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Eu e a minha idade

Imagens: Reprodução

Por Marcilio Reinaux 

Não sou muito inclinado, nem me apego às expressões do dia a dia relacionadas à idade. Aquelas corriqueiras, do jargão comum, que são muito recorrentes. Não vejo graça nem sentido naquela mesmice tão explorada de terceira idade, melhor idade ou algo do tipo.  Que me desculpem os meus colegas contemporâneos, que gostam destas expressões. Nada contra, mas não as uso.

Para mim, a minha idade tem algumas conotações de ordem reflexiva e até mesmo prática diante da minha própria vida. Assim, imagino que idade é aquela que prevalece na minha cabeça, fruto da minha compreensão e do meu sentimento. Idade, para mim, é o latejar do meu coração, pulsando lá dentro do meu peito, de lá fruindo as minhas emoções, aflorando em borbotões através dos meus sentidos.

Idade é este processo de criatividade no pulsar das Artes, seja o desenho, a pintura, a escultura, ou aquela de riscar uns poucos poemas, ou ainda esta arte de escrever textos, com a inspiração a tempo e a hora. Benesses que Deus me deu.

Idade não é apenas aquela “faixa etária” dos anos vividos, que dá direitos e privilégios – aos idosos – na convivência em sociedade. Aqueles por exemplo, de ter a precedência diante dos mais jovens, de passar à frente nas filas do elevador, de utilizar caixas especiais em bancos, ou de ter acesso aos coletivos por portas separadas e sem pagamento na roleta.

Mas idade para mim é uma circunstância muito mais importante: é aquela que legitima os meus sentimentos, que define meus gestos, que sedimenta minhas atitudes e, enfim, que ainda permite o brotar do meu gênio inventivo.

Respeito e ajudo aqueles que têm idade avançada, com dificuldade de locomoção; assim como, faço questão de usar a minha gentileza com gestantes e crianças. Para mim, idade tem mais essa prioridade, esse dever a cumprir: o de ajudar.  Idade é um saudosista panorama telúrico, que se descortina à minha frente, bem presente nas lembranças das paisagens da minha vivência, num registro gratificante de infância dos tempos pretéritos.

Idade não é ir às tardes das quintas-feiras mornas à um clube social e dançar com as meninas (aquelas da mesma idade do dançarino), aceitando convites de colegas. Idade para mim é mais que isso. É o sentir no ombro uma mão amiga e escutar a pergunta: “Precisa de alguma coisa?”.

Idade não é só desfrutar de passeios turísticos com a “turma” de amigos e ex-colegas de trabalho de décadas passadas. Idade é o apanágio de uma vida sumamente salutar no seio da família e no íntimo, ter aquela gratificante sensação de que tudo valeu a pena.

Idade não é só aquela de acordar cedo e fazer o cooper. Nem aquela de fazer ginástica de “estiramento” ou alongamentos, querendo botar os ossos e os músculos nos seus devidos lugares. Idade para mim é contar nos dedos das mãos e repetir, todos os dias, o número dos queridos da família: filhos, netos, bisnetos e os “anexos”: genros e noras.

Idade é ter o singular momento de ver aquela mãe e a menina, em gestos alegres e enternecedor, de uma inesquecível demonstração de felicidade com aquela brincadeira do “gira-gira”. Idade não será nunca para  mim ver o tempo passado. E quando ele estiver passando, ter um mínimo de tristeza, por ter deixado de fazer alguma coisa.

Idade para mim não será nunca a futilidade do arrependimento de não ter uma vida “corrida” em busca de bens e herdades. Idade, não será nunca para mim também, o contar das moedas amealhadas tilintando na economia da vida.  Nem será somar os bens eventuais materiais.

Mas idade será, sim, e sempre, o acalanto do entardecer do dia, findando mais uma jornada no somatório dos anos da vida. Idade para mim é ainda poder ver aquele olhar, aquele gesto amigo, o afago sincero do abraço da mulher amada. A mulher da minha mocidade.

A idade para mim, será sempre o profundo sentimento de gratidão à Deus, por cada nascer do sol diante de mim. A gratidão do dom da vida. Isso é idade.

 

 

 

 

Marcilio Reinaux,

Jornalista, Escritor, Professor e Cerimonialista.

2 Comments

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  1. Marcílio, gosto muito dos seus textos, não apenas pela qualidade, mas pelos sentimentos que são transmitidos em cada palavra e, a cada pontuação, que faz uma pausa necessária à nossa reflexão, vc também empresta elegância à mensagem. A idade deve mesmo representar o abraço da pessoa amada. Do amor, o resto é adereço! Escreva sempre para nós. Nos dê esse presente!

  2. Crônica maravilhosa que enaltece o verdadeiro sentido da vida, sem modismos. Rica em sentimento e uma visão que nos faz questionar a nossa preocupação com o processo natural do envelhecimento, nessa sociedade que descarta a experiência vivenciada por tantos. Parabéns, Marcilio e OF !

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