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Manterrupting, mansplaining e gaslighting

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Ontem, eu estava trabalhando na mesa de um café aqui da Zona Norte de Recife quando um casal em aparente fase de início de relacionamento chegou. Ele falava alto. Muito. Impossível não ouvir a conversa. Duas palavras do cara e meu alarme já apitou. Tipo de homem que não deixa a mulher abrir a boca e usa um irritante tom didático pra tudo. Disse que costumava testar a “honestidade” das mulheres com quem se relacionava. Deu aulas sobre contratos amorosos. Falou de dinheiro por horas. Egocêntrico, arrogante, mestre em manterrupting.
Uma salada inteira depois e a moça não conseguia concluir uma frase, não era em momento algum questionada sobre a própria vida, a filha, a vida e o casamento recém-terminado. Não era ponto interessante do papo. O ponto era ele. O centro. A porra toda.
Ele, com a vida corrida, que só poderia viajar após o carnaval. Ele, que não ia pedir nada do cardápio porque tinha um compromisso à noite. Ele, que fez análises de dar sono sobre ele mesmo. Ele. Ele. Ele.
Numa hora, ele comentou que a ex ligou dia desses pedido dinheiro emprestado. Ele disse que emprestaria, mas, antes, queria sair com ela pra jantar. Aí a ex negou, ele se indignou e deu uma “lição de moral paternal” nela ( não, eu não sei o que significa isso). A moça que o acompanhava ficou chocada. Não com ele. Com a ex. Disse que ele devia ter dito “empresto, mas você me paga da forma que eu quiser”. E os dois gargalharam. Porque homens machistas contaminam mulheres vítimas.
 
Eu quis chorar. Pedir pra garçonete entregar um bilhete com a palavra “corra”. Chamar a moça no banheiro, dar um abraço nela. Dar aquele insight que a gente precisa ver quando tá cega de carência. Mas ela estava pendurada no cangote dele o tempo todo, risonha, esperançosa. Meu coração se despedaçou.
Era como ver o início de um filme que termina mal… E eu só queria que ela lesse esse artigo pra me odiar por dizer esse todo necessário a ela.
 
A gente tem alarme. A gente tem feeling. A gente sabe. Sabe quando está numa roubada. A gente tem que ser mais pragmática com o coração. Pular fora na hora certa. Com a sacada e perspicácia de quem sai de uma piscina lotada, de um mar agitado, de um lugar barulhento, de uma avenida movimentada, de uma rua escura, de um elevador sufocante, de um emprego bosta.
A gente precisa. Nem que seja no grito da amiga, na coragem da terapia, na confiança do conselho da mãe. Nem que seja.
 
 
Saí do café pensando no cara da loja de material de eletrodomésticos que, ao me ver procurar um suporte de parede para TV, ontem, perguntou se era meu marido quem ia instalar. Eu disse “eu mesma”. Ele riu, achando que era uma piada. Eu falei mentalmente sobre os ar-condicionados, camas e ventiladores de teto de já instalei por aí. Enquanto isso, ele explicava, de forma bem ilustrativa, que porca não é um animal e que parafuso precisa de bucha. Que eu devo forrar o chão com um pano antes de usar a furadeira, porque ela junta poeira e depois eu teria muito o que limpar.
 
Fim da aula. Eu limpo, meu marido instala.
 
 
O dia terminou num estacionamento privativo no Espinheiro. O guardador tentou me empurrar uma vaga estreita e esburacada, apesar dela não ser a única do lugar. Falei que não ia colocar o carro lá. Ele olhou pro vigia da rua, riu de mim e da minha carteira de habilitação M (de mulher, segundo ele).
 
Pronto. Cheguei no meu limite com aquela versão tênue-pública de gaslighting.
 
“o senhor tem carteira?”.
 
“Não”.
 
“Se tivesse, também seria M, de Mais um Machista de Merda no Mundo”.

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