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Especial cultura vegana: empreendedorismo, consumo e ideologia – Parte II

Por Lara Ximenes

Esta é a segunda parte do especial sobre cultura vegana do OF. Para uma melhor compreensão, certifique-se de ler a primeira parte do especial clicando AQUI.

Não é só soja e verdura

Você sabia que é possível substituir as claras de ovos pela água de cozimento do grão de bico? É a aquafaba, uma das substituições e sabores descobertos pelos veganos. Este é apenas um exemplo de substituição realizada pelas pessoas que seguem esse estilo de vida. Existe também o leite condensado sem leite, que consiste em água fervendo + aveia + açúcar cristal. Estas substituições derrubam o mito de que o vegano só come mato e, principalmente, que ele não experimenta sabores diferentes.

“Quando a gente começa a experimentar novos sabores, podemos ir adaptando nosso paladar. Minha dica para quem quer ser vegetariano ou vegano é ir adicionando mais alimentos de origem vegetal no prato. A ideia é não retirar todos os alimentos de uma vez. Primeiro retira a carne vermelha, depois a branca, depois os frutos do mar. Assim podemos acrescentar novos alimentos ao longo da vida, nos desvencilhando do vínculo social com a carne animal”, é o que sugere Nana Barros, nutricionista e pós-graduanda em nutrição vegetariana pela Faculdade Santa Helena. Ela atende no Recife, em consultas domiciliares ou em consultório.

“É preciso saber que o veganismo é um estilo de vida que busca não causar ou minimizar ao máximo o sofrimento animal, por isso o vegano não se alimenta de animais nem de produtos de origem animal, bem como não utiliza nenhum produto que possa ter causado sofrimento a estes, como couro, seda e lã”, explica Nana, que também é membro da SVB no Recife.

Para a nutricionista, o vegetarianismo não é um estilo de vida novo, mas é pouco difundido até mesmo na comunidade médica. “As pessoas encontram muitas dificuldades nos consultórios médicos e de nutricionistas principalmente por conta da influência da indústria farmacêutica. Existe uma falta de interesse em ensinar nas faculdades de medicina que boas fontes vegetais de cálcio e ferro podem te munir contra uma anemia e uma deficiência óssea, por exemplo”, conta.

Nicoly (esquerda) já foi paciente de Nana (direita) (Foto: Blog Minha Janela)

Outro mito ainda perpetuado pelo senso comum é que a dieta vegana não contém os nutrientes necessários. Segundo Nana, este mito é consequência da falta de informação. “Na minha opinião como profissional de saúde, qualquer um que escolher pode ser vegano. Já é consenso entre as associações de saúde mundiais como a Organização Mundial de Saúde (OMS) que a dieta vegana estrita é saudável e adequada para todas as fases da vida”, diz a nutricionista. De acordo com o site da SVB, a exceção é apenas no que diz respeito a vitamina B12, pois alguns vegetarianos e veganos podem precisar de suplementação, principalmente gestantes, lactantes e crianças.

A dieta vegana pode e deve suprir a necessidade de B12, mas não é tão fácil, pois ela se encontra em larga escala nos alimentos de origem animal. Essa suplementação deve acontecer com acompanhamento médico e baseada nos exames de sangue, dependendo de fatores como a forma que o organismo daquela pessoa absorve a vitamina B12.

Do site da SVB:

“Devemos lembrar que leite, queijos e ovos são de origem animal e contém essa vitamina. A maioria dos vegetarianos utiliza esses alimentos. Se o uso deles for regular (diário) e atingir as necessidades diárias, não é necessário utilizar suplementos”.

Veganismo: uma questão feminista?

Em setembro de 2013, Luana foi ao Congresso Vegetariano Brasileiro e assistiu uma palestra sobre Feminismo e Vegetarianismo. “Decidi a partir daquele ponto que não fazia mais sentido para mim não ser vegana. Caiu a ficha de que a indústria de carne, ovos e laticínios só se perpetua pela exploração do corpo feminino dos animais. Não é só a coisa da reprodução pela carne, é forçar uma vaca a ser emprenhada todo ano e o leite, que originalmente é do bezerro, ser tomado de uma forma bruta e brusca por humanos”, diz Luana, que acredita não ser por acaso que virou doula (assistente e acompanhante da mulher no parto humanizado) na mesma época em que virou vegana.

“A política sexual da carne”, de Carol J. Abrams (Foto: Editora Alaúde)

“Como desejo ser mãe, não quero ser cúmplice de uma indústria que considero cruel e escabrosa com outras fêmeas, mães de outra espécie”, diz. Mesmo assim, ela não acha que toda vegana deva ser feminista e toda feminista deva ser vegana. “Isso é o que eu acredito. Não acho que uma feminista que não seja vegana deixe de ser completa na sua vida. Ela está sendo completa no que ela acredita. Se ela acredita no veganismo, massa, se não acredita, não sou eu que vou dizer como ela deve viver sua luta”, diz.

Já a nutricionista Nana, por outro lado, acredita que é contraditório uma mulher ser feminista e não ser vegana. “Antes de ser vegana eu já era feminista, mas nunca tinha atentado para o fato de que sou um animal fêmea do mesmo jeito que a vaca também é. Quando você se torna vegano, você se coloca no seu lugar no universo. Tem a concepção de que você é um ser entre todos os outros, e não superior. No feminismo exigimos o mesmo direito que os homens têm e. eu. pessoalmente. quero que as minhas irmãs vacas e galinhas tenham os mesmos direitos reprodutivos que eu”, afirma Nana.

Para quem deseja se aprofundar nesse assunto, a nutricionista recomenda o livro “Política sexual da carne”, de Carol J. Adams, que traça um panorama do machismo por trás do consumo da carne. “O meu feminismo é atrelado ao veganismo e, por isso, chego até a considerar incoerente quem é feminista e não considera o feminismo como estilo de vida”, opina.

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