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Entrevista: Renata Pinheiro, primeira mulher a dirigir um longa de ficção em Pernambuco

Aroma de novas ideias

Por Lara Ximenes

(Foto: Lara Ximenes)

Como Renata Pinheiro, com a sua Aroma Filmes, conquistou espaço no cinema pernambucano predominado por homens na cadeira de direção

Em 2012, a revista Valor Econômico publicou a matéria “Cinema pernambucano vive sua era de ouro”. No texto, o cinema produzido no estado é exaltado por sua força e comprometimento poético, apontado como um cinema de qualidade e ousadia. Além disso, fala-se dos diretores de sucesso que colocaram Pernambuco no mapa do cinema nacional. Na lista, são citados Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Marcelo Gomes, Kleber Mendonça Filho, Daniel Aragão, Camilo Cavalcante e alguns outros cineastas pernambucanos de renome, cujos filmes abocanharam prêmios festivais afora. Não dá pra ignorar: todos esses diretores são homens. O machismo na sociedade não fica de fora quando o assunto é arte, mas desde a retomada do cinema pernambucano em meados da década de 90, as mulheres estavam lá: como diretoras de arte, produtoras, montadoras, roteiristas. Com bem menos holofotes e glamour, é inegável a presença das mulheres nesse espaço. Renata Pinheiro é uma dessas mulheres que lutou pelo seu espaço nesta área hegemonicamente masculina. Autodidata, a pernambucana emprestou ao cinema o olhar que adquiriu no curso de artes plásticas fazendo direção de arte. Ao longo da sua carreira, fundou a Aroma Filmes com Sérgio Oliveira, seu sócio e marido, produtora que a ajudou a tornar-se a primeira mulher a lançar um longa de ficção em pernambuco, em 2013, com o filme Amor, Plástico e Barulho – um ano após a tal matéria do Valor Econômico. Apesar de terem sido necessários mais de dez anos após a retomada do cinema pernambucano para que uma mulher dirigisse um longa de ficção, as coisas estão mudando, como a própria Renata frisou na entrevista abaixo (Tuca Siqueira, que dirigiu o curta premiado Garotas da Moda, está prestes a lançar seu longa de ficção Amores de Chumbo, por exemplo). Além de questões de gênero, Renata conta um pouco sobre seu amor pela sétima arte e o engajamento político em suas obras.

Antes de ser diretora, você foi artista plástica formada. Como surgiu o interesse em trabalhar com cinema?

Eu já tinha feito teatro também, era um curso de extensão da UFPE. O cinema começou a ser produzido de novo no final dos anos 90 e aí eu não sei te dizer se eu fui me aproximando dele ou ele de mim, foi uma coisa muito natural que aconteceu. No Baile Perfumado (1996, Lírio Ferreira) por exemplo, eu não trabalhei diretamente no filme mas cedi meu ateliê para eles usarem como um laboratório de efeitos especiais – tiros, sangue – do filme. Logo depois daí, eu fui convidada para fazer a direção de arte de Texas Hotel, de Claudio Assis, e assim foram surgindo vários outros convites. Mas tenho a impressão de que as instalações de arte que eu fazia quando artista plástica sempre abordavam essa questão da construção espacial, um reflexo sobre espaço – e o cinema é muito isso, porque quando você constrói um cenário você na verdade constrói um ambiente propício para a narrativa, então tem tudo a ver. Acho que foi um processo natural que aconteceu.

Essa questão da construção espacial se reflete também nas suas obras?

Eu imagino que sim, porque a geografia está muito presente no que eu faço. Não que a gente não filme fora daqui, temos até um filme de estrada, o documentário Estradeiros (2011, Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira). Mas eu acho que Recife imprime muito forte nos meus filmes. Superbarroco (2008) por exemplo é ambientado na casa grande de um engenho da minha família, um lugar que eu fui desde criança. O filme é bem psicológico mas tem uma construção de espaço mais subjetivo que o ambiente real, que é a casa grande. Ultimamente algumas pessoas têm feito convites para direção de arte e eu peço para que elas digam o motivo que estão me procurando. Por coincidência duas pessoas, uma do Rio de Janeiro e outra de São Paulo disseram que acreditam que eu não tenho um trabalho tão naturalista, eu trabalho interpretando espaços, proporcionando espaços com mais elementos do que necessariamente elementos literais de personagem. Me consideram uma diretora de arte não naturalista, o que eu acho ótimo – e é uma reflexão que vem de outras pessoas, eu nunca pensei sobre isso mas eu acredito que meu cinema é muito isso: uma construção simbólica da realidade. O que foi interessante por exemplo em Amor, Plástico de Barulho (2013, Renata Pinheiro) é que ele tinha que ter um pé numa realidade, pois era ambientado no show bussiness da música brega do Recife, que de fato existe, mas mesmo assim deu para subverter essa realidade com a construção da imaginação e dos sonhos da personagem Shelly com imagens mais subjetivas. Acho que é o que eu gosto de fazer.

Já que falamos em Amor, Plástico e Barulho: o seu interesse no brega para ambientar o longa teve relação com o seu trabalho de direção de arte no documentário Faço de Mim O Que Quero (2009, Sérgio Oliveira e Petrônio de Lorena)? De alguma forma esse documentário inspirou a ficção?

Faço de Mim O Que Quero é um argumento meu, eu já tinha interesse sim nesse universo porque eu como diretora de arte viajei muito e fiquei muito encantada quando fui lá no norte, perto da Venezuela, na época que fiz a direção de arte de A Festa da Menina Morta (Matheus Nachtergale, 2007), ali eu tive contato com artistas pequenos do brega de lá, que cantavam, e todo esse mundo me encantou muito. Aí escrevi o argumento para o documentário mas nem pude dar andamento por questões de trabalho, então Sérgio escreveu o roteiro e convidou Petrônio para dirigir e eu participei como diretora de arte. Adoro esse filme, acho que é muito mais sobre comportamento do que sobre a música em si, e eu achei que o que eles conseguiram buscar era muito revelador mesmo – a época em que ele foi filmado acontecia de fato um boom econômico de crescimento da classe trabalhadora mais cheia de si, com orgulho próprio e mais condições financeiras, e a gente vê isso em Amor plástico e barulho também, esse momento do boom da auto estima elevada cria uma arte pop produzida nos subúrbios brasileiros que é muito legal, inclusive isso de não esconder a sensualidade, de não ter pudor. Eu acho uma maravilha porque não é hipócrita, e essa é a característica brasileira que me encanta muito, acho que é bem diferente de todo resto do mundo. É uma característica renegada pela mídia e pela classe média brasileira, acha que isso é um traço selvagem, mas eu acho que pelo contrário, é bem saudável por na música a sensualidade.

E a Aroma Filmes, como surgiu?

A Aroma surgiu para a gente fazer nossos próprios projetos, em 2008. Antes da aroma já tínhamos a empresa sem o nome fantasia, no meu nome, onde Sérgio fez três curtas antes desse ano: Schenberguianas (2006), Corpos Porcos (2003) e Nação Mulambo (2007). Então a Aroma com o nome mesmo foi em 2008, com o meu filme Superbarroco. Como eu e Sérgio fizemos alguns trabalhos antes da Aroma, as coisas foram se intensificando e ter uma empresa parecia o caminho mais certo para começar. Porque você produz seus filmes, você não depende de produtor nenhum, não tem que agradar o gosto de terceiros, enfim, quem tem esse interesse no cinema autoral crie mesmo sua empresa. Aí a gente começou lançando dois longas e diversos curtas (infográfico ao lado), tá sendo bem possível viver de cinema. Mesmo com essa conjuntura política, é um grande mercado – tem muita gente que se forma em universidades e já sai para trabalhar com cinema, gente que trabalha há mais de dez anos, enfim, se for para parar esse processo a luta vai ser grande.  É uma indústria que tá se formando mesmo. Muita gente se emprega no cinema – você contrata diversas pessoas para filmar, para finalizar, têm os serviços terceirizados de gráficas e transporte. Eu acho uma arte e uma indústria muito limpa e saudável pois contrata todo tipo de serviço, e é honesta também porque tudo que é investido é comprovado, a própria existência do filme é uma comprovação.

Cena de “Amor, Plástico e Barulho” (2013)

E como foi trabalhar por trás das câmeras como diretora, depois de tanto tempo como diretora de arte?

Foi algo natural também, nada foi muito premeditado. Eu sou autodidata em direção de arte, e nunca me preparei pra isso. Foi uma consequência da minha formação com as artes plásticas, com o teatro… isso tudo me aproximou do cinema, assim como o meu amor por ele. Sempre fiz videoartes para salas de exposição como artista plástica, mas meu primeiro curta, para um circuito mesmo de cinema, foi o Superbarroco (2008), que foi absolutamente uma necessidade minha de expressão depois de tantos projetos como diretora de arte, eu estava sentindo que precisava retomar um trabalho meu, autoral, ele veio mesmo como uma necessidade artística. Como por exemplo, agora na Aroma Filmes a gente tá com vários projetos em andamento meus como diretora, então não tenho previsão de quando farei outro trabalho como diretora de arte novamente. Pelo contrário, na verdade estou pensando em preparar uma exposição junto com o projeto da série África da Sorte e o próximo longa para ser lançado Açúcar e o que vai ser filmado agora, Carro Rei. Enfim são vários projetos com investigações diferentes, isso requer uma concentração bem grande e um tempo dedicado ao mergulho nessas temáticas. E é um prazer construir uma obra assim desde o início. Eu acho que talvez um ciclo tenha se fechado na direção de arte e é mais provável um retorno meu às artes plásticas do que a direção de arte em si. Agora a principal diferença entre as direções talvez seja a complexidade de lidar com uma equipe grande, mas o ato mesmo de dirigir sempre me foi inerente porque sempre fui muito opiniosa, mesmo como diretora de arte eu já sugeri diversos planos, todos os filmes que eu fiz eu estava sempre como braço direito do diretor sempre opinando mesmo, sempre atenta da interpretação dos atores até sobre eixos de câmera, eu verificava tudo que eu achava ruim, algum ruído. Diretor de arte também fica lá no monitor e eu não senti nenhuma diferença ao assumir uma direção, acho que eu estava muito preparada para isso. Existe assim, por exemplo, a questão de ter que lidar com muita figuração, uma equipe muito grande, a complexidade é maior sim, mas eu não sinto que não estava preparada pra isso no meu primeiro longa, por mais que fosse mais difícil. Em Amor, Plástico e Barulho filmamos tudo o que queríamos e se fôssemos colocar tudo isso seriam 3h de filme (risos), mas deu tudo certo.

Nos seus filmes, existe sempre um engajamento político: podemos ver referências politizadas ora sutis, ora escancaradas. Você acha que o cinema deve ser usado como uma arma política?

Eu acho que qualquer tipo de comunicação é uma arma política. Cinema não deixa de ser não só uma arma política mas de transformação, sem dúvida. Então todo discurso que você elabora ele tem um lado. Esquerda, direita, centro… É impossível você não fazer arte com um posicionamento político, pra mim. Não existe arte neutra. E, claro, minhas obras refletem minha forma de pensar – então nesse sentido eu acho que a gente tenta causar, não sei se de forma maniqueísta, uma reflexão. O curta Praça Walt Disney (2011) é muito isso. A gente tem a nossa visão sobre Boa Viagem –  e não é um filme panfletário nem levanta nenhuma bandeira, mas mostra uma realidade que causa reflexões: como chegamos aqui? que bairro é esse, que modelo progressista ele pegou para se desenvolver? esse é o modelo que a gente imagina ser o melhor para nós? E é isso que eu queria, causar uma reflexão. E dependendo do filme ou da situação, claro, denunciar mesmo, chutar o pau da barraca. Acho lindo filme que denuncia as injustiças que a gente vê, principalmente na temática da mulher, porque é preciso defender essa causa diante dos absurdos que a gente vê elas passarem, as violências físicas e intelectuais. Eu diria que Dilma Rousseff é uma das vítimas dessa violência de gênero inclusive, nas críticas a ela. Essas coisas têm que se denunciar mesmo.

Em Segundo Sexo, Simone de Beauvoir afirma que o homem é “o sujeito” e a mulher é o “outro”. Você acha que essa visão é transportada para a arte? Que a arte do homem é a geral, o padrão, e a da mulher é vista como algo de segunda categoria, menos qualidade devido ao olhar feminino, muitas vezes associado ao fútil e melodramático?

Acho que existem filmes que olham para a realidade com sensibilidade, tentando olhar a vida com outro viés, e existem aqueles filmes que são um padrão de clichês, comercial. É provável que as mulheres daqui pra frente desfaçam esses clichês e mostrem a realidade de outra forma, até porque é lhes dado mais voz para se expressar artisticamente agora, e eu acho que essa é a grande revolução, dar voz às mulheres – e os homens e toda a sociedade ganhará muito com isso -, porque assim vai surgir esse cinema diferente, até porque o papel que é imposto para nós é outro. A gente é vítima de machismo, então a gente deve encarar a vida de outra forma, contando a história de outra forma. Agora eu não sei exatamente se essa definição de cinema de mulher nos coloca num mundo à parte. Eu prefiro entrar na brincadeira séria que é fazer cinema de qualidade, e não ser colocada num subgênero. Existem os homens sensíveis que colocam as suas personagens mulheres como personagens ativas em suas histórias, mas tenho a impressão que se elevam o número de mulheres diretoras, produzindo suas obras, a gente vai ter a oportunidade de ver um novo cinema, e essa é a grande coisa que está por vir.

(Créditos: Lara Ximenes)

Inclusive o filme brasileiro que mais fez sucesso nos últimos anos foi dirigido por uma mulher, Anna Muylaert, o Que Horas Ela Volta? (2015).

Pois é, exatamente! Uma mulher, uma mãe que criou seus filhos sozinha… Ainda é difícil você ver um homem que cria seus filhos sozinho, por exemplo. Essas outras experiências de vida que as mulheres experimentam se refletem em suas obras.

E como você se sentiu sendo a primeira mulher pernambucana a dirigir um longa de ficção no cinema local?

Eu tava lançando o  Amor Plástico e Barulho, em Brasília, quando o jornalista Julio Cavani me falou isso. Eu não sabia que eu era a primeira mulher (risos). Eu achei maravilhoso saber isso porque não foi fácil, apesar de o tema que eu escolhi ter sido muito bem vindo no Funcultura naquele ano, passando de primeira. Mas foi difícil impor respeito na equipe. A gente convida para trabalhar sempre pessoas que acreditam na sua obra, mas sempre rolam dificuldades, todo mundo tem. Então eu espero que isso seja um grande estímulo à outras meninas e mulheres que estão começando. Para mim foi natural, simplesmente chegou a hora de lançar o longa e eu não sei como não aconteceu de outras mulheres lançarem antes de mim, porque sou de uma geração intermediária do cinema pernambucano. E o melhor é que eu acho Amor Plástico e Barulho bem feminista, uma abordagem que eu dei naturalmente porque é como eu vejo as coisas, sem preconceito. É interessante que logo o primeiro longa de ficção de Pernambuco dirigido por uma mulher seja sobre justamente uma abordagem da condição das mulheres num mundo machista, no caso do filme o mundo da música. Eu me orgulho disso, mas é um mérito que não sei se é meu, afinal foi apenas uma coincidência.

Até porque é meio triste que, num cinema tão consagrado como o nosso, só em 2013 uma diretora feminina teve esse protagonismo, né?

Exatamente. E isso é porque a gente é muito ensinada, era mais difícil antes, tava conversando com Anna mesmo, dizendo que se arrepende de não ter tido uma reação mais imediata à alguns abusos que ela recebeu, mas é como eu disse, a gente é ensinada a ficar calada quando for agredida. É naturalizado, como se fosse pra ser assim. Então o fato de você não levar um projeto adiante enquanto mulher também se dava por ser mais cômodo fazer parte da equipe de um homem, porque é mais aceito. Mas tá mudando, tá mudando tudo.

Em algum momento você sentiu que sofreu machismo trabalhando no cinema?

Eu sofri bastante machismo mas eu prefiro não comentar essas coisas porque acho que sempre me saí muito bem dessas situações. Eu trabalhando sempre senti uma força muito grande, inclusive já chamada de “força masculina”, pra você ver (risos). Mas eu tenho uma construção ali interna mesmo do objetivo artístico que eu quero chegar então o caminho que eu vou seguir eu posso receber várias agressões ali, descasos, mas eu nem ligo, penso logo que a pessoa que é idiota e sigo para atingir meu objetivo. Então não posso dizer que fiquei traumatizada com nenhuma agressão, mas tiveram várias, pois a maioria dos homens quer sempre te rebaixar, provar que você não tem valor, e isso é muito recorrente, é o pior machismo, silenciar a mulher, tirar o brilho.

Na sua opinião, o que falta para que as mulheres daqui assumirem mais o papel de diretoras? O que você diria para estudantes que aspiram a direção?
Acho que fazer um mergulho na obra que já foi feita por outras mulheres, para contemporizar e entender esse contexto e também para que não desistam nunca, porque sempre vão ter pessoas para lhe desviar, lhe colocar para baixo. existe muita inveja (risos). e claro, cinema a gente não faz sozinho – então busque seus parceiros, pessoas que vão lhe dar força e caminhar junto com você. O mundo cobra muito mais perfeição das mulheres do que dos homens, isso é fato. Mas não se desanime com um não, porque a gente sempre recebe, e muito, porque a cobrança é maior. Aqui no Recife eu já ouvi comentários bastante machistas sobre obras minhas que se fosse um homem que tivesse feito, era completamente passado sem nenhuma crítica, bobagens que não são nem de longe críticas construtivas. As pessoas procuram mesmo agulha no palheiro quando é com mulher, a exigência é muito maior, como se você tivesse que ser perfeita. E essa é a sociedade machista em que vivemos, não há nenhum filtro. Não pensam “ah, essa pessoa têm um repertório, vamos respeitar”, sempre vêm os comentários com violência. Mas não vamos deixar de fazer por isso. Não vamos nos acomodar, temos que fazer.

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