amo” e “O mundo inteiro”, porque, segundo Miguel, quando o coração enche de amor a raiva escorre e vai embora. Colocamos almofadas, bichinhos de pelúcia, um caderninho e lápis. Na parede colamos desenhos que nos acalmam. O pai desenhou uma praia, Miguel um coração com a casa e a família dentro, eu uma frase, e a Helena uma vaca.

    Foto: Elisama Santos

    – Mãe, como escreve respira?

    Soletramos juntos, e no desenho, ao lado do coração, ele escreveu um “respira.”

    – Pra lembrar de respirar em vez de brigar, né, mãe? Assim eu não esqueço. Esse cantinho vai encher o coração de amor e alegria!

    A caçula me disse que quando ficar nervosa quer que eu a abrace e cante a música do “baby”. Sim, bater e gritar poderia reprimir o comportamento, mas esse aprendizado sobre eles mesmos, sobre seus sentimentos, sobre cuidar do próprio sentir, sobre cuidar dos relacionamentos…ah, esse só se aprende assim, na conversa e na troca. O nosso cantinho da calma é pequeno, simples…mas tem tanto cuidado, carinho e amor em cada detalhe que é, sem dúvidas, o lugar perfeito pra “raiva escorrer e ir embora.”

    Me perguntam como é possível educar sem palmadas. Esses momentos… são esses momentos que me fazem ter certeza que esse é o meu caminho. E entre uns tapas e gritos e o cantinho da calma, não tenho dúvidas de qual desenvolve mais habilidades e consciência. Também não tenho dúvidas de qual enche o coração de amor e alegria.

    Entre a punição e as soluções, ficamos com as segundas.

    Texto originalmente publicado pela escritora Elisama Santos em sua página do Facebook Tudo Eu por Elisama Santos

  • Em memória de Heather Heyer, vítima do ódio

    “Sem espaço para o ódio” (Foto: CNN)

    Neste sábado, a cidade Charlottesville, do estado da Virginia, nos Estados Unidos, foi palco de uma manifestação de ódio por grupos racistas de extrema direita, autoproclamados neo-nazistas, com tochas e bandeiras dos estados confederados. O que motivou o “protesto” foi a decisão das autoridades locais em remover a estátua que homenageava o líder confederado Gen. Robert E. Lee, no parque que recebia seu nome e hoje se chama Parque da Emancipação. Segundo o jornalista Jamelle Bouie, do Slate, a estátua é considerada “um objeto que ancora propaganda racista na geografia da cidade”.

    Para quem não sabe, os Estados Confederados da América foram uma união política de seis estados do Sul dos Estados Unidos (Carolina do Sul, Flórida, Alabama, Louisiana, Mississipi e Geórgia. Texas se juntou à eles algum tempo depois), que eram contra a abolição do escravismo. Por mais surreal que pareça, ainda há quem se orgulhe dessa parte da história a ponto de ir marchar por estátuas que a representam. Protegidos pela primeira emenda da constituição americana, que ainda vê discursos de ódio como “liberdade de expressão”, esses homens brancos, racistas e declaradamente nazistas que vieram de várias partes do país chocaram o mundo no último final de semana.

    Como toda manifestação de ódio, esta também encontrou uma resistência. Vários grupos sociais da Virgínia foram ao centro da cidade se colocar contra os supremacistas brancos. Entre eles, Heather Heyer, 32 anos. Ela trabalhava na área da justiça como paralegal (ou “consultora jurídica”, profissional que ajuda advogados em seus trabalhos diários) e queria mandar uma mensagem clara contra os neo-nazistas e simpatizantes da Ku Klux Klan que planejavam a manifestação de extrema-direita.

    Infelizmente, Heather foi morta por um dos “manifestantes” de Ohio. Com um carro, James Fields, de 20 anos, atropelou um grupo que marchava contra os supremacistas brancos. Além de matar Heather, também deixou pelo menos 19 pessoas feridas. Ele já se apresentou à justiça e teve pedido de fiança negado.

    Segundo a Reuters, que entrevistou o chefe de Heather, ela tinha um grande senso de justiça social, tema constante em sua vida pessoal e profissional. Seu chefe, Aldred Wilson, trabalhou com ela por mais de cinco anos na firma de advocacia Miller Law Group. “Em alguns momentos eu a via trabalhar com lágrimas nos olhos diante das injustiças que via no mundo”, afirmou Wilson à Reuters. “Ela ficava triste lendo comentários de notícias on-line contra muçulmanos ”, completou.

    Para ele, Heather era uma jovem muito forte, com opiniões bem formadas, que deixou claro durante a vida que era totalmente a favor da igualdade. Heather apoiou a candidatura de Bernie Sanders, que concorreu com Hillary Clinton pela nominação presidencial do Partido Democrata.

    “Roxo era sua cor favorita”, disse Wilson, relembrando que Heather dividia seu apartamento duplex com uma chihuahua de estimação chamada Violet. “Ela adorava usar roxo, e o faria todo dia se pudesse”, lembra o então chefe de Heather.

    Nascida em Charlottesville, onde fica o principal campus da Universidade de Virginia, Heather formou-se na William Monroe High School em Stanardsville e teve grande parte da sua vida dedicada ao trabalho, onde juridicamente evitava que pessoas fossem despejadas de suas casas, as ajudava quando precisavam pagar dívidas médicas ou recuperar seus carros.

    Foto de Heather no GoFundMe, em campanha de financiamento coletivo para ajudar sua família após a tragédia, que já arrecadou mais de U$200mil .

    Wilson lembra que Heather, mulher branca, afirmava como era injusto ela gozar de direitos e liberdades que seu chefe, um homem negro, não podia. “Ela me dizia: Mesmo sendo graduado numa universidade, você poderia facilmente ser seguido por seguranças desconfiados numa loja, e isso não é justo”, relembra o chefe do departamento de falências da Miller Law Group.

    Ele também falou à Reuters que Heather era fortemente contra o presidente Donald Trump, e que falava abertamente contra Jason Kessler, o blogueiro que organizou o comício da “União da Direita” no fatídico sábado. “Uma coisa que incomodava Heather era essa eleição passada. Ela literalmente chorava de preocupação pelos possíveis rumos do país”, finalizou Wilson.

    Em memória de Heather e de tantas outras e outros que, assim como ela, tiveram um final trágico lutando pela defesa de direitos humanos, vale lembrar mais uma vez que liberdade de expressão alguma deve validar discursos de ódio.

    Ver os símbolos do nazismo empunhados por homens que sequer cobrem seus rostos só prova como essas pessoas não têm vergonha de expressarem esses ideais de ódio, pois historicamente seus privilégios lhes garantem sair ilesos pelas ruas sem qualquer tipo de opressão.

    Muito se fala em ouvir os dois lados da história, mas é impossível fazer isso quando um dos lados defende o extermínio do outro. A história se prova cíclica quando a humanidade não aprende com seus erros, e é a partir daí que as minorias lutam e se tornam vigilantes de seus direitos. Enquanto viver como minoria for ter seus direitos ameaçados constantemente, haverá resistência.

    Texto escrito por Lara Ximenes com informações traduzidas livremente da matéria “Victim in Virginia melee wept for social justice, her boss says“, escrita pelo jornalista Bernie Woodall, da Reuters.

  • Pelo direito de desistir do que não faz mais sentido

    Foto: Pixabay

    A gente sempre ouve que não deve desistir dos nossos sonhos. Mas eu acho que, na verdade, o que não devemos é desistir antes tentar, desistir antes de arriscar, pois é claro que temos que lutar pelo que queremos. Mas e quando gente tenta, luta, e percebe que aquele sonho não é aquilo que a gente realmente queria?

    O que eu quero falar hoje é da possibilidade de poder desistir do que um dia foi sonho e hoje é só um reflexo da pessoa que fomos em outrora. O que um dia foi sonho, mas hoje não nos realiza, não nos movimenta nem dá sentido ou vontade de produzir.

    Por que será que isso acontece?

    Porque simplesmente não somos a mesma pessoa durante todas as fases da nossa vida. O sonho aos 15 anos pode não ser o mesmo que queremos aos 25. Ninguém escapa da passagem de tempo – ainda bem. Já pensou ter a mesma cabeça para sempre? A gente fica tão preso ao sonho do passado que esquece que a vida é movimento, fluidez. É isso que nos realiza e nos faz sentir inteligentes, bem sucedidos, felizes.

    Se a gente muda nossos ideais, nossas referências, nossas ideias sobre o mundo, por que não mudaríamos de sonho? Sem falar que muitos sonhos são frutos da expectativa da sociedade e de padrões introjetados em nós desde muito cedo por familiares, amigos ou mídia.

    Muitas vezes carregamos sonhos que não são mais nossos, visto que já não somos os mesmos. Muitas vezes precisamos desistir porque percebemos que estávamos vivendo o sonho dos outros, porque internalizamos que se é bom pro outro, seria bom para nós também. Seja uma faculdade, um relacionamento, um emprego: muitas vezes esse sonho antigo é mais peso do que realização.

    A vida escapa do plano das ideias e, quando menos esperamos, nossas metas mudam conosco, porque tomamos conhecimento de quem realmente somos naquele processo de transformação chamado vida. Por isso, se conhecer é um desafio. E pode ser assustador, mas muito mais interessante e revelador do que viver para sempre com as mesmas convicções do mundo.

    E agora?

    O fim de um sonho pode, com o tempo, virar o nascimento de outro(s). A morte do sonho passado abre portas para que você conheça uma infinidade de possibilidades para sonhos que condizem com quem você é agora. Nada disso é regra. Só desejo que as pessoas parem de se sentir culpadas por desistirem de sonhos antigos.

    Tudo bem desistir quando esse sonho já morreu junto com a antiga versão de si que um dia você foi. Você não é obrigado a carregar algo que não mais acredita. Ninguém deveria ser. E é por isso que as pessoas mudam de emprego, mudam de profissão, de cidade, de ideologia, de estilo. Se não te dá sentido, não faz sua vida se movimentar, mude! O passado é uma roupa que não nos serve mais, já dizia Belchior.

    Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

  • Como é ser vegana e favelada?

    Hoje eu vim falar de um assunto que queria falar a muito tempo. Sempre falo sobre esse assunto, mas eu sinto que na maioria das vezes nunca digo tudo o que eu queria dizer.
    Parece que a discussão fica incompleta, que faltou algo.

    Afinal, como é ser vegana, e ser favelada? Como é ser vegano pobre? É possível? É difícil? As pessoas sempre perguntam.


    Elas não possuem o mesmo significado.
    Quando eu digo que o veganismo é elitista, é uma verdade. Quando digo que o veganismo é caro, é uma mentira.
    Vamos ver isso melhor…
    Ser vegano tá longe de ser caro. Veganismo é uma ideologia ética e política na qual você faz o teu possível pra não causar nenhuma crueldade aos animais. Então nós veganos não comemos animais, não vestimos animais, não usamos produtos testados em animais, e por aí vai.
    Mas desde quando vegetais são caros?  Até onde eu sei, o kg da batata é bem mais barato que o kg da carne. Então nas compras do mês quem é vegetariano faz economia. Pra vestir, até onde sei, jaqueta de couro animal é mais caro que couro sintético, então outra coisa que não é nenhum problema, certo? A parte que pode ficar mais complicada, é a de produtos de limpeza. Aqui na favela onde eu moro, por exemplo, a marca mais conhecida que não testa e que tem diversos produtos sem ingredientes de origem animal, é a Ypê. A Ypê aqui é caro. Eu não compro Ypê quando tô com pouco grana. Eu compro o sabão mais barato, limpo a bunda com o papel higiênico mais barato e escovo os dentes com a pasta de dente mais barata. Esse é o meu limite. Eu faço o meu possível pra causar o menor impacto possível aos animais. Infelizmente, não tenho condições de comprar produtos mais caros. A questão é que eu não sou menos vegana por causa disso. A minha luta, não vai deixar de acontecer, por eu não conseguir abraçar o mundo. Sou pobre, sou vegana e faço tudo que está ao meu alcance.
    Então não, ser vegano não é caro.
    Mas porque o veganismo é elitista?
    É elitista porque o acesso a informação sobre diversas coisas do mundo vegano não chega na periferia. É elitista porque mesmo não sendo caro o custo da comida, os lugares cobram caro por ela. Porque é criado um conceito que vegetariano é coisa de rico, e pessoas ricas sentem prazer em pagar caro. Por isso muitas vezes o vegetarianismo é associado a coisa de gente “fresca”, porque muito artista, por exemplo, é vegetariano pensando em saúde. E todos nós sabemos que cuidar da saúde é caro.
    Uma das coisas que mais me indagam aqui na favela é “nossa, mas não ia conseguir, tem que ter carne no prato pra ficar de pé”. As pessoas não pensam primeiro naquele x-tudo delícia que não iriam mais comer, elas pensam em “preciso ficar forte pra trabalhar”. A gente sabe que o paladar mexe muito com o ser humano, e que temos caprichos. Mas acredite, pra um morador de favela, sua maior preocupação é estar vivo.
    Quebrando esse tabu da saúde, chegamos em outro obstáculo: o status.
    Enquanto a Fátima Bernardes ficar sorrindo na TV fazendo propaganda de frango caipira e dizendo que na mesa dela tem, pobre também vai querer quando tiver grana.
    É possível fazer um trabalho de formiguinha? É possível, MAS..se as pessoas da classe alta começarem a propagar a ideia do que é o “luxo”, é um caminho bem mais fácil. Ainda que tenha esse conceito que só pessoas ricas que podem usufruir do vegetarianismo, a ostentação mais conhecida ainda é filé mignon e caviar, venhamos e convenhamos.
    Eu converso muito com pessoas daqui, e elas vão entendendo muitas coisas, pessoas pobres não são ignorantes, não confundam as coisas. Mas existe muitos fatores, que antes de tu apontar esse teu dedo branco você deveria refletir.
    Existem os casos de hierarquia clássica, onde o homem sai pra trabalhar, e é a mulher que fica em casa, faxinando, cuidando dos filhos, cozinhando.. e se ela ousar fazer comida vegetariana pro jantar, quando o marido chegar do trabalho cansado pode causar até agressão.
    Existem os casos de pessoas que sempre tiveram pouco durante uma longa jornada de suas vidas, e tudo que elas querem agora é encher a pança de carne, porque ela sabe o que é estar na pior.
    E existem pessoas que recebem doação, e sendo assim não é possível controlar os alimentos que consomem. Se a pessoa recebe arroz e salsicha pra comer no dia, não dá pra comer só arroz.
    Esses exemplos é mais direcionado aqueles veganos que acham que qualquer um pode ser vegetariano “basta querer”. Não migo, não é assim que a banda toca.
    Mas é claro que o contrário também me enjoa. Pessoas que não são pobres e consomem carne, puxando carteirinha de pobre de não sei da onde pra mandar essa. Como quem diz “eu sou pobre e sei o quanto é difícil ser vegana” NÃO MORE, CÊ NÃO É. VOCÊ SÓ TÁ COM PREGUIÇA DE SER VEGANA! Aí você pega o exemplo do seu Zé da favela, que não tem NADA a ver com você, e diz que é coisa de rico ser vegano. APENAX PARE!
    Escrevi esse texto outro dia na página do meu buffet, e vou  compartilhar aqui também:
    “O Veganismo…
    Infelizmente, o veganismo ainda não é acessível a todos.
    É muito difícil você encontrar pessoas da periferia que sabem o que significa a palavra vegano.
    Muito mal, vão entender quando você fala vegetariano. E elas vão rir da sua cara. Porque pra elas, ser vegetariano é coisa de granfino. Pra nós, da periferia, ser vegetariano, é coisa de gente chique.
    E é mesmo. Não porque é caro, é por causa da ideia vendida por aí. Se a gente parar pra pensar, quanto mais pobre se é, mais vegano indiretamente você se torna. A alimentação diária de uma pessoa muito pobre fica praticamente à base de feijão e farinha de mandioca. Não sobra mais dinheiro pra comprar carne, nem mesmo a processada, a de segunda mão. Só que ainda assim, mesmo o termo vegetarianismo tendo um conceito tão simples “pessoas que só consomem alimentos de origem vegetal”, ainda assim ele é vendido.
    É vendido porque sempre achamos que só os artistas podem ser vegetarianos. É vendido porque existe uma infinidade de empresários que querem lucrar com o ramo e colocam pratos feitos a base de legumes baratos à preço exorbitantes, e ainda por cima 80% desses vendem coisas ruins, o que afasta ainda mais o interesse das pessoas. É vendido porque é propagada uma falsa ideia que pra ser vegetariano tem que ser magro, natureba e hipster.
    O veganismo é vendido pra elite.
    Só que tem uma coisa… tem gente aqui inquieta tentando mudar esse quadro. Tem gente da favela que trabalha com comida vegana. E não é só o Banana Buffet, tem outros veganos tentando fazer a diferença.
    Eu já sou amiga dos funcionários do sacolão, já sou amiga das caixas do supermercado, aos poucos, eles veem o que eu compro diariamente pra realizar o meu trabalho, aos poucos eu vejo diariamente que eu to fazendo a diferença.
    Eu não vou vender minha comida caro, eu vou vender a um preço justo. Justo pra mim, justo pra você.
    Eu vendo comida pro pessoal aqui da favela mais barato, tenho vizinhos clientes, tenho comerciantes clientes. Pessoas que provaram e quebraram o mito de que é ruim, que provaram e estão dispostas a repensar no consumo de carne, que fazem perguntas, que são curiosas! Pessoas que estão tendo a oportunidade de ter acesso ao veganismo.
    Eu sou vegana, eu luto e eu resisto. O veganismo ainda é elitista sim, mas tá mudando, tá mudando e muito! E não é só por mim, é por muita gente incrível que faz do trabalho um ativismo de dar orgulho!”
    Tudo o que quero dizer com isso é: minha experiência como pobre, favelada e vegana, não pode ser usada como padrão, cada um é cada um. De fato posso explicar pra qualquer um que caro não é, mas como eu expliquei ao decorrer desse post, existem muitos fatores que podem estar envolvidos que não é apenas o dinheiro.
    Então três recados:
    1. se você é pobre, e tá com a consciência pesada, tá tentando ser vegetariano, tô aqui de braços abertos. Posso te ajudar no que precisar pra se virar, principalmente na cozinha que sei que é uma das coisas que mais pegam na adaptação.
    2. se você é vegano, e acha que pode ficar cagando regra pra geral, manera aí. Seres humanos tem um privilégio sobre os animais não humanos, mas ainda assim, muitos desses humanos também são explorados. Então se tu não saber fazer recorte, não vai chegar a lugar nenhum.
    3. se você é classe média e fica fazendo cosplay de pobre, apenas pare e toma vergonha na cara que não adianta ter cachorrinho adotado em casa e comer porco, explorar vacas e mostrar carteirinha de pobre falsa. Desce do salto.
    Texto de Thallita Xavier publicado originalmente em seu site Sim, Sou Vegana e Feminista Preta