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“Danuza, tu bebeu um chá estragado de pantim?’’

Aos 84 anos, minha avó conversava com um papagaio de plástico da varanda, via meu avô já morto andar pela casa, vestia roupas pelo avesso e criava palavras que não existiam. Estava velhinha, já cansada e com a cabeça em marcha lenta. Esses episódios de afastamento da realidade me traziam, no começo, preocupação. Depois, viraram graça, e um motivo de nova conexão entre nós. Mesmo usando fraldas e estreando uma perigosa sinceridade infantil, minha vó me deu histórias, nunca vergonha.

Nessa semana, tive pena do fotógrafo João Wainer, neto da Danuza Leão. Ver a avó da gente, aos 84 anos, falando, em um jornal de grande circulação, “que toda mulher devia ser assediada pelo menos três vezes por semana” é de um constrangimento sem tamanho. Quando ele compartilhou, nas redes sociais, a imagem de uma pichação com a frase “Minha vó tá maluca!”, não deu vontade de rir, mas de chorar.

A minha avó, Alice, dona de casa, nordestina, boa na cozinha e na costura, me mandava usar batom vermelho, vestir roupa curta e só casar – quando e se eu quisesse – com um homem de bom coração. A avó do João, Danuza, jornalista, escritora e ex-modelo brasileira, boa na missão de se meter em polêmica e multiplicar preconceito, mandou dizer que todas as mulheres do país deviam minimizar o assédio sexual, aproveitar cantada barata no meio de rua e não destruir a vida dos pobres homens com denúncias e perseguições.

Danuza compartilhou o conselho através de um texto publicado no jornal O Globo, onde ela critica os protestos feitos na cerimônia do Globo de Ouro contra as denúncias de assédio que explodiram recentemente em Hollywood. Relativizou casos reais de violência, agressão e crime para falar da “paquera despretensiosa’’ que acredita ter vivido em outra geração. Chamou de “moda’’ o momento de libertação que uma parte das mulheres do mundo está experimentando, ao criar coragem de revelar que já foi vítima de violência sexual e psicológica. Associou a um funeral a roupa preta que as atrizes usaram no Globo de Ouro 2018, como sinal de resistência e manifestação contra o machismo no cinema e no mundo. Ridicularizou, nas entrelinhas, o discurso poderoso de Oprah Winfrey, que lembrou, durante o evento, do novo horizonte de igualdade com o qual começamos a sonhar.

O que me preocupa não é o que Danuza fala. Nem agora e nem antes. Me preocupa é que as pessoas leiam o que ela diz e concordem, que o jornal receba o que ela escreve e publique, que os homens acreditem no que ela garante e repliquem, que as mulheres se revoltem com o que ela mente e se calem.

Minha avó, se estivesse viva, diria: “Danuza, tu bebeu um chá estragado de ‘pantim’?’’. Essa palavra deliciosa que o pernambucano usa há séculos pra falar de ‘’mi mi mi’’.

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