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Capital Erótico. Você conhece o seu?

Imagem: Reprodução

“Você gosta de fazer isso? Não me refiro apenas a estar comigo; falo da coisa em si”. “Adoro”. Acima de tudo, era o que Winston queria ouvir. Não apenas o amor por uma pessoa, mas o instinto animal, o desejo simples e indiferenciado: essa era a força capaz de estraçalhar o Partido (…) Antigamente, pensou, um homem olhava para o corpo de uma garota, via que ele era desejável, e a coisa ficava por aí. Hoje, porém, não havia como sentir um puro amor ou um puro desejo. Nenhuma emoção era pura, pois tudo estava misturado ao medo e ao ódio. A união dos dois fora uma batalha; o gozo, uma vitória. Era um golpe assentado contra o partido. Um ato político.” (George Orwell, 1984 – Parte II – Winston e Julia. Editora: CIA. Das Letras, 2009, p. 153).

Estava em Buenos Aires, Argentina, conhecendo a Livraria El Ateneo, quando me deparei com o livro Capital Erótico que me pareceu, a princípio, mais uma dessas tolices sobre sexualidade feminina. Ao ver que a autora se tratava de Catherine Hakim que é doutora em Sociologia e professora da London School of Economics, com mais de cem artigos acadêmicos publicados, fiquei intrigada. Na introdução, vi que todos os aspectos metodológicos da pesquisa científica foram demarcados pela autora. Isso foi determinante para que eu decidisse ler a obra.

A autora do livro, Catherine-Hakim

Observadoras, decidi compartilhar a leitura do Capital Erótico com vocês pela importância da obra para a discussão do feminismo moderno. Catherine defende o capital erótico como mais uma classificação do ativo pessoal, haja vista que temos o econômico (dinheiro), social (o que se conhece e a quem se conhece), humano (estudo, formação e experiência profissional) e, para ela, também o erótico. A socióloga defende que o erótico é uma modalidade perfeitamente demonstrável e que os outros sociólogos não o estudaram por preconceito, por serem sexistas e patriarcais.

Mas, o que seria o capital erótico? Para Catherine, seria uma mescla de beleza, atrativo sexual, cuidado com a imagem e atitudes sociais que, elevada, promove a ascensão profissional e social de quem a possui. Seria, portanto, o conjunto de características individuais que uma pessoa reúne e apresenta à sociedade. A importância de seu estudo é a compreensão das interações sociais e da mobilidade social ascendente, e básico para entender a sexualidade e as relações sexuais.

A autora critica o feminismo radical ao afirmar que ele compactua com a opressão masculina sobre o corpo da mulher, sem ao menos se aperceber disso. O feminismo radical estimula a intelectual a não ter maiores preocupações com a aparência, pois a mulher deve ascender socialmente pelas ideias e não através da beleza. A preocupação dessa ala radical é que o corpo feminino não se torne objeto para os homens.

A crítica de Hakim faz sentido. Na história das sociedades, a cultura (determinada pelos homens) sempre foi de repreender a sensualidade feminina como um meio de controle do homem sobre o corpo da mulher. Como bem disse a autora do “Capital Erótico”, a dicotomia menina boa/menina má foi estabelecida há séculos pelos homens em defesa de seus interesses patriarcais, para controlar as atividades e as presenças femininas em lugares públicos. Com o passar do tempo, nós, mulheres, acabamos aceitando e respaldando essa ideologia masculina que nos rotula e deprecia.

Essa obra é polêmica. Porque nega a igualdade de desejo sexual entre homens e mulheres. Segundo Hakim, os homens têm sempre menos sexo do que gostariam e isso põe a mulher em situação de vantagem para negociar a sua sexualidade em qualquer situação, não apenas na cama. No cotidiano, por exemplo, o homem heterossexual atende mais gentilmente (no ambiente social e profissional) uma mulher que ele considere desejável do que outra que considere feia ou mesmo a outro homem. Isso se deve ao déficit sexual masculino. Freud já defendia que as relações humanas estão centradas na sexualidade.

Mas o que fazer se a natureza não lhe foi generosa? Catherine diz que o conceito de capital erótico não se resume à beleza física. Esta é apenas um dos seus componentes. Quem não nasceu linda, pode elevar seu poder atrativo através de vestimentas, penteados, charme, comportamento social, simpatia, inteligência, em suma, se valer dos demais itens que compõem o capital erótico. Todavia, ela alerta que é válido investir em tratamento dentário para adquirir um sorriso bonito, em plásticas, salão de beleza, enfim, todos os métodos necessários para elevar o poder de sedução.

Catherine afirma que pessoas com elevado capital erótico tendem a ser mais bem sucedidas que às outras, pois o mundo sorri para elas e elas, que, por sua vez, lhes devolvem o sorriso. Por isso, geralmente são pessoas mais seguras e melhor resolvidas no campo profissional. O poder de sedução permite que, quem tenha menos estudos ou menor habilidade em outros ativos, evolua de camada social, através do matrimônio ou de uma profissão que seja pautada na beleza.

Defende a Socióloga, ser impossível desligar sexualidade, dinheiro e amor, apesar dos protestos e espanto que essa afirmação possa causar. E exemplifica através dos acordos pré-nupciais, do regime de bens e dos inventários. Ou seja, a troca, entre os parceiros, de amor, sexo e dinheiro é direta e indissociável em qualquer sociedade.

Outra polêmica diz respeito à conclusão de Hakim quanto a rigidez no campo sexual adulto. Para ela, quanto mais intolerante forem as leis, maior é a procura por sexo. Ela contrastou os estudos sobre a sexualidade em vários países do mundo, e verificou que os países angloxassônicos protestantes têm um déficit sexual masculino maior que os demais, tanto que eles formam a grande clientela do turismo sexual nos países menos rígidos, como o nosso. Ela destaca que George Orwell acertou quando apresentou o sexo como um ato politicamente subversivo no Estado Totalitário de 1984. No famoso livro, o sexo representava um jardim de prazer privado em que o Estado não podia controlar.

O essencial no livro Capital Erótico é que ele levanta questionamentos sobre o lugar da sensualidade feminina nas convenções sociais, propondo um equilíbrio na política de poder da atração e do desejo, através do distanciamento do controle ideológico das concepções patriarcais sobre o funcionamento das relações sociais e as aspirações de vida das mulheres.

8 Comments

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  1. Perigosamente, com ironia e destemor, as mulheres têm demonstrado que não rejeitam falar e escrever. E ocupam os espaços todos. Leiam o instigante artigo de Ana Karla. Tirem suas conclusões. E esqueçam o “perigosamente” do início. Falha minha. São as trevas do machismo que ainda imperam. O “Observatório Feminino” vai iluminar tudo.

  2. É um tema instigante, arriscado até. E muito bom de conhecer. Excelente abordagem, que ajuda a informar e conscientizar os homens sobre o poder feminino. Pelo que se viu do texto, a sensualidade feminina pode ser resultado do cuidado de si, não só das “abençoadas” pela natureza, o que aumenta a autoestima, levando à consciência do próprio potencial, o que abre portas naturalmente. Elas estão mesmo conquistando os espaços, e com merecimento. Não dá para não se deixar seduzir.

  3. Este artigo, trás à baila um tema tão discutido, seja nas diversas mídias ou nos mais recônditos lugares do mundo, mas que desta vez, é apresentado sob uma nuance pra lá de interessante, nova e instigante!
    Para as/os que gostam do debate de idéias como forma de produzir o novo conhecimento, eis aí uma bela oportunidade!
    Parabéns Dudinha!

  4. Ana Karla,

    O seu texto me instigou a ler o quanto antes o livro. Ele será prioridade. O título do livro atrai pela temática e, pelo o que li aqui, rompe com as ideias prévias surgidas. Interessante a quebra que a autora faz ao abordar um tema marginalizado e muitas vezes tratado, até por nós mulheres,de forma preconceituosa. Excelente texto. Parabéns.

  5. O Capital Erótico, são as sensações emitidas por esse “Todo” de paixões. E não é só ao corpo que me refiro, mas ao movimento ontológico e mistico que o mesmo faz perante nós. Os corpos trazem consigo mistérios. E os mistérios, esses nos são também desejos. O Erótico, é mistico e ousado. É bom, porém instável, pois movimenta-se em busca do novo, e se reformula a partir do seu objeto de desejo. O Ser Erótico é livre e não tem sexo, por isso na antiga Grécia era muito comentado e evidenciado os Seres Andróginos ou seja a “Androgenia”, que eram os seres sem características notavelmente femininas ou masculinas, mas eram misturados, traços misturados de homem com mulher,ou vice e versa, e essas não se restringiam ao físico somente. Então, o Erótico possui tamanha liberdade que não demonstra sexo e não precisa sexualizar-se, pois os desejo é inerente ao órgão sexual. Ele é o próprio desejo, que está interligado ao imaginário aqui falado FEMININO.

  6. Ana, já li este livro e posso dizer que você foi feliz ao trazer para as observadoras, uma apresentação impessoal, permitindo que a leitora tire suas próprias conclusões. Digo isto porque já li muitas críticas absurdas em revistas, blogs, jornais etc sobre o referido livro.
    O sexo nunca desempenhou um papel tão importante na vida moderna, e o mundo nunca foi tão sexual. Nesse contexto, saber seduzir é uma vantagem competitiva SIM!, Por isso que o livro de Hakim é tão polêmico, e anda tirando o sono das feministas mais aguerridas, que acreditam que a autora exclui do processo de empoderamento, a existência do capital econômico, social e humano já apresentado por Pierre de Bourdier. Creio que a autora apenas se propôs a sistematizar uma lógica já existente, para alguns, a dificuldade agora esta em aceitá-la!!

  7. Mais do que apenas seduzir as pessoas,a beleza é associada,inconsciemente,a características positivas como inteligência, caráter e liderança. Segundo Freud, o olhar,é um prazer correspondente ao de tocar e está ligado diretamente a nossos impulsos eróticos essenciais.É o tipo de coisa que podemos controlar,
    mas não suprimir. Bjs. no coração.

  8. Mostrar o poder da beleza e da sensualidade longe da hipocrisia que redunda esses tempos modernos é sedutor. Já elegi o Capital Erótico como 1 leitura de 2013. Excelente sugestão.

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