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Em memória de Heather Heyer, vítima do ódio

“Sem espaço para o ódio” (Foto: CNN)

Neste sábado, a cidade Charlottesville, do estado da Virginia, nos Estados Unidos, foi palco de uma manifestação de ódio por grupos racistas de extrema direita, autoproclamados neo-nazistas, com tochas e bandeiras dos estados confederados. O que motivou o “protesto” foi a decisão das autoridades locais em remover a estátua que homenageava o líder confederado Gen. Robert E. Lee, no parque que recebia seu nome e hoje se chama Parque da Emancipação. Segundo o jornalista Jamelle Bouie, do Slate, a estátua é considerada “um objeto que ancora propaganda racista na geografia da cidade”.

Para quem não sabe, os Estados Confederados da América foram uma união política de seis estados do Sul dos Estados Unidos (Carolina do Sul, Flórida, Alabama, Louisiana, Mississipi e Geórgia. Texas se juntou à eles algum tempo depois), que eram contra a abolição do escravismo. Por mais surreal que pareça, ainda há quem se orgulhe dessa parte da história a ponto de ir marchar por estátuas que a representam. Protegidos pela primeira emenda da constituição americana, que ainda vê discursos de ódio como “liberdade de expressão”, esses homens brancos, racistas e declaradamente nazistas que vieram de várias partes do país chocaram o mundo no último final de semana.

Como toda manifestação de ódio, esta também encontrou uma resistência. Vários grupos sociais da Virgínia foram ao centro da cidade se colocar contra os supremacistas brancos. Entre eles, Heather Heyer, 32 anos. Ela trabalhava na área da justiça como paralegal (ou “consultora jurídica”, profissional que ajuda advogados em seus trabalhos diários) e queria mandar uma mensagem clara contra os neo-nazistas e simpatizantes da Ku Klux Klan que planejavam a manifestação de extrema-direita.

Infelizmente, Heather foi morta por um dos “manifestantes” de Ohio. Com um carro, James Fields, de 20 anos, atropelou um grupo que marchava contra os supremacistas brancos. Além de matar Heather, também deixou pelo menos 19 pessoas feridas. Ele já se apresentou à justiça e teve pedido de fiança negado.

Segundo a Reuters, que entrevistou o chefe de Heather, ela tinha um grande senso de justiça social, tema constante em sua vida pessoal e profissional. Seu chefe, Aldred Wilson, trabalhou com ela por mais de cinco anos na firma de advocacia Miller Law Group. “Em alguns momentos eu a via trabalhar com lágrimas nos olhos diante das injustiças que via no mundo”, afirmou Wilson à Reuters. “Ela ficava triste lendo comentários de notícias on-line contra muçulmanos ”, completou.

Para ele, Heather era uma jovem muito forte, com opiniões bem formadas, que deixou claro durante a vida que era totalmente a favor da igualdade. Heather apoiou a candidatura de Bernie Sanders, que concorreu com Hillary Clinton pela nominação presidencial do Partido Democrata.

“Roxo era sua cor favorita”, disse Wilson, relembrando que Heather dividia seu apartamento duplex com uma chihuahua de estimação chamada Violet. “Ela adorava usar roxo, e o faria todo dia se pudesse”, lembra o então chefe de Heather.

Nascida em Charlottesville, onde fica o principal campus da Universidade de Virginia, Heather formou-se na William Monroe High School em Stanardsville e teve grande parte da sua vida dedicada ao trabalho, onde juridicamente evitava que pessoas fossem despejadas de suas casas, as ajudava quando precisavam pagar dívidas médicas ou recuperar seus carros.

Foto de Heather no GoFundMe, em campanha de financiamento coletivo para ajudar sua família após a tragédia, que já arrecadou mais de U$200mil .

Wilson lembra que Heather, mulher branca, afirmava como era injusto ela gozar de direitos e liberdades que seu chefe, um homem negro, não podia. “Ela me dizia: Mesmo sendo graduado numa universidade, você poderia facilmente ser seguido por seguranças desconfiados numa loja, e isso não é justo”, relembra o chefe do departamento de falências da Miller Law Group.

Ele também falou à Reuters que Heather era fortemente contra o presidente Donald Trump, e que falava abertamente contra Jason Kessler, o blogueiro que organizou o comício da “União da Direita” no fatídico sábado. “Uma coisa que incomodava Heather era essa eleição passada. Ela literalmente chorava de preocupação pelos possíveis rumos do país”, finalizou Wilson.

Em memória de Heather e de tantas outras e outros que, assim como ela, tiveram um final trágico lutando pela defesa de direitos humanos, vale lembrar mais uma vez que liberdade de expressão alguma deve validar discursos de ódio.

Ver os símbolos do nazismo empunhados por homens que sequer cobrem seus rostos só prova como essas pessoas não têm vergonha de expressarem esses ideais de ódio, pois historicamente seus privilégios lhes garantem sair ilesos pelas ruas sem qualquer tipo de opressão.

Muito se fala em ouvir os dois lados da história, mas é impossível fazer isso quando um dos lados defende o extermínio do outro. A história se prova cíclica quando a humanidade não aprende com seus erros, e é a partir daí que as minorias lutam e se tornam vigilantes de seus direitos. Enquanto viver como minoria for ter seus direitos ameaçados constantemente, haverá resistência.

Texto escrito por Lara Ximenes com informações traduzidas livremente da matéria “Victim in Virginia melee wept for social justice, her boss says“, escrita pelo jornalista Bernie Woodall, da Reuters.

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