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‘Até hoje eu me culpo por não ter botado meu ex-marido preso’

Aos 23 anos, terminando a faculdade, eu conheci meu futuro marido. Ele era auxiliar administrativo da secretaria. Bonito, falava alto, conhecia todo mundo. Na primeira vez que nos beijamos,  no estacionamento, um colega de trabalho dele veio me avisar, aos risos, que eu estava entrando numa roubada, porque Adriano era alcoólatra. Nós três rimos. Eu não sabia que aquilo era realmente um aviso. Adriano não era só alcoólatra. Era imaturo, impulsivo, irresponsável… Mas ao mesmo tempo tão risonho e engraçado que ”parecia compensar”. Conheci a mãe dele com uns três dias de namoro. Era um sábado, estava tendo uma feijoada na casa de uma vizinha da família. Eu cheguei lá no fim da manhã. Adriano já estava com os olhos baixos de tanto beber e transtornado com meu atraso.

Um mês depois, estávamos num bar perto da faculdade quando ele destratou um garçom idoso por conta da temperatura do copo da cerveja. Fiquei corroída por dentro, mas ele depois pediu desculpas e disse que estava estressado. Ele às vezes desligava o celular por horas e me chamava de louca quando eu mandava mensagens reclamando. Não sabia lidar bem com dinheiro, não tinha planos certos pro futuro… Mas a mãe dele romantizava tanto essa personalidade problemática, que eu me esforçava para acreditar que ele era ”um rapaz maravilhoso precisando de uma mulher de verdade para crescer”. Quando eu pensava em terminar o namoro, desistia. Pensava que todos os homens do mundo têm defeito e que aqueles defeitos de Adriano eram pequenos. O importante era ser uma boa pessoa, ser apaixonado por mim, ter química no relacionamento, boa relação entre as famílias. Uma vez, ele bateu na minha perna com o macaco do carro, porque eu estava na estrada, reclamando que ele só andava em alta velocidade e já tinha furado o pneu duas vezes. Fiquei mancando por dois dias, mas ganhei flores, café da manhã na cama, declaração no finado Orkut… Aí pensei ”faz parte. Todo mundo erra. Relacionamento tem dessas coisas. Ele disse que calculou errado  própria força”.

Um dia, eu tive mais coragem, terminei o namoro de verdade, depois de descobrir que ele ia pra shows na madrugada dos domingos escondido de mim. Cortei a palhaçada. Fui pra casa, desliguei o celular. Eu morava sozinha com meu pai, que naquela dia estava no interior. Me deu um vazio tão grande, um medo de ficar só no mundo… Liguei pra ele pedindo perdão por ter feito uma tempestade num copo d´’agua. A gente foi morar junto. Um casamento de altos e baixos . Mais baixos do que altos. Um dia, numa segunda-feira depois da virada de ano, a gente estava fazendo um churrasco em casa quando o questionei sobre o motivo dele ter convidado um grupo de amigos que eu não conhecia. Ele mandou eu entrar no carro com ele para comprar gelo. Quando chegou na avenida, abriu a porta do carro e me mandou pular. Assim. Sem dar um grito. Fui andando para casa. Quando o cachorro começou a latir porque eu chamei no portão, ele queimou o cachorro com a ponta quente do espeto. Mandou eu ir para casa do meu pai, senão ele ia fazer a mesma coisa na minha barriga. Eu fui, mas antes fui na polícia, sozinha. Mostrei o dedão do pé em carne viva, disse que queria denunciar meu marido. O rapaz que me atendeu disse que esse era um caminho sem volta. Mandou eu avaliar seu eu queria mesmo dar andamento a essa ”briga” ou se preferia ver isso como um desentendimento de casal. Desisti. Meu marido foi me buscar na casa do meu pai uma semana depois, com meu cachorro. Meu pai mandou eu ir cuidar da minha família e deixar de ter gênio ruim.

A história toda só acabou um ano e meio depois, quando comecei a brigar com ele porque ele estava dormindo sujo e embriagado em cima da cama limpa, depois da festa de aniversário da mãe dele. Ele pegou o abajur, arrancou a lâmpada e estourou no meu rosto enquanto dizia que eu era insuportável, que não prestava pra ser casada e que ia terminar a vida sozinha. Levei 26 pontos e fiquei com uma cicatriz no nariz, que segundo ele me disse por mensagem de celular depois, era para eu lembrar a não meter o nariz onde não era chamada. Eu achava que gostava muito da mãe dele, uma mulher muito sofrida, que também teve um casamento horrível. Atendi ao pedido dela e do meu cunhado de ir embora de  casa e não envolver a polícia nisso. Em troca, eles iam cuidar pra que Adriano não me procurasse mais. Isso têm oito anos. Até hoje eu me culpo por não ter botado meu ex-marido preso. Até hoje eu penso sobre quantos avisos eu tive. ”E se eu tivesse terminado no dia que ele bateu na minha perna? Ou no dia que ele reclamou porque me atrasei para a feijoada? Ou no dia que destratou o garçom? Ou no dia que desligou o celular ou no dia, principalmente, que queimou meu cachorro e me empurrou de um carro em movimento?”. Eu teria evitado anos de agressão , podia ter conhecido outras pessoas, podia ter tido uma outra vida. Mas a gente, mulher , é ensinada a relativizar violência. O cara que a gente conhece nunca é um agressor em potencial, mas um homem legal, com problemas, que teve erros pontuais. A gente aprende a pensar que é nossa missão mudar o homem problemático, porque isso é prova do quanto somos maravilhosas e amadas. A gente aprende que mulher não precisar ser tão exigente e que ela é culpada por tirar o homem do sério com reclamações bestas sobre a cama limpa e  celular desligado. A sociedade, nossa família, a família do cara e até alguns amigos ajudam nesse processo abusivo. Mandam perdoar, entender, ajudar, relevar, pensar no futuro, na família, nos anos vividos e nos filhos , quando há.

Hoje, eu me sinto regozijada ao ver como meninas novas se apoiam nas redes sociais, fortalecendo umas às outras e dizendo que não existe tolerância para violência e abuso. Não existe segunda chance para o amor quando o suposto amor vem de alguém que age ou te trata como um lixo. Relevar a gente releva uma palavra usada de maneira errada, um dia de cansaço, um estresse, uma falta de compreensão, um mal entendido, uma toalha na cama, um celular descarregado, uma impaciência, um compromisso esquecido. Uma vez ou outra no casamento, isso vai existir. Como existe nas amizades. É a régua que hoje eu uso e ensino outras mulheres a usar: o que ele fez, você acha que um amigo ou parente próximo poderia fazer com você? Te magoar, desapontar… Se sim, então, sente, resolva e melhorem . Pessoas não são perfeitas e relações têm coisas difíceis. Mas se ele ameaçou, te fez sentir um nada, te deu medo… Você consegue ver um amigo fazendo isso? Um familiar amado? Então, ele não errou como qualquer outro ser humano, ele é um escroto se aproveitando da posição de companheiro para te prender num relacionamento abusivo. Fica a dica eu não tive.

 

 

Adriano é um nome fictício. A autora do texto prefere não divulgar seu nome nem a cidade onde mora. Se você também é uma observadora e tem uma história para contar, escreva pra gente através da Fanpage do OF: www.facebook.com/observatoriofemininooficial.

 

Histórias podem ter poderes transformadores na vida das pessoas. 

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