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A realidade e os desafios da Saúde da Mulher

Por Carol Maia – Imagem de Capa: Reprodução

Encontram-se na sociedade vários conceitos sobre a saúde da mulher. Há concepções que consideram apenas aspectos relacionados à anatomia do corpo feminino e outras mais abertas, que se comunicam com questões como a cidadania e a igualdade de direitos.

Tratar o tema como uma vertente complementar ainda parece uma realidade distante. E esse é o grande equívoco. Quando a mulher é apenas vista como fonte reprodutora, a maternidade torna-se o seu predicado primordial. E a saúde da mulher não pode ser limitada à relação materno-infantil. Os direitos sexuais e e as questões do gênero também são igualmente importantes nesse contexto, por isso precisam ser abordados de maneira conjunta.

A ausência de doença, por si só, não pode ser um indicador de saúde perfeita. O bem-estar físico, mental e social da mulher precisam estar assegurados. Portanto, ter políticas de saúde públicas voltadas para nós, mulheres, não é item de luxo. É direito.

Na entrevista abaixo, a primeira-dama de Lagoa Grande (PE), Danila Barboza,  lança o seu olhar conhecedor sobre o tema proposto. Ela é formada em Enfermagem pela Universidade Estadual da Paraíba, e desde então está inserida no contexto de saúde pública através da estratégia da saúde da família. É militante do SUS (Sistema Único de Saúde) e já atuou na rede de frios municipal (logística do programa nacional de imunizações), na coordenação do núcleo de promoção de saúde e prevenção de violências (nível municipal), na coordenação de atenção primária e de educação permanente.

Confira!

OF – Porque o cenário da saúde feminina ainda se resume muito à questão reprodutiva?

DB –  O ciclo reprodutivo da mulher é um período de grande vulnerabilidade e, cronologicamente, absorve entre 35 a 40 anos de vida da mulher, por isso, tem sido sempre foco central nas discussões e nas elaborações de planos de assistência e ações em saúde. Porém o cenário mudou muito. A saúde da mulher recebeu uma injeção de ânimo. Ela impele novos olhares sobre o feminino, além de abrir portas para novas discussões, repensando também todo o seu conceito de saúde.

OF – Como está sendo realizada a política de saúde pública para as mulheres no Brasil? Quais os desafios e os avanços já ocorridos?

DB – Atualmente a mulher demanda uma gama bem maior de necessidades de articulação, tanto considerando o contexto psicossocial, quanto o econômico. O grande marco foi, sem dúvida, a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em 1985, orgão vinculado ao Ministério da Justiça para promover políticas que visam eliminar a discriminação contra a mulher e assegurar sua participação nas atividades políticas, econômicas e culturais. A Secretaria de Políticas para a Mulher também deu uma grande contribuição, com a competência de assessorar na formulação e na articulação de políticas para as mulheres baseadas na promoção da igualdade. Sendo também um espaço para debate sobre vários temas como autonomia econômica da mulher, enfrentamento de violências com ações preventivas, garantias de direitos e fortalecimento da rede de atendimento.

OF – A saúde não deveria ser vista como item na prateleira – a ser comercializado – , mas como um direito individual e coletivo necessário para o diagnóstico e a recuperação das causas do adoecimento. Então até que ponto dá para admitir defasagens nessa área?

DB – Após tudo o que foi dito sobre o Conselho e a Secretaria da Mulher, na verdade, não dá pra admitir defasagens, porém, vivemos uma política refém dos maus costumes, do ostracismo, do comodismo. Precisamos urgente de “militantes” do SUS, profissionais com compromisso, movidos pelo interesse comum em fazer política de verdade, respeitando princípios e cumprindo diretrizes. COMPROMISSO PROFISSIONAL é a palavra de ordem que pode melhorar nossa atual situação. A legislação existe e precisa cumprida!

OF – O projeto da prefeitura de Lagoa Grande voltado para o cuidado intensivo à mulher vai além das áreas de prevenção e promoção da saúde, caminhando em paralelo com a inserção feminina na esfera social e profissional. Mas em termos práticos, quais os caminhos para transformar essa carta de intenções em um plano político executável?

DB – Às vezes, a fragmentação da atenção culmina em baixa resolutividade. Portanto, é necessário, em primeira mão, reestruturar a atenção destinada à questão. Em seguida, investir em planos mais intensos de adesão ao modelo do Estado na instituição de uma secretaria voltada para o tema. É importantíssimo criar uma estrutura de organização política, constituída por órgãos de defesa dos direitos da mulher, que seja capaz de realizar o diagnóstico e identificar o perfil das peculiaridades regionais da população a ser assistida – que também procure aguçar as potencialidades locais e siga os moldes da política nacional.

OF – De que maneira os movimentos sociais feministas podem contribuir para garantir seus direitos à saúde?

DB – Num trabalho de vigilância permanente e como apoiadores no processo de controle social. O que estamos sempre buscando é fazer a sociedade assumir seu papel na defesa dos direitos da mulher.

 

 

 

 

 

Danila  Barboza,

durante a entrevista.

4 Comments

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  1. olá, Ana, muito boa a entrevista, principalmente, pelo entendimento de que saude da mulher não pode se resumir ao binomio materno-infantil. A saude da mulher deve ser entendido na perspcetivas de direitos reprodutivos onde a mulher pode decidir se quer ter filhos e para isto é importante garantir acesso ao planejamento familiar, que possibilite a mulher escolher qual o melhor método anticoncepcional, garantia ao pré-natal de qualidade, assistência ao parto e até o direito ao aborto, de acordo com o que preconiza a lei.
    Além disso, é preciso garantir acesso as ações de prevenção de câncer de mama, do colo de utero e outros, e também assistencia à saude, a prcedimentos de média e alta complexidades. É preciso também ter um olhar para as mulheres trabalhadoras, que tem uma sobrecarga de trabalho, tendo maior risco de adoecimento.

  2. Gessyanne é Secretária de Saúde de Jaboatão dos Guararapes e é outra grande mulher que entende muito de saúde pública feminina. Sorte dos dois municípios que podem contar com essas duas mulheres esclarecidas e comprometidas! Um brinde às mulheres!

  3. Ana, mais uma vez quero parabeniza-la pela iniciativa em provocar o debate sobre um tema tão importante como é a saúde da mulher. Lembrei do inicio da minha militância no movimento de mulheres quando discutíamos os avanços na saude publica a paritr da implantação do SUS e a luta das mulheres para incluir a pauta do PAISM – Programa de Atenção Integral a Saude da Mulher, que, na época já chamava a atenção da sociedade para o fato de que saúde da mulher não se restringe apenas a saúde materna. Para a promoção da sua saúde, a mulher precisa ser vista como um sujeito integral e seus direitos sexuais e reprodutivos precisam ser respeitados como inerentes aos seus direitos humanos.
    A saúde da mulher avança na perspetiva de consolidar de uma importante área dos direitos das mulheres! Parabéns a Daniela pelo engajamento e pelo resgate.

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