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Chamaram meu filho de viado

Dia desses, voltando da escola, meu filho veio com uma conversa assim:

– pai, meu amigo falou aquela palavra pra mim.
– qual palavra? pode falar. (fiz como se tivesse liberado dizer o palavrão)
– viado. ele me chamou de viado.
– poxa, isso não tá certo.
– o que é viado, pai?
– viado é um jeito ofensivo e errado de chamar homosexuais ou gays.

Outro dia aconteceu basicamente a mesma coisa. Mas, ao invés de chamarem de viado, foi de mulherzinha.

– filho, mulherzinha não é xingamento! mulheres não são fracas! veja sua mãe, suas irmãs, suas avós! elas são mulheres e não são nada fracotes. são fortes, corajosas, muito espertas e especiais.

Há alguns meses fizeram uma foto do principezinho George numa pose dita “afeminada” e muitas pessoas estão chamado uma criança de 4 anos de “reizinho gay”! pelo amor! Ele não é gay, ele é uma criança! Ainda que fosse, isso não poderia ser bostejado como ofensa ou de forma depreciativa! Até quando ser o que somos virou xingamento?Até quando crianças – como foi o caso dos amiguinhos da escola do Benjoca – vão continuar reproduzindo falas e ofensas de um universo machista particular? Isso é ou não é um sintoma de uma sociedade doente que exige uma masculinidade agressiva e cheia de demonstrações de poder?

Lembro que na faculdade li um livro do Paulo Freire e uma frase que me marcou: “ninguém pode ser autenticamente humano, enquanto impede outros de serem também.”
Se tem uma coisa que me daria a total sensação de dever cumprido seria deixar para o mundo pessoas humanas de verdade. Pessoas empáticas e que conseguem entender que, ainda que o mundo seja mau e que existam coisas más (como machismo e preconceito), o sonho de um mundo melhor é possível.
Nos empenhamos muito em tentar fazer as crianças pensarem criticamente procurando conciliar essa tensão da realidade cruel do mundo, mas sem aceitar essas como imutáveis e inevitáveis

Eu morreria feliz se Luíza e eu conseguíssemos deixar esse legado para o mundo. Onde a palavra “gay” signifique “feliz”, não uma ofensa e muito menos uma doença. Onde “gordo” não seja um xingamento e ser mulherzinha seja sinônimo de ter muita força!


Claro, somos humanos. Erramos – e muito – mas cabe a nós fornecer as ferramentas para que as crianças construam suas próprias armas para combater os preconceitos e retrocessos desse mundo. Deve partir da gente a atitude de não tolerar homofobia, racismo, machismo e qualquer outro tipo de preconceito que venha embutido em nossas falas e no nosso cotidiano. Assim, criaremos pessoas com uma chance muito maior de acertar mais do que a gente.

Hilan Diener é autor da página Potencial Gestante, onde originalmente escreveu esse texto.

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