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‘Amor é transferência. Não mão de duas vias’

Começo o texto pedindo desculpas. É mal sinal, normalmente, começar qualquer coisa pedindo desculpas: mas existem casos em que a mesura é delicadeza para abrir uma necessária discordância, mesmo correndo o risco de ser menos Disney que o recomendado para falar de amor. É o caso agora.

Mas antes de falar de amor, ou do que eu acredito que possa vir a ser amor (e o que as pessoas comumente entendem por amor), eu gostaria de fazer algumas considerações sobre o egoísmo.

Considero alguns sentimentos natos: nascidos com o indivíduo. O egoísmo é um deles. É o instinto de bem-querer-se (assim mesmo, com neologismo). De querer para si o melhor, de buscar para si o conforto, o próprio bem-estar, a despeito dos outros, mas não necessariamente. O egoísmo não exige o mal do outro, apesar de, como resultado do convívio em sociedade, ser atributo considerado negativo, porque privilegia o “Eu” frente ao “Outro”.

Isso posto, gostaria que o leitor atentasse para a seguinte pergunta: quando você se apaixona por alguém, o que te impulsionou a seguir adiante? Uma boa conversa, os belos olhos, o senso de humor, a inteligência, a língua afiada do outro? Poderia enumerar várias qualidades do Outro, para cada Eu apaixonado. Mas o que é importante frisar após essa pergunta é que é necessário observarmos que antes de encontrar no Outro a razão para gostar dele, achamos em nós mesmos os motivos: Ele é o Outro que satisfaz o Eu. É o Outro que satisfaz o Eu sorrindo, sendo inteligente, sendo perspicaz, sendo lindo. Logo, apaixonar-se é deleitar-se com o que o Outro te dá. E isso, naturalmente, independe de qualquer forma de engajamento prévio do Outro. Eu me satisfaço tomando uma boa cerveja, por exemplo. Esse Outro, provavelmente, sempre foi da maneira como você o viu “naquela noite especial sob a luz âmbar do boteco perfeito”. Ele só estava lá e entregou para o Eu aquilo que o Outro sempre faz sem nem saber o porquê. A diferença aí é você e, sobretudo, a sua satisfação: como você se sente confortável, como aquela situação atende ao seu Ego.

E o que eu quero dizer sobre isso? Que amor não existe? Bem, até agora não falei de amor, perceba. É que amor, amor mesmo, requer um bocado mais do Outro. Um Outro diferente, na verdade. Um Outro que tenha Eu. E o que eu digo com isso? Que amor é transferência. Não mão de duas vias. Esqueça isso. Que amor é ser parte no Outro. Não romanticamente – segure o suspiro. É Ser no Outro. E uma vez sendo no Outro, querer para Ele o melhor, o bem-estar-se, a satisfação. Ou seja: amar tem muito a ver, na minha opinião, com egoísmo. Só é possível amar a si mesmo. E só é possível amar o Outro, fazendo parte, você mesmo, dele. Aí, sendo Ele (um Ele com um pedaço de você), surge a urgência de satisfazer o Outro, de atender o Outro, de atentar para o Outro. Nada de romantismo, por favor. Isso só atrapalha, acredite. É sério.

Amar não é doar. Amar não é aceitar. Amar não é acreditar. É ser parte no Outro (não parte do Outro, o Outro é um todo completo). Daí que, amando, se torna impossível negligenciar o Outro, por ser negligenciar a si mesmo, o que representaria um atentado ao Eu, a sua necessidade por querer-se-bem e satisfazer-se.

Tendo isso em vista, procure em sua memória, aquelas conversas com suas amigas ou amigos, em que você vaticinou: ele nunca me amou. Não se importa comigo, nunca fez nada pra mim, quando eu estava na pior, me abandonou. É verdade. Nunca te amou. E provavelmente, com a certeza de um exame de DNA, você também jamais o amou.

É por isso também que quem não tem amor próprio (Ego), não pode amar o Outro. O jargão popular tem das suas sabedorias. O povo, às vezes, não mente. Quem não quer bem a si, não pode (não consegue) querer bem ao Outro. Só podemos dar o que temos, não é verdade? Mas isso é assunto pra outra conversa.

Thiago Dantas é poeta, escritor e autor do blog Cães do Conselheiro

 

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Você ama o outro quando ele merece ou mais precisa?

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