in

A Paixão Pelo Romanesco

Artigo escrito por Nivaldo Mulatinho, publicado por Carol Maia

“Se o romance não existisse, eu o inventaria”

OSMAN LINS – (“Guerra sem Testemunhas” – 1974)

O homem é o único animal que faz fogo. E histórias. As primeiras narrativas nasceram ao redor das fogueiras, no descanso das aventuras. O homem precisa narrar, inventar. Precisa contar. Precisa fantasiar. Precisa mentir. E a mentira da arte é umas das formas que tem para descobrir suas verdades. Sua condição. Sua capacidade de duvidar e promover ambiguidades.

A mais fascinante teoria estética sobre os narradores, os mentirosos, os contadores de histórias, é a teoria do romance. Uma teoria que não é a dos que tomam a obra de arte como um pretexto para o exercício de um método (psicanalítico, linguístico, sociológico, histórico ou qualquer outro), mas a dos que têm a paixão pelo romanesco. Uma teoria que é a dos ensaístas e criadores como MILAN KUNDERA, o autor de “A Insustentável Leveza do Ser”, para quem a sabedoria do romance é a sabedoria da incerteza. A arte romanesca surge da dúvida, do impacto, da surpresa de tudo o que é humano, de tudo o que é incompatível, afinal, com as chamadas certezas científicas ou ideológicas. O escritor tcheco diz que o romancista, a exemplo de Penélope, desfaz, durante a noite, a tapeçaria que os teólogos, os filósofos e os sábios procuram urdir no espaço do dia.

O verdadeiro romancista não quer provar nada.

Gilvan Lemos (Foto: Tom Cabral – extraída do blog Na Pauta do Dia)

A arte de ficção para GILVAN LEMOS é tudo. São Bento do Una o ensinou a sonhar. E a mentir. Mentir com a fabulação e a alegria dos narradores da sua terra, como Joaquim Gordo, a quem GILVAN dedica “Espaço Terrestre”, o seu romance de 1993. Foi de Joaquim que GILVAN ouviu fantasias narradas no mais genuíno realismo mágico, antes do surgimento de qualquer moda literária.

Homenagear GILVAN LEMOS é consagrar a arte da ficção. E vou trazer um dos livros dele que mais me impactaram. Resumo o enredo.

Camilo Martins cultiva uma pequena propriedade perto da fazenda do seu tio, o Major Germano, um homem poderoso que vai à justiça, tentando reempossar-se do bem que se encontra com o sobrinho. Em vez de ceder sua terra, Camilo jura que vai lutar até a morte contra o tio, o maior proprietário da região.

Esse é o tema central de “Emissários do Diabo”, livro de 1968, para mim, ainda, a obra-prima de GILVAN LEMOS. O tema, em si mesmo, é igual aos de muitos filmes clássicos de faroeste : a ganância pelas terras dos proprietários rurais menos protegidos. Mas, nas mãos de GILVAN LEMOS, tudo se transforma.  O romancista jamais perde o controle de sua narrativa. “Emissários do Diabo” nunca é uma novelização de sentimentos ou de violências gratuitas, embora não esconda a crueldade do cangaceiro Paizinho Bala e seus homens, os emissários do título. É um livro que possui, como escreveu LUIZ DELGADO, “a estrutura psicológica e a apresentação literária bastantes para lhe assegurar permanência e triunfo em nossa novelística, dando relevo ao que é essencial – o insubstituível drama interior dos homens”.

Na primeira edição, da Civilização Brasileira, a Editora de Ênio Silveira, a “orelha” do livro é de LEANDRO KONDER. Ele escreve que Emissários do Diabo “situa-se a léguas do José Américo de Almeida d’A Bagaceira e do chamado ciclo do romance nordestino, bem como de qualquer regionalismo. A realidade brasileira aprendida e comunicada neste livro exclui a superficialidade do exotismo, a complacência do pitoresco: é a realidade dramática de uma condição humana que João Cabral de Melo Neto já tinha tomado por tema de alguns de seus melhores poemas e que Graciliano Ramos já tinha abordado – com olhos mais amargos – em São Bernardo”.

Livro Emissários do Diabo

E, ainda nas palavras de LEANDRO KONDER, encontramos gravada, em síntese admirável, o que é mais importante para o leitor, em qualquer livro, a emoção estética. Ele diz: “Como acontece em toda autêntica obra de arte, a leitura da presente novela (ou romance ?) proporciona ao leitor uma experiência necessariamente inédita, um conhecimento que só ela poderia proporcionar. Um conhecimento que – depois de adquiri-lo é que percebemos – era essencial à nossa vida e nos estava fazendo falta”.

GILVAN LEMOS ainda não foi adequadamente lido ou estudado, no Brasil, mas tem contos traduzidos para o francês e o alemão, e é um dos poucos escritores brasileiros escolhidos pela revista francesa “CARAVANES”, numa antologia de publicação anual, para figurar na seleção dos maiores contistas do mundo, entre vivos e mortos, como NABOKOV e GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, entre outros. O que não é pouco.

GILVAN LEMOS completou 84 (oitenta e quatro) anos no dia 1º de julho. Julho é o mês de nascimento de GILVAN LEMOS (dia 01), OSMAN LINS (dia 05) e HERMILO BORBA FILHO (dia 08). OSMAN LINS, que nasceu em Vitória de Santo Antão, no ano de 1924, faleceu em 1978, com apenas 54 (cinqüenta e quatro) anos, na data de 08 de julho, dia do nascimento de HERMILO BORBA FILHO, o grande teatrólogo e romancista que morreu no dia 02 de junho de 1976, dois anos antes de OSMAN.

Uma magnífica linhagem pernambucana essa de julho, com os filhos de Palmares (terra de HERMILO), São Bento do Una (terra de GILVAN) e Vitória de Santo Antão (terra de OSMAN).

GILVAN LEMOS estreou em 1956 com o romance “Noturno Sem Música”, e é hoje autor de uma obra que inclui, entre romances e contos, mais de 25 títulos, vários deles premiados.

Aqui, partindo de “Emissários do Diabo”, destaco um romance de GILVAN LEMOS raramente comentado, “Os Pardais Estão Voltando”, de 1983.

“Os Pardais Estão Voltando” foi publicado pela Editora Guararapes, editora pernambucana conhecida na sua época pela ousadia dos seus lançamentos, entre eles os três volumes de “O Caso Eu Conto Como Caso Foi”, de PAULO CAVALCANTI, e o, até então proibido, “Até Quarta, Isabela!” , de FRANCISCO JULIÃO.

Não gosto da classificação de romance político para os livros que admiro e consagro.

O chamado romance político é limitado. Sabemos. Não ultrapassa suas conotações estritamente políticas ou ideológicas. Muitas vezes, apesar das suas melhores intenções – intenções que nada significam, na verdadeira arte – configura-se puro panfleto, criação datada, com uma morte literária absolutamente certa.

O norte-americano MALCOLM SILVERMAN, crítico literário, brasilianista, professor da Universidade de San Diego-Califórnia, falecido em 2008, sabia muito bem dessas limitações da ficção política ao fazer um levantamento sistemático da produção romanesca brasileira nas mais de duas décadas do Regime Militar instalado no Brasil, a partir de 1964. O livro dele chama-se “Protesto e o Novo Romance Brasileiro”, cuja segunda edição, traduzida no Brasil, foi lançada no ano 2000, pela “Civilização Brasileira”, a mais importante e a mais audaciosa editora da época do regime militar, editora que publicou, em maio de 1968, “Emissários do Diabo” e, de 1966 a 1972, os quatro volumes de “Um Cavalheiro da Segunda Decadência”, romances de HERMILO BORBA FILHO, uma tetralogia que tem uma marca definitiva na literatura brasileira, além de qualquer data ou período político.

A palavra protesto era moda nos anos 60, usada tanto na música, quanto na literatura, e no seu livro acima referido, MALCOLM SILVERMAN fala do Romance “O Anjo do Quarto Dia”, lançado em 1981, com o qual GILVAN LEMOS ganhou o Prêmio Érico Veríssimo. Ele classifica o livro de GILVAN entre as obras enumeradas no capítulo intitulado “Romance da Sátira Política Surrealista”. No capítulo referido, encontra-se “Incidente Em Antares” (1971), a estranha e densa ficção de ÉRICO VERÍSSIMO, um dos escritores que lutaram contra a censura naquela época, juntamente com JORGE AMADO.

O cenário de “Os Pardais Estão Voltando” é “BENTUNA”,  ou seja, GILVAN não procurou disfarçar a respeito do local, que pode ser a sua São Bento do Una. Ou qualquer cidade do interior brasileiro, com todas as ocorrências e circunstâncias, vindas logo depois do golpe militar de 1964.

No livro, o escritor FÁBIO MOREIRA volta para “BENTUNA”, já com o seu nome consagrado na literatura, especialmente nos estados do sul do Brasil, para reviver sua infância e, também, saber dos acontecimentos que ele não presenciou, ocorridos logo após o mês de abril de 1964. E ele vai ouvir as histórias ligadas ao misterioso EDESON, considerado comunista, e ao possível parceiro dele, chamado LUCAS PRADO, morto ao fugir da cadeia pública, num caso de intrigas, injunções políticas e crimes diversos.

Sobre a época imediatamente posterior ao golpe militar, GILVAN descreve a cena que se segue, relatando as arbitrariedades das chamadas autoridades públicas.

Curiosos se aglomeravam frente à delegacia de BENTUNA. Desde cedo haviam começado as prisões dos chamados subversivos, pois as autoridades acatavam qualquer denúncia. Assim a cadeia ficou lotada. Enquanto isso, em sua casa, no alto da cidade, o juiz Samuel conversava com o promotor Limeira, denotando certa preocupação:

“- Não temos autoridade para isso, Limeira. No máximo, cabe-nos fazer a denúncia. O exército é quem se encarrega das prisões. Ademais, que culpa tem o povo ?  É degradante, Limeira, degradante.

_ Tolice, Samuel. O exército tomará conhecimento quando tudo já estiver mais ou menos encaminhado. Estamos fazendo uma triagem.Quando tivermos um bom número de culpados, então faremos com que o exército entre em cena.

_Como será feita a triagem ?

_Osvaldo tem o seu método próprio não se preocupe. Já pensou em nosso prestígio, quando entregarmos às forças armadas uma duas dúzias de subversivos ? – O promotor piscava, matreiro, conivente : – Você conseguirá facilmente o desejado cargo de desembargador, no mínimo. Eu me conformo com uma procuradoria. Quero sair daqui Samuel. Não suporto mais esta cidade.” (“Os Pardais Estão Voltando”, Editora Guararapes, 1983, págs. 107/108).

Um dos chamados subversivos presos, o personagem EDESON, é quem curiosamente assina o oferecimento do livro de GILVAN LEMOS, dedicando-o :

“Aos humildes (para que não mais o sejam).

Aos que choram (para que sequem as lágrimas).

Aos mansos (para que se enfureçam).

Aos que têm fome e sede de justiça (para que se saciem).

Aos misericordiosos (para que não mais se compadeçam).

Aos limpos de coração (para que se corrompam).

Aos pacificadores (para que promovam a revolta).

Aos que têm sido perseguidos por causa da justiça (para que se tornem perseguidores)”.

A dedicatória é uma espécie de Anti-Sermão da Montanha.

O EDESON de GILVAN LEMOS foi preso na triagem elogiada pelo promotor de BENTUNA. Preso também foi o velho índio ROSENDO MAQUI, o personagem do peruano CIRO ALEGRIA, do livro “GRANDE E ESTRANHO É O MUNDO”, em outro tempo latino-americano. E ROSENDO MAQUI é citado na epígrafe do Capítulo 11 de “Os Pardais Estão Voltando”. Vale a pena transcrever o trecho de “GRANDE E ESTRANHO É O MUNDO”, justamente o que fala da prisão do índio. Ou, se quisermos, da prisão de qualquer homem, culpado ou inocente, mas, especialmente do preso por razões ou supostas razões políticas:

“Rosendo Maqui tomou contato com a solidão do confinamento (…) Quando no dia seguinte abriu os olhos e encontrou-se no modesto leito estendido sobre o chão, sentiu-se realmente preso. Ali estavam as quatro paredes impávidas; o chão gasto, fedorento, doido pelo peso da desgraça; a porta rígida, proibindo também a voz do homem; a janelinha de grades grossas que apenas deixavam filtrar a luz. Apalpou a parede. Era sólida para sua velhice e mais ainda para suas mãos inermes. Nenhum preso, seja ele o mais culpado, deixa de sentir na parede a dureza do coração humano. Rosendo não se achava culpado e via na parede a própria negação da vida” (“GRANDE E ESTRANHO É O MUNDO”, Editora Paz e Terra, 1981, p.260).

Com “Os Pardais Estão Voltando”, GILVAN LEMOS consegue ser contestador, mantendo, poeticamente, a coerência interna dos grandes livros, que é a condição primordial para que um Romance seja, além de um documento social, uma obra de arte, como escreveu MARIO VARGAS LLOSA, falando do livro “Grande E Estranho É O Mundo”, do seu conterrâneo Ciro Alegria.

Há regionalismos e regionalismos. É preciso saber pintar a aldeia para merecer a famosa frase de TOLSTÓI.

O escritor israelense AMÓS OZ, entrevistado em Paraty, no ano de 2007, afirmou que a chamada literatura global não significa nada. É um tipo de literatura para ser lida nos Aeroportos e, depois, jogada no lixo. Para ele, toda verdadeira Literatura nasce na aldeia. É Regional, antes de tudo. É Local para poder ser Universal. Sempre foi assim.

Da sua Turquia, ORHAN PAMUK, o Nobel de 2006, manda a sua mensagem. Para ele, a Literatura é remédio. Como os medicamentos que as outras pessoas tomam de colher ou injeções, ele toma a sua dose diária de Literatura ou a sua droga cotidiana, se preferirem. Eu também entro numa livraria como se entra em uma farmácia. Também preciso da minha dose de ficção na veia. Os romancistas, mesmo os mais fracos, sempre nos trazem uma perspectiva: procurar se manter no lugar dos outros. Viver a vida dos outros.

PAMUK tem palavras definitivas sobre o assunto. Ele escreve:

 “A história do romance é a história da libertação humana: ao nos colocarmos no lugar do outro, usando a imaginação para nos desprender da nossa identidade própria, podemos conquistar a liberdade”.

O caruaruense ÁLVARO LINS, chamado, nos anos 40 e 50, de “Imperador da Crítica Brasileira”, tinha “inveja” de quem escrevia um romance, e faz questão de afirmar isso, em uma das epígrafes que escolheu para o seu livro “O Relógio e o Quadrante”, publicado em 1964, reunindo ensaios e estudos escritos desde 1940. Ele sabia, como TODOROV, que quando o crítico tiver dito tudo sobre um texto literário, não terá ainda dito nada.

Ler corretamente é correr grandes riscos, ensina GEORGE STEINER, em “Linguagem e Silêncio”. É tornar vulnerável nossa identidade, nosso autodomínio.

Viver é perigoso, diz RIOBALDO, o personagem de GUIMARÃES ROSA, em “Grande Sertão: Veredas”. Ler é perigoso também. Mas é um perigo que vale a pena enfrentar. Mesmo.

OSMAN LINS era muito exigente a respeito do papel do escritor, e ele próprio foi um ficcionista e ensaísta com a cultura e a coragem necessárias para o combate do artista, para as lutas próprias do que ele chamou de “guerra sem testemunhas”, título de um de seus livros. Um admirável livro. Um ensaio sobre a condição do escritor e sua realidade social. Uma série de reflexões e confissões sobre o ofício de escrever. Ele proclama seu amor pela arte romanesca. E diz:

Se não existisse o romance, eu o inventaria”.

OSMAN LINS não chegou a ler “O Anjo do Quarto Dia” nem “Os Pardais Estão Voltando”, livros publicados após a sua morte, mas certamente louvaria, em razão desses livros e de outros, o comprometimento de GILVAN LEMOS.

Um romance de OSMAN LINS, lançado em 1973, o belo e polêmico livro chamado “AVALOVARA” também foi mencionado no livro de MALCOLM SILVERMAN, que o classificou entre os romances intimistas publicados durante as décadas do regime militar, destacando os seus dispositivos estruturais inovadores e o seu simbolismo cósmico em torno da vida e da morte.

Um trecho do Romance “AVALOVARA”, que trata da palavra e da condição do escritor, pode resumir tudo o que procuramos imperfeitamente dizer sobre o comprometimento do ficcionista e da literatura romanesca:

“A palavra sagra os Reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, também é a bala dos desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres”.

 

 

 

3 Comments

Leave a Reply
    • Fábio, obrigada pelo link com o post de Gilvan Lemos. O Observatório Feminino aprecia as obras desse grande autor pernambucano. Continue a acompanhar nossas colunas, especialmente a Radar Cultural.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Entrevista com a arquiteta e artista plástica Júlia Costa

Pra lá de Bagdá